No mesmo dia em que Cristiano Ronaldo aproveitava uma folga para conhecer melhor Itália e descansava com a família no lago Como, a “notícia” acabou por vir bem longe, da Índia: como avançou o vice-presidente do Parlamento de Goa, Michael Lobo, vai ser construída uma estátua de bronze do português no parque multiusos de Candolim e uma outra do mesmo material de Diego Maradona, neste caso junto ao campo de futebol. Justificação? “Esta é uma vila que tem muitos amantes de futebol, com muitos jovens que praticam. É por isso que queremos que se inspirem nas lendas do desporto”. Mais uma vez, os destinos de dois dos melhores jogadores de sempre cruzavam-se. Aí e também este sábado.

Depois de uma passagem marcante mas nem por isso com muitos títulos pelo Barcelona (uma Taça de Espanha e uma Taça da Liga), o 10 argentino chegou a Nápoles em 1984 como uma espécie de Deus que seria capaz de travar o domínio das equipas do Norte e do Centro do país, casos de Juventus, AC Milan, Roma ou Inter. E conseguiu, ganhando a Serie A de 1987 e de 1990. Mas a estreia oficial no Campeonato italiano nem correu da melhor forma: o Nápoles, que contava então com nomes como Daniel Bertoni, Ciro Ferrara ou Salvatore Bagni na equipa, perdeu com o Hellas por 3-1. Em Verona, a cidade que apadrinhou também, quase 35 anos depois, o primeiro encontro de Cristiano Ronaldo na Serie A.

E não foi uma estreia qualquer nesta prova que acaba por ser um objetivo de grau de dificuldade médio, tendo em conta o domínio interno e a grande aposta na Champions: numa semana de luto para os transalpinos depois da tragédia de Génova que fez um total de pelo menos 41 mortos (e que levou ao adiamento dos jogos do Génova e da Sampdória), Verona não facilitou nas medidas de segurança depois de ver os pouco mais de 31 mil bilhetes voarem num ápice e até as brigadas antiterroristas foram chamadas para assegurar todas as condições num dia com movimento anormal. Para Ronaldo, a ideia era a contrária – fazer com que fosse uma semana normal. Que foi, à exceção da praxe habitual com todos os reforços da equipa que levou o capitão da Seleção Nacional para cima de uma cadeira cantar Xutos e Pontapés (“A minha casinha”).

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Era na cidade imortalizada pela história de amor entre Romeu e Julieta que Cristiano Ronaldo começava a escrever a sua história com um novo amor chamado Juventus. Um amor que, como o próprio confessou ao canal do clube, já tinha alguns anos, muitos anos, até ao episódio que também ajudou à mudança de Madrid para Turim: a ovação de pé dos adeptos adversários quando marcou aquele golo de pontapé de bicicleta numa partida a contar para a Liga dos Campeões. Os tifosi da Vecchia Signora declararam-se aí a CR7; CR7 começa agora a declarar-se aos tifosi da Vecchia Signora. E também de fãs de muitos outros clubes – como se percebeu antes do encontro, até as pessoas de Chievo pareciam torcer um pouco por CR7.

Olhando para as opções iniciais de Allegri, um treinador que tem também a sua história (e que história), a única novidade em relação às opções que tinham sido estudadas nas últimas duas semanas passou pela inclusão de Cuadrado – o antigo dono da camisola 7 que mal soube da contratação do português passou o número – no trio de apoio a Cristiano Ronaldo, formado ainda por Diego Costa e Dybala (Bernardeschi era outra opção). Ainda assim, e quando se olhava com mais atenção para a colocação dos jogadores em campo, a Juventus já ganhava: livre lateral batido por Pjanic ao segundo poste, desvio defeituoso de Chiellini de cabeça e remate de pé esquerdo de Khedira a inaugurar o marcador (3′).

Allegri, o Casanova com toque de Midas que frequenta casinos e ganhou um jackpot chamado Ronaldo

Ronaldo ainda não se tinha praticamente visto, até pelas movimentações do centro para a esquerda que ia fazendo e que deram o espaço necessário para Dybala visar a baliza de Sorrentino (4′). E, na primeira vez que surgiu com perigo, não só estava fora de jogo como falhou o desvio final após toque de Chiellini após um canto quando estava a meio metro da baliza (6′). Com o tempo, foi entrando no jogo. Com toques artísticos, com aquelas fintas quando sai do habitat cada vez mais natural que é a área, com posicionamentos sem bola que desviavam centrais da sua zona e permitiam entradas dos alas ou mesmo dos laterais, como aconteceu numa jogada concluída por João Cancelo para fora que deixou muitas dúvidas na área do Chievo (9′).

