Panteão Nacional

Sociedade Portuguesa de Autores vai desafiar António Costa a apoiar ida de Zeca Afonso para o Panteão

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O presidente da Sociedade Portuguesa de Autores revelou ao Observador que será feito um desafio de "envolvimento pessoal e político" ao primeiro-ministro: "É um homem com sensibilidade cultural".

José Afonso faria 90 anos no próximo ano

Luís Carregã

A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai endereçar uma carta esta quarta-feira ao primeiro-ministro, António Costa, pedindo para que “se envolva pessoal e politicamente” na proposta de trasladação dos restos mortais de José Afonso para o Panteão Nacional. A informação foi avançada ao Observador pelo presidente da SPA, José Jorge Letria.

Foi ele que tomou a iniciativa como presidente da Câmara Municipal de Lisboa de dar o nome de Humberto Delgado ao aeroporto internacional de Lisboa. É uma pessoa privilegiada para perceber este pedido, este desafio político e esta reivindicação, porque é um homem com sensibilidade cultural”, referiu José Jorge Letria.

Lembrando que “há muita gente insatisfeita com a cultura em Portugal, a nível de decisões políticas e apoios financeiros”, o presidente da SPA sugere que poderá haver “uma sensibilidade reforçada em relação a este objetivo, que é um objetivo dos autores portugueses. Ele como primeiro-ministro, com o envolvimento do grupo parlamentar do PS ou de outros, poderá conseguir o apoio necessário”.

Num comunicado divulgado esta terça-feira, a Sociedade Portuguesa de Autores reivindicou a transladação para o Panteão Nacional de José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, conhecido popularmente como Zeca Afonso. O músico, apontou a SPA, é “uma das figuras mais marcantes da história da vida cultural e artística portuguesa” e “é este o tributo e é esta homenagem que Portugal deve a quem como mais ninguém o soube cantar em nome dos valores da liberdade, da democracia, da cultura e da cidadania”.

Já esta quarta-feira, Zélia Afonso, viúva do músico, mostrou-se surpreendida com a proposta. Em declarações à TSF, disse que ninguém a contactou e ninguém lhe disse nada. “Fazer uma proposta qualquer um pode fazer, mas a decisão só cabe à família”, referiu ainda, sugerindo que só depois de falar com os filhos a família equacionará tomar uma decisão sobre o assunto.

Ao Observador, José Jorge Letria, responsável principal pela reivindicação, referiu que a SPA “não contactou ninguém, nem a família, nem figuras da política”, antes de lançar a proposta. Esta, apontou, legitima-se por ser feita por “uma instituição com 93 anos de vida, com autoridade e legitimidade para isso”.

Tendo sido amigo dele, para lhe falar com sinceridade, sei que nunca se bateu por aplausos, reconhecimentos e consagrações. A prova disso está no facto de não ter recebido a Ordem da Liberdade. Porque ele tinha uma tendência coerente com a sua maneira de estar na vida, na arte e na cultura que era de desvalorizar estes atos públicos de reconhecimento. É uma missão que cabe muito mais à SPA, uma instituição com mais de 26 mil associados de todas as disciplinas, todas as idades, que não envolve a própria família, é feita por autores que devem a José Afonso esse aplauso e essa consagração”.

Para a trasladação acontecer, teria de haver um acordo entre os deputados no Parlamento, através de um projeto de resolução. Só depois desse projeto de resolução ir a planário e ser aprovado é que poderia ser constituído um grupo de trabalho, composto por representantes de cada grupo parlamentar com a incumbência de  “determinar a data, definir e orientar o programa da trasladação, em articulação com as demais entidades públicas envolvidas”, segundo estabeleceu Assunção Esteves em Diário da República, aquando da trasladação dos restos mortais da poetisa Sophia de Mello Breyner para o Panteão Nacional.

Amália Rodrigues é a única artista musical cujo corpo foi trasladado para o Panteão Nacional. Há ainda uma petição online que propõe a ida do guitarrista Carlos Paredes, que morreu em 2004, para o Panteão. Atendendo à última alteração de lei relativa a esta homenagem, segundo a qual decisões sobre o assunto só poderão ser tomadas 20 anos depois da morte da pessoa em questão, a questão nunca se colocará até 2024.

“Deixo em aberto a possibilidade de nos próximos dois meses fazer uma recolha de assinaturas de autores de todas as áreas, para fortalecer esta solicitação. Uma solicitação que é também para pessoas dos grupos parlamentares e pessoas como o Presidente da República, que certamente com os poderes que estão concentrados no exercício da sua função não ficará indiferente a este pedido e que, sendo politicamente um homem muito diferente de José Afonso, sei que tinha e tem uma grande admiração pela obra que ele deixou”, afirmou ainda José Jorge Letria.

Estas iniciativas, referiu o presidente da SPA, “não significam que José Afonso vá para o Panteão”. Isto porque “ninguém irá dizer que ele não merece, mas o circunstancialismo da função política pode dificultar. Porém, desencadear este debate público é importante”, concluiu.

No próximo ano, 2019, assinalam-se os 90 anos de nascimento de José Afonso e os 45 anos da Revolução do 25 de Abril, que, lembrou José Jorge Letria, teve como “senha musical” um tema da autoria do músico, “Grândola, Vila Morena”.

A Sociedade Portuguesa de Autores é presidida por José Jorge Letria, que tem como vice-presidentes Tozé Brito e António Victorino d’Almeida, entre outros. O presidente da Assembleia Geral é o musicólogo Rui Vieira Nery e o presidente do Conselho Fiscal o músico Pedro Abrunhosa.

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