O Papa Francisco anunciou esta sexta-feira a “decisão excecional” de demitir o padre chileno Fernando Karadima do estado clerical na sequência do escândalo de abusos sexuais no Chile. É o segundo padre chileno que o Papa Francisco expulsa este mês. Na semana passada, o líder da Igreja Católica demitiu o padre Cristián Precht Bañados — que, aliás, estava suspenso desde que, em 2012, surgiram alegações contra ele.

O comunicado do Vaticano faz referência à “potestade ordinária, que é suprema, plena, imediata e universal na Igreja” que o Código de Direito Canónico prevê para tomar a decisão “em consciência e pelo bem da Igreja”. Francisco está “consciente do seu serviço ao povo de Deus como sucessor de São Pedro”, lê-se no documento.

“O decreto, assinado pelo Papa na quinta-feira, 27 de setembro de 2018, entrou em vigor automaticamente desde esse mesmo momento, e comporta também a dispensa de todas as obrigações clericais”, explica o Vaticano, destacando que Karadima foi informado da decisão do Papa Francisco esta sexta-feira.

O escândalo dos abusos sexuais cometidos por membros do clero no Chile reacendeu-se no início deste ano com a visita do Papa Francisco àquele país. A viagem motivou novamente fortes críticas contra o bispo Juan Barros, acusado de encobrir durante décadas abusos sexuais praticados pelo padre Fernando Karadima, que foi condenado em 2011 pelo Vaticano e suspenso das funções de sacerdote.

Karadima era considerado um protegido do bispo Juan Barros, que, em 2015, foi nomeado pelo Papa Francisco como bispo da cidade de Osorno. A nomeação não agradou à comunidade católica chilena.

Na viagem ao Chile, entre 15 e 18 de janeiro, foram várias as vítimas do padre Karadima que vieram a público exigir um pedido de desculpas do Papa. Mas o Papa respondeu que tudo eram “calúnias”. “No dia em que vir uma prova contra o bispo Barros, então falarei. Não há uma única prova contra ele. É tudo calúnia. Está claro?”, disse Francisco.

As palavras do Papa Francisco causaram um choque de grandes dimensões no país e por todo o mundo, com cardeais de topo — incluindo o cardeal Seán O’Malley, o homem forte do Papa na luta contra os abusos sexuais — a vir criticar publicamente o líder da Igreja Católica por ter causado “grande dor” às vítimas

O Papa veio depois pedir desculpa pelo que disse. “O drama dos abusos é tremendo. O que é que sentem as vítimas? Tenho de pedir-lhes desculpa, porque a palavra ‘prova’ feriu. A minha expressão não foi feliz. Peço desculpa se as feri, sem me aperceber, sem o querer. Dói-me muito”, disse Francisco no voo de regresso do Chile a Roma.

Na sequência da polémica, o Papa Francisco decidiu ordenar uma investigação de grandes dimensões ao escândalo no Chile. Em maio, os bispos chilenos foram convocados pelo Papa para uma reunião no Vaticano para discutir o assunto — e foi na sequência dessa reunião que decidiram, coletivamente, colocar os seus lugares à disposição de Francisco.