A era dos juros baixos e do “dinheiro barato” pode ser oficialmente terminada nos EUA, nesta quarta-feira, com mais uma reunião da comissão que define a política monetária do dólar. A Reserva Federal, liderada por Jerry Powell, deverá subir as taxas de juro pela terceira vez este ano e, além disso, retirar do comunicado oficial a promessa de continuar a levar a cabo uma política monetária “acomodatícia”, ou “expansionista”.

A justificação da Reserva Federal para retirar essa importante garantia (e para subir as taxas de juro de forma sucessiva) é que a taxa de crescimento económico, os baixos níveis de desemprego e as perspetivas de inflação já não criam um cenário em que uma política “expansionista” — ou seja, de juros baixos e injeções abundantes de liquidez — ainda é necessária. Na altura em que se marca o 10º aniversário da falência do Lehman Brothers, e com a economia a crescer a um ritmo superior a 4%, a Reserva Federal tem uma oportunidade para retirar essa referência, num passo simbólico de regresso à normalidade.

Desde o início da crise de 2007/2008 que o banco central mantinha esta garantia qualitativa de não “apertar” em demasia a política monetária — subindo os juros, mas não só — enquanto fosse necessário. A cada reunião de política monetária — fosse sob a liderança de Ben Bernanke, Janet Yellen ou Jerry Powell — o comunicado final continha sempre a referência à política “acomodatícia” (mesmo quando se anunciavam aumentos da taxa de juro).

Nesta quarta-feira, a Reserva Federal deverá aumentar a taxa de juro de referência em mais 25 pontos base e, acredita a maioria dos analistas, aproveitar, também, para rever em alta as projeções para o crescimento económico. Esta expectativa já está a levar a taxa de juro dos títulos do Tesouro americano a 2 anos para 2,84%, o nível mais elevado dos últimos dois anos, e a taxa a 10 anos perto do máximo anual de 3,12%.

Uma subida dos juros nos EUA que seja mais rápida do que o previsto é vista como um dos principais riscos para as economias dos países emergentes, mas também os países mais vulneráveis da zona euro podem ressentir-se porque os juros comparativamente mais elevados que oferecem atraem maior procura pelo facto de os juros nos EUA estarem mais baixos.

Além da subida que deve ser anunciada nesta quarta-feira, os analistas estão a antecipar mais uma mexida em dezembro, de forma a conter as possíveis pressões inflacionistas que podem gerar-se devido ao crescimento da economia. O produto interno bruto (PIB) subiu 4,2% no segundo trimestre, em termos anualizados, quase o dobro do que tinha sido registado no primeiro trimestre.