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José Sócrates

Socráticos acusam António Costa de planear afastamento do ex-líder

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Do timing das intervenções de dirigentes socialistas ao corte com a tradição do PS. Do silêncio em momentos-chave do processo ao tom agora usado. Socráticos falam em "atuação concertada" do partido.

LUSA

Em 42 horas, pelo menos quatro figuras com altas responsabilidades no PS apareceram a falar sobre o mesmo assunto, e todas elas com um discurso alinhado quase à letra. No final, um ex-secretário-geral e ex-primeiro-ministro socialista que se desfilia do partido. Um desfecho sem precedentes em Portugal. Ação concertada de uma cúpula partidária liderada por António Costa? Ou coincidência, mera consequência das circunstâncias, depois de saber-se que o ex-ministro da Economia Manuel Pinho era suspeito de receber quase 800 mil euros do Grupo Espírito Santo entre 2005 e 2009, no período em que estava no Governo de José Sócrates, também ele envolvido em suspeitas (neste caso, já vertidas em acusação do Ministério Público) de crimes de corrupção?

Fernando Medina, primeiro. Carlos César, no dia seguinte. Ana Catarina Mendes, ainda nessa noite, e João Galamba, quase em simultâneo com a secretária-geral-adjunta do partido. Ainda Augusto Santos Silva, nesse mesmo 2 de maio, e o secretário de Estado da Energia. Por fim, o secretário-geral do PS. Foram menos de dois dias completos em que José Sócrates, a reboque de Manuel Pinho, esteve na boca de dirigentes socialistas ou de membros do Governo PS. Um Ministério Público “implacável” em relação a casos de corrupção, que são uma “vergonha” para o PS e “inaceitáveis”, um sentimento de “engano” entre os socialistas. E a estocada de Costa:

Se essas ilegalidades se vierem a confirmar, serão certamente uma desonra para a nossa democracia.”

A mensagem, a partir do Canadá, foi mais longe do que aquilo que o líder socialista tinha ido até agora.

“Se é o líder parlamentar, se é o secretário-geral, se é a adjunta do secretário-geral, se é o porta-voz do partido, se é o antigo ministro dos Assuntos Parlamentares [agora ministro dos Negócios Estrangeiros], tão próximo de José Sócrates, se nunca o tinham feito até hoje e se, agora, fizeram em 48 horas” declarações tão contundentes sobre o caso, então, conclui José Junqueiro, só há duas hipóteses: ou há aqui uma “atitude concertada” do PS ou “é uma coincidência e vieram todos antecipar-se aos tribunais”.

Junqueiro foi secretário de Estado do último Governo de José Sócrates. Visto como um dos elementos próximos do ex-primeiro-ministro, diz que foi tão “apanhado de surpresa” com as palavras “um uníssono” de figuras de destaque do PS relativamente a casos judiciais com figuras do partido como com a decisão de Sócrates de deixar o seu partido. “É um dia muito negativo para o PS e um dia muito triste para a democracia em si mesma” quando dirigentes socialistas “ferem um principio matricial” do partido como a presunção de inocência, considera, em declarações ao Observador.

António Campos tem uma expressão lapidar. O fundador do PS considera que o partido se deixou enredar numa lógica de “julgamento popular” que agride a sua identidade originária.

Conheço isto de antes do 25 de abril, conheço dos tempos do Processo Revolucionário em Curso (PREC) e conheço agora”, com José Sócrates num julgamento em praça pública, diz António Campos.

Os dirigentes do PS “cometeram um erro e feriram o ADN” do partido ao assumir as posições públicas da última semana, defende. É por isso que compreende a decisão de Sócrates de sair. “Ressentiu-se e tomou a posição.”

Mudança de posições? Não, é a “atualidade”

Até na reação às reações que provocaram com a posição que assumiram desde terça-feira, António Costa e Carlos César parecem falar a uma só voz. Garantem que o PS está onde esteve nos últimos três anos e meio e que a linha traçada em novembro de 2014 continua a separar os mesmos universos: de um lado, a política, do outro, a Justiça. Mas essa ideia de que nada mudou não é consensual.

A surpresa não se esgota em círculos distantes de António Costa e das mais altas figuras do Largo do Rato. Entre os socialistas, há quem, estando próximo do secretário-geral do PS, tenha sido surpreendido com o “timing” escolhido para a sucessão de declarações de colegas de partido com as responsabilidades que César, Ana Catarina Mendes e Galamba exercem.

