Alterações Climáticas

Tsevelravjaa, o pastor mongol: “Vi os meus animais morrerem dia após dia”

As alterações climáticas estão a afetar diretamente os pastores da Mongólia. A solução pode passar por trabalharem em equipa. Conheça os pastores e os rebanhos na fotogaleria.

Tsevelravjaa, um pastor do deserto de Gobi, na Mongólia, perscruta o horizonte. De pé, em frente ao ghert (tenda mongol) da família, realiza a tarefa diária de previsão do estado do tempo, um método passado de geração e geração. Haverá vento e tempestade hoje? Ou estará calor e tudo calmo? Deve o rebanho ir pastar longe ou deve ser mantido mais próximo do curral?

“Não existe Mongólia sem a pastorícia tradicional”, comentou, preocupado. Mas, à medida que o aquecimento global avança, o futuro das comunidades nómadas nas estepes e desertos Mongólia fica em dúvida. Os invernos estão a ficar mais duros, o ambiente está a mudar. Os pastores são levados ao limite, lutando para se adaptarem aos impactos das alterações climáticas. Alguns deles, como Tsevelravjaa, a família dele e a comunidade, estão a testar estratégias de adaptação que, acreditam, vão ajudá-los a tornarem-se mais resilientes às mudanças.

O aquecimento global está a afetar a Mongólia mais rápido do que outras partes do mundo. “Nos últimos 70 anos, a temperatura média do ar subiu 2,1 graus Celsius, uma das maiores subidas registadas na Terra”, disse Tunga Ulambayaar, diretora da consultora Saruul Khuduu Environmental Research, Training & Consulting, uma organização que conduz estudos ecológicos em nome de organizações governamentais e internacionais. “No final do século, as temperaturas terão subido 5ºC.”

Os eventos extremos estão a aumentar em algumas regiões. Casos de dzud (palavra mongol para invernos extremamente severos) estão a aumentar. Algumas regiões têm episódios de chuvas de verão, outros passam por tempestades de inverno cada vez mais fortes”, explicou Ulambayar.

Devido ao efeito combinado da pobreza com a fragilidade das pastagens, os eventos extremos implicam, frequentemente, calamidades. De facto, os especialistas avisam que as pastagens podem estar à beira de um ponto de rutura como resultado do sobrepastoreio e das alterações climáticas.

“Alguns centímetros mais de neve do que a média é o suficiente para encerrar a forragem por baixo de uma camada gelada espessa e causar uma taxa de mortalidade maior no gado. Os nómadas são forçados a migrar para outros distritos, colocando pressão sobre outras pastagens frágeis e sobre outras comunidades. Outros têm de mudar-se para as cidades”, disse Ulambayar.

Graças ao dzud, os invernos de 1999 e 2000 fizeram com que o país perdesse 30% dos rebanhos nacionais. Dois milhões de cabeças de gado, ou 20% dos rebanhos nacionais, foram perdidos devido ao dzud de 2009, reportou Ulambayar na revista científica World Development.

“Nesse ano, o meu gado não pode pastar durante vários dias. Só podia ver os meus animais morrerem lentamente, dia após dia”, lembrou pesaroso Tsevelravjaa. Para os pastores, o gado é mais do que uma propriedade. A primeira pergunta que um pastor faz a outro quando se encontram na estepe depois do inverno é: “O teu rebanho está gordo?”

Todos os dias, Tsevelravjaa leva as ovelhas e cabras para o pasto — Jacopo Pasotti, 2017

A Mongólia é um dos últimos países pastorais na Terra. A viver em áreas tão remotas, os pastores nómadas são altamente vulneráveis à mudança.

Nos anos 1990, a queda do regime socialista resultou no colapso do sistema Negdel, quando os rebanhos e as pastagens eram detidas pelo Estado. Os movimentos sazonais eram dirigidos, os serviços veterinários e sociais eram fornecidos e havia forragem fornecida durante os eventos de dzud. As pastagens eram usadas de forma sustentável. A passagem para uma economia ditada pelo mercado foi explosiva e levou ao pastoreio não sustentável.

Os pastores deram por si sozinhos, de repente eram donos dos animais e da terra, sem apoio das instituições. O número de cabeças de gado aumentou rapidamente e as pastagens degradaram-se”, referiu Ulambayar. “Depois das minas, a lã de ovelha e a caxemira são os bens mais negociados na Mongólia.”

Antes da economia dirigida pelo mercado, os pastores não tinham razão para aumentar a produção, porque tinham um salário fixo, e tinham acesso a serviços sociais governamentais. Hoje em dia, os pastores enfrentam um mercado competitivo. A caxemira é uma matéria-prima rentável, o número de cabras aumentou desde os anos 1960 de 4,5 para 23 milhões. Esta economia provou ser insustentável e agora está também sobre a pressão das alterações climáticas.

Agora, porém, alguns pastores estão a tentar adaptar-se formando comunidades. Isto permite-lhes gerir as pastagens, agrupar o trabalho e desacelerar, ou até mesmo travar a degradação das terras. Os pastores acreditam que esta pode ser a solução.

“Depois dos invernos desastrosos no início dos anos 2000, muitos pastores, auxiliados por organizações não-governamentais, formam comunidades para a gestão de pastagens e recursos naturais”, explicou Ulambayaar. A consultora estudou a capacidade de adaptação de quatro distritos e verificou que a formação das comunidades resultou numa agregação de recursos e numa redução significativa da vulnerabilidade do agregado familiar ao dzud.

Os pastores que se agregaram em comunidades formais melhoraram a resiliência. Juntos recolhem feno e forragem para o inverno. Cultivam vegetais, penteiam cabras, conduzem ovelhas e asseguram que os rios continuam limpos. E com a comunidade vem o apoio social. A comunidade de Tseveravajaa tem um fundo de cinco milhões de tugriks (cerca de dois mil euros) para os membros que sejam severamente atingidos por desastres naturais.

As comunidades têm mostrado uma resiliência notável, mais do que em termos individuais, segundo Ulambayar. A consultora disse que a solução para os desafios colocados pelo clima e pela sociedade passa por um diálogo entre os pastores e as instituições. “Até agora, têm mostrado que resulta”, disse Ulambayar. “Encontrar estratégias de adaptação para as comunidades rurais mongóis é uma prioridade económica, social e humanitária.”

Esta história faz parte do projeto de jornalismo “Shared Horizons” (Horizontes Partilhados). O financiamento que apoiou este trabalho foi fornecido pelo programa de bolsas Innovation in Development Reporting, operacionalizado pelo Centro Europeu de Jornalismo.

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