Trinta anos depois, o Fausto de Fernando Pessoa teve direito uma nova edição. Esta, publicada em abril pela Tinta-da-China, é a primeira a ter aparato crítico e a estar organizada cronologicamente, permitindo ler a peça exatamente como Pessoa a deixou: fragmentada. Agora, o Fausto saiu do papel e ganhou uma nova vida online, com a disponibilização do seu arquivo digital.

Intitulado Fausto, uma existência digital”, o arquivo é a última iniciativa digital envolvendo o espólio pessoano. No início do ano, foi lançado o “Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego”, uma plataforma interativa que permite comparar as diferentes edições da obra de Bernardo Soares, e, mais recentemente, a “Edição Digital de Fernando Pessoa”, dedicada à poesia publicada em vida e aos projetos editoriais. Ao todo, já existem na Internet seis plataformas que apresentam diferentes aspetos da obra de Fernando Pessoa. O Arquivo Pessoa é a mais antiga.

A edição digital do Fausto foi preparada pelo Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por uma equipa dirigida por Jerónimo Pizarro e Carlos Pittella (responsável pela edição em papel) e composta por Filipa de Freitas, Patricio Ferrari, Nicolás Barbosa e José Camões. Curiosamente, o Centro de Estudos de Teatro não é novo nestas andanças. Começou a divulgar material online nos anos 90 — como explicou José Camões durante a apresentação do projeto, esta quinta-feira — e, hoje em dia, tem disponíveis arquivos de obras teatrais de autores portugueses do século XVI e XVII e uma lista de todas as peças proibidas em Portugal no século XVIII, com extensa informação. Fausto é, assim, o último acrescento ao trabalho que tem vindo a ser feito pelo centro.

Durante a apresentação, realizada no âmbito do colóquio internacional “O Teatro de Fernando Pessoa: prosa, verso e hipertexto”, José Camões, professor na Faculdade de Letras de Lisboa, explicou que a edição digital do Fausto de Pessoa vai resolver alguns problemas de consulta da edição em papel, criados pela “arquitetura complexa de notas” do livro. Além disso, vai permitir atualizar o Fausto quase em tempo real, acompanhando as novas descobertas e estudos.

A plataforma é composta por quatro secções principais. Na primeira, “Arquivo”, é possível encontrar os diferentes poemas que compõem o Fausto de Fernando Pessoa, divididos em seis categorias: poemas em português, poemas em inglês, poemas nos quais Pessoa hesitou na atribuição à peça, apêndices (fragmentos e apontamentos em prosa) e planos. Na segunda, é possível encontrar um índice de todos os textos e, na terceira, fazer três tipos de pesquisa: uma “livre”, onde é possível selecionar mais do que uma categoria de uma vez só; outra “orientada”, que permite fazer uma busca mais detalhada; e uma a partir de todo o vocabulário.

A transcrição dos poemas do Fausto segue a ortografia moderna, “até por uma facilidade de pesquisa”, como explicou Filipa de Freitas. Estes são, contudo, acompanhados por uma “caixa com a transcrição genética” (visível depois de se clicar no quadrado vermelho, do lado esquerdo da transcrição), que mostra o texto como Pessoa o escreveu. Foi também disponibilizado imagens dos documentos originais, acessíveis através dos pequenos quadrados cor-de-laranja. Os quadrados azuis dão acesso a uma caixa com informações adicionais. Na última secção do site, “Bibliografia”, é possível encontrar todas as obras relativas ao Fausto pessoano — edições, adaptações da peça (“Catálogo”) ou críticas (“Crítica”). Este é um separador que vai estar, naturalmente, em permanente crescimento, contando até ao momento com 52 páginas.