Aos 18′, o capitão da Seleção Nacional teve o primeiro grande aviso à baliza do conjunto de Verona, com um remate na passada que saiu a rasar o poste de Sorrentino após assistência de Cuadrado. Era um jogo de paciência para a Juventus, sempre a tentar encontrar as melhores formas de ganhar espaço entre linhas a um adversário que defendia em 30/40 metros com a primeira linha atrás do meio-campo. Mas era também um jogo onde se ia percebendo – se dúvidas existissem – a qualidade que faz desta equipa uma candidata a ganhar todas as provas em que participe: a segurança dos centrais Bonucci e Chiellini, a visão de jogo de Pjanic, a velocidade dos laterais Cancelo e Alex Sandro; a explosão de Douglas Costa; a magia de Dybala. Vários artistas à solta que se unem num só quando não têm a bola e a tentam recuperar no meio-campo adversário. Mas voltava a ser Cuadrado a conseguir encontrar Ronaldo, como aconteceu aos 30′ com o remate de pé esquerdo na área a sair pouco por cima.

Entre o avançado português, Douglas Costa ou um qualquer jogador na sequência de uma bola parada, o segundo golo parecia ser uma questão de tempo perante as facilidades que a Vecchia Signora encontrava. Que, sendo tantas, tiveram também o seu efeito inverso: após um lance onde a passividade sobre o portador da bola foi evidente, o avançado polaco Stepinski (que em entrevista confessou gostar mais de Messi do que de Ronaldo, apesar de considerar ser um upgrade de relevo para a Serie A) recebeu um bom cruzamento da esquerdo e cabeceou para o empate a um quando estávamos apenas a sete minutos do intervalo.

O recomeço voltou a ter uma Juventus acampada no meio-campo mas com o mesmo problema da primeira parte: ou Ronaldo saía da área para combinar com as unidades mais ofensivas ou continuava sozinho para pelo menos dois centrais do Chievo em todos os cruzamentos pelos corredores laterais. Dybala, com um remate de fora da área para defesa para a frente de Sorrentino, tentou disfarçar essa condicionante, mas era o conjunto de Verona que conseguia começar a sair com outra qualidade a nível de transições rápidas e foi numa situação dessas que conseguiu a reviravolta: Giaccherini, antigo internacional italiano da Juve, avançou para o 1×1 com Cancelo, sofreu falta do português na área e converteu o penálti que fez o 2-1 (56′).

Allegri lançou Bernardeschi no lugar de Cuadrado, Ronaldo voltou a visar a baliza do Chievo de cabeça com a tentativa a sair à figura de Sorrentino (60′), os minutos passavam com uma grande surpresa no resultado e Mandzukic foi mesmo lançado em campo, no lugar de Douglas Costa. Foi aí que o português conseguiu finalmente pisar outros terrenos, ganhando outra liberdade para fazer movimentos como o que arrancou aos 65′, descaindo na esquerda e fintando para dentro até ao remate forte e colocado que Sorrentino voltou a conseguir desviar para o lado. Cinco tentativas depois, CR7 continuava em branco. E à sexta não conseguiu melhor, porque o remate com selo de golo foi cortado de carrinho e celebrado como se fosse um golo (67′).

A Juventus tentava de todas as formas e também Mandzukic não entrou propriamente com a mira afinada, cabeceando a rasar o poste (e sem tirar os pés do chão) após cruzamento de Ronaldo (70′). E ainda houve mais um remate rasteiro de Dybala na área, depois de uma fabulosa finta onde deixou dois adversários para trás no espaço de uma cabine telefónica (73′). A pressão era tanta que o empate acabou mesmo por chegar, de novo na sequência de uma bola parada: canto no lado direito do ataque batido ao primeiro poste e entrada decidida de Bonucci, que festejou o regresso a Turim após passagem pelo AC Milan num lance a meias com o central Mattia Bani onde não se conseguiu perceber ao certo quem deu o último toque (75′).

O primeiro golo surgiu num livre lateral, o segundo num canto, o terceiro por pouco não chegou de livre direto porque Ronaldo, mais uma vez, viu o guarda-redes do Chievo defender para a frente sem a recarga para o golo da reviravolta (78′). O ritmo estava de tal ordem que Emre Can, o internacional que rendera Khedira na terceira e última alteração, quase ia marcando na primeira vez que tocou na bola, vendo Sorrentino fez mais uma defesa (85′). E a Juventus marcou mesmo o 3-2, por Mandzukic, num lance que mereceu muitos protestos por parte dos jogadores do Chievo e que acabou mesmo por ser anulado depois da bola ter batido na mão de Ronaldo, que chocaria no seguimento do lance com o guarda-redes contrário que teve mesmo de sair. Não foi aí, foi nos descontos: Bernardeschi conseguiu desviar na área um cruzamento rasteiro de Alex Sandro e fez nova reviravolta, permitindo a Ronaldo começar com uma vitória a sua história de amor em Itália com a Juventus. Uma história que, como explicava esta sexta-feira o The New York Times, está muito longe de se resumir apenas a um clube ou equipa.