Há sete meses, Bahara (nome fictício), de 18 anos, foi presa por falhar num teste ao qual nunca se deveria ter submetido. Tudo aconteceu quando conheceu um homem com quem tinha falado ao telefone e trocado mensagens. Fugiu de casa para ir ter com ele pensando que tinha encontrado um namorado mas acabou por ser violada.

Bahara denunciou o caso à polícia. Contudo, em vez de ter recebido apoio, foi levada ao hospital para fazer o teste de virgindade — uma prática que foi proibida no Afeganistão em 2016“, segundo o jornal britânico The Guardian que revelou o caso de Bahara.

Ainda pensei que os médicos me levassem para um sítio privado para fazer o teste. Mas fi-lo num quarto cheio de pessoas — médicos, enfermeiras, e até visitantes curiosos e outros pacientes que queriam observar mais de perto o meu corpo nu”, disse Bahara.

Ao usar os dedos, uma médica fez-lhe o teste para confirmar se o hímen estava intacto. Após esse tormento físico e emocional, a jovem disse que precisava de fazer outro teste de virgindade. “Estava com o período e eles não conseguiram precisar os resultados”, disse. A conclusão de todo o processo acabou por ser a detenção de Bahara por algo que que no Afeganistão é considerado um “crime moral”: a perda da virgindade antes do casamento.

Bahara está agora detida na prisão de Mazar-i-Sharif (cidade do Afeganistão), na província de Balkh. Muitas mulheres foram presas por situações semelhantes, que inclui fugir de casa e ter relações sexuais antes do casamento. O facto de a proibição dos testes de gravidez não estar a ser respeitada, segundo dados noticiados pelo The Guardian, faz com que, num futuro próximo, muitas jovens tenham o mesmo destino de Bahara.

Fugas como aquela que foi protagonizada por Bahara costumam ter na sua origem situações de violência doméstica ou de sexo forçado, sendo que muitas vezes as “criminosas morais” são presas e condenadas à morte.

O teste de virgindade foi proibido oficialmente em 2016, mas isso não fez com que a polícia parasse de deter mulheres e raparigas mais novas para o fazerem nem que os hospitais e as clínicas o eliminassem do seu dia-a-dia. De momento, há já campanhas que pedem a aprovação de uma lei de saúde pública que proíba os testes de virgindade nestes estabelecimentos, com a esperança de que haja mudanças significativas.

“Não tenho a certeza de que vá conseguir juntar-me novamente à sociedade e voltar a ter uma vida normal”

Mesmo que as mulheres consigam eventualmente sair da prisão, o estigma do seu “crime moral” vai permanecer na sociedade. Bahara anseia ser libertada, mas tem receio do que a espera lá fora: “não tenho a certeza de que vá conseguir juntar-me novamente à sociedade e voltar a ter uma vida normal. A minha estada aqui destruiu a reputação da minha família e tenho muito medo de que o meu pai me mate, assim que saia daqui.”, diz. Muitas mulheres afegãs têm o mesmo receio de Bahara.

Segundo a Organização de Ciência Forense do Afeganistão, uma organização não-governamental, “a examinação do hímen não tem apenas um impacto psicológico negativo nas raparigas e nas mulheres; é um teste perigoso e que, nalguns casos, causa dor física, danos no hímen, infeções e sangramento”.

O diretor da organização, Mohammad Ashraf Bakhteyari, afirma que não só o teste viola os direitos humanos, como o facto de as mulheres sangrarem não é um sinal da existência ou ausência dessa membrana feminina. Porém, esta não é uma informação que chegue a muita gente no Afeganistão, uma vez que muito poucos estudantes afegãos recebem educação sexual.

Zahra Sepehr, diretor da organização Desenvolvimento e Apoio das Mulheres e Crianças Afegãs, defende que o programa escolar tem que mudar:

Se a educação sexual não é ensinada em contexto académico, as nossas crianças vão aprender sobre isso através de pornografia e outras fontes não fidedignas. As escolas têm que reunir os pais e os professores em encontros, de forma a fomentar a discussão sobre temas como o adultério, a educação sexual e as alterações hormonais. Estas conversas irão tornar os alunos mais esclarecidos e atentos ao seu corpo e irão também desencorajar os rapazes a infligir maus tratos às mulheres ou a sentir desprezo por elas.”

De volta à cidade de Mazar-i-Sharif, Bahara tenta manter-se otimista. “Quero ter esperança e aguardar pelo dia em que vou voltar a ver a minha família novamente feliz. No futuro, gostaria muito de continuar o meu percurso escolar e tornar-me professora para ensinar os meus alunos – especialmente raparigas, de modo a que elas não tenham de experienciar o mesmo que eu experienciei na vida”, afirmou ao The Guardian.