“O PS tinha uma posição institucional e que todos compreendíamos”, concede António Campos. “Mas, a partir de declarações de [Carlos] Césares e [João] Galambas, Lda., o problema ja não se põe nesse patamar, põe-se no julgamento popular”, insiste o histórico socialista. A questão é esta: será possível que, em 42 horas, os dirigentes socialistas que falam do caso José Sócrates mudem todos de discurso e que alinham pelo mesmo diapasão sem que isso parta de uma estratégia concertada vinda de cima — isto é, do próprio secretário-geral?

Luís Patrão só fala em tese. E, na visão do homem-forte dos sucessivos secretários-gerais do PS, um partido que não atue a uma voz não está a funcionar como devia. “Se as declarações fossem desencontradas, éramos desorganizados”, mas, pelo contrário, “se se complementam, não nos podem criticar por isso”, defende.

“Há uma coincidência de tudo: nos termos, no tempo em que é produzido, na antecipação aos tribunais, julgamento popular fulminante” a José Sócrates, nota Junqueiro. Ao Observador, Patrão garante que não houve reuniões ao mais alto nível para redefinir a direção da agulha política do partido, mesma forma que não houve qualquer indício — um estudo de opinião que evidenciasse o impacto do caso Manuel Pinho nas perspetivas de voto, por exemplo — que obrigasse à entrada em cena de uma nova estratégia de comunicação.

Aquilo que se ouviu da boca dos dirigentes socialistas foi, na opinião de Luís Patrão, resultado de uma “conjugação dos factos e de respostas a perguntas que foram colocadas que resultaram na tomada dessas posições”.

Quando Carlos César assume que sente “vergonha” por ver relacionadas suspeitas de corrupção e um ex-líder do PS — o que já acontece desde 2014, sem que alguma vez o açoriano se tivesse referido ao assunto nestes termos —, isso acontece porque é questionado sobre Pinho e Sócrates e porque os dois casos não podem ser dissociados, dados os pontos de contacto entre os dois casos (Governo PS, Grupo Espírito Santo, Ricardo Salgado, corrupção). Esse episódio aos microfones da TSF, como os que seguiram de outros dirigentes do PS, acontecem “em função da atualidade”.

Três anos e meio para cortar o cordão umbilical

A imagem é de uma fonte do PS que pede para não ser identificada: para este socialista, as intervenções, pela forma como se sucederam e nos termos em que foram sendo feitas, faziam lembrar uma orquestra bem oleada. “Nesta altura do campeonato, com o Governo como uma máquina oleada, não me parece que isto se faça de forma espontânea”, diz a mesma fonte. “Tudo segue uma linha de orientação e alguém decide o caminho, protege-se o líder.”

Um socrático, que pediu para não ser identificado, faz uma leitura mais simples dos últimos dias: as declarações dos dirigentes do PS e a saída do ex-secretário-geral a seguir não passaram de uma “coincidência”. “É tudo muito amador, querem todos agradar ao chefe”, diz o deputado.

Aquilo que muitos socráticos continuam sem perceber é o porquê do momento para a mudança da atitude do PS. Sócrates foi detido em novembro de 2014. Em outubro do ano passado, o Ministério Público deduziu a acusação contra o ex-primeiro-ministro. Em qualquer um destes momentos, António Costa poderia ter cortado o cordão umbilical que ainda agarrava o partido ao seu ex-líder mas nunca o fez.

O PS tem congresso marcado para o final deste mês e, já no próximo ano, há eleições legislativas. Terá sido puro calculismo político a guiar esta demarcação clara em relação a José Sócrates?

Se é verdade, cometeram um erro político monumental”, considera António Campos.

A par do corte com a tradição — e da identidade — do PS, José Junqueiro traça um paralelo entre este caso e um outro, dos primeiros anos de 2000, que lançou o Partido Socialista numa convulsão interna que deixou marcas profundas no partido. “No caso Paulo Pedroso/Casa Pia, houve uma tentativa de decapitação do PS”, recorda Junqueiro. Nesse caso, “tudo transitou em julgado, houve pessoas presas e que, depois, foram libertadas por não haver razão para serem julgadas e o PS esperou que tribunais os funcionassem”. Agora, “as mesmas pessoas anteciparam-se e fizeram uma declaração de culpa antes dos tribunais”, considera o socialista.

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