Crítica de Livros

O mar não é só aquela água que se vê da praia

O mar não é apenas aquela vasta massa de água que se avista da praia. Com base em dois iscos e em muita erudição, John Mack explica porquê numa obra de leitura compulsiva.

John Mack decidiu escrever um livro sobre o mar porque queria saber por que razão a ilha de Madagáscar foi colonizada tardiamente por seres humanos

ALINE RANAIVOSON/AFP/Getty Images

Autor
  • João Cândido da Silva

Título: O Mar, Uma História Cultural
Autor: John Mack
Editora: Bookbuilders
Preço: 18,90€

Um História Cultural do Mar, de John Mack, foi publicado em março deste ano pela Bookbuilders

Entre as motivações para ler um livro pode estar a procura de respostas a questões que queremos ver esclarecidas. Mas esta também é, com muita frequência, a mola propulsora para um autor decidir investigar com o objectivo de escrever uma obra que exponha os esclarecimentos que conseguiu encontrar para temas que o intrigavam.

Esta foi a situação com que John Mack se confrontou e que explica a origem de O Mar, Uma História Cultural, livro de 2011 editado este ano em Portugal pela Bookbuilders e traduzido por Sarah Adamopoulos. Para o professor de Estudos de Arte do Mundo na Universidade de Ânglia Oriental, em Inglaterra, a curiosidade foi espicaçada de duas formas.

Quis saber por que razão a ilha de Madagáscar foi colonizada tardiamente por seres humanos, facto que achava tanto mais estranho quanto se sabe que o Oceano Índico foi, desde cedo na História, palco de actividade marítima e de viagens de exploração que ajudaram a criar uma rede de relações comerciais que já se encontrava bem estabelecida quando os navegadores europeus chegaram à região. Como escreve John Mack, “trata-se de uma ilha agraciada pela Natureza e que, pese embora o seu litoral ser habitado por mosquitos ferozes, não é incomodada pelo leões, leopardos e outros predadores mais comuns que furtivamente espreitam em toda a parte no interior do continente africano”.

O outro mistério que atormentou o espírito de John Mack está relacionado com uma descoberta arqueológica que teve lugar em 1939 em Sutton Hoo, uma localidade situada na região de Inglaterra em o autor que dá aulas. Trata-se de duas necrópoles, uma delas constituída por uma embarcação de porte elevado, que se calcula tenham sido edificadas entre os séculos VI e VII. “Sutton Hoo é um lugar agradável situado no cimo de uma enseada abrigada, um bom local para enterrar uma pessoa ilustre”, comenta o professor. “Mas para quê arrastar até lá cima um navio de grandes dimensões para fazê-lo?”.

A partir destas duas linhas de investigação, John Mack constrói uma obra empolgante que, desde a literatura de Herman Melville, Joseph Conrad ou de Victor Hugo, à historiografia, à arqueologia, à arte ou às técnicas de navegação, revela como a Humanidade se envolveu e relacionou com o mar, praticamente desde que há registos. No meio de largas doses de informação, um dos aspectos mais interessantes da obra está na constatação do contraste entre a forma de navegar que os europeus encontraram no Índico e no Pacífico, a partir do dealbar da era moderna, em comparação as práticas seguidas nestas regiões.

Ferramentas como a bússola, o astrolábio ou os mapas, que qualquer marinheiro ocidental não dispensaria quando partia em viagens que implicavam a navegação sem terra à vista, até podiam ser conhecidas de navegadores de outras paragens do globo. Mas eram dispensadas a partir do momento em que as embarcações zarpavam da costa.

Para quem atravessava as águas do Índico ou do Pacífico, a navegação pelas estrelas e o conhecimento dos ventos e das correntes, adquirido através da experiência, eram o que bastava para se conseguir chegar, literalmente, a “bom porto”. E nomes que ficaram registados nas páginas mais brilhantes da História da navegação, como Vasco da Gama e James Cook, beneficiaram do conhecimento empírico que lhes foi transmitido e que os ajudou a alcançarem os destinos que ambicionavam.

Ibn Majid, navegador árabe do século XV, ou algum “discípulo” que teve acesso ao seu conhecimento da navegação no Mar Vermelho e no Oceano Índico, terá sido de grande utilidade para o descobridor do caminho marítimo para a Índia, já que os navios que dobravam o Cabo da Boa Esperança vindos do Atlântico viam-se em grandes dificuldades para conseguir fazer a travessia da costa oriental de África rumo a nordeste, em direcção à Índia oriental.

Quanto a James Cook, teve o precioso apoio de Tupaia a bordo do Endeavour, o navio que comandou na primeira expedição que fez ao Pacífico. Tupaia residia no Taiti, era um navegador experiente e conhecedor de dezenas de ilhas situadas no vasto Oceano Pacífico desconhecidas dos europeus. John Mack não tem dúvidas de que os sucessos de Cook tiveram a mão de Tupaia.

Num livro que evidencia a notável erudição de John Mack e sua capacidade de comunicação, não é possível não se ficar contaminado com as duas intrigantes questões que são colocadas logo de início, mas o autor não se esquece de revelar as conclusões a que chegou depois de fazer trabalho de pesquisa sobre os mistérios de Madagáscar e de Sutton Hoo. Desvendar tudo aqui seria, no entanto, de muito mau gosto. Por duas razões. Seria um desincentivo a uma leitura compulsiva e informativa e, também, uma desfeita semelhante à de revelar quem matou a mulher de Richard Kimble, “O Fugitivo” da longa série televisiva que conquistou milhões de espectadores nos anos 1960.

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