No que respeita aos veículos eléctricos, Tesla e Volkswagen estão em lugar de destaque. A marca americana por ter sido a primeira a ousar pensar que era possível conceber veículos eléctricos potentes, rápidos e velozes, e com uma autonomia aceitável e muito superior ao que o mercado oferecia na altura. A Volkswagen por ser, entre os construtores tradicionais que sempre se apoiaram nos motores a gasolina e diesel – com os problemas que bem conhecemos –, quem mais fortemente está a investir na produção de veículos a eléctricos a bateria. Será destes dois fabricantes que poderemos esperar os maiores avanços no que respeita à performance e ao preço.

O CEO do grupo alemão, Herbert Diess, no programa Maybrit Illner, da ZDF, salientou o esforço realizado pela Volkswagen que, segundo ele, “já investiu 30 mil milhões de euros na electromobilidade, com a adaptação de uma fábrica já existente para automóveis eléctricos, em Zwickau, e a construção de uma nova fábrica na China, próximo de Xangai”. Com todo este investimento, que inicialmente era para ser de apenas 20 mil milhões, incluindo a gama de veículos eléctricos já conhecidos, Diess está confiante:

Em 2020, seremos capazes de tudo como a Tesla, mas a metade do preço”, declarou.

Não é vulgar qualquer construtor mencionar que o seu objectivo é bater directa e especificamente um adversário, sobretudo quando é a grande Volkswagen, marca líder do grupo que mais automóveis vende no globo e que tem como objectivo comparar-se com o fabricante americano, visto por muitos investidores ainda como uma startup, cujo primeiro veículo original foi apenas fabricado em 2012. Mas a realidade é que Diess, já em 2017, tinha assumido que via a Tesla como o seu “principal concorrente nos veículos eléctricos”.

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Se alguma marca pode fazer mais e melhor do que a Tesla é certamente a Volkswagen, que possui os meios e os fundos. E apesar de todos os custos inerentes ao Dieselgate, continua a anunciar volumes de vendas incríveis e lucros a condizer. O primeiro Volkswagen da gama I.D., que tudo indica que se chamará Neo, vai efectivamente revolucionar a indústria tradicional, prometendo oferecer um conjunto de características notáveis, que vão fazer claramente tremer os líderes do mercado europeu, nomeadamente o Renault Zoe e o Nissan Leaf. São dois excelentes produtos mas que, apesar de serem de segmentos distintos – o Renault no segmento B (utilitários tipo Clio, com 4,08 m de comprimento) e o Leaf no C (familiares compactos, com 4,49 m) – são propostos por valores muito similares, respectivamente 32 e 34 mil euros, em Portugal. Ora, como a Volkswagen promete comercializar o I.D. Neo (também ele um segmento C) na Alemanha por 23.000€ (o preço de um Golf diesel) e em Portugal por algo entre 28 e 29.000€, o primeiro Volkswagen eléctrico obrigará a reposicionar os concorrentes. Tanto mais que promete ser mais sofisticado e maior por dentro, além de oferecer maior capacidade de bateria na versão de acesso.

Em relação ao Tesla Model 3, com que a Volkswagen pretende comparar o I.D. Neo, a situação é menos transparente, entre outros pormenores porque Diess está a comparar um veículo com 4,10 m de comprimento, menos 17 cm do que um Golf, com outro de 4,69 m, ou seja, idêntico ao de um BMW Série 3 ou Mercedes Classe C. Isto apesar de o Neo ser surpreendentemente grande por dentro, onde já estivemos sentados, para as dimensões exteriores que anuncia.

O Model 3 na versão base, com bateria de 50 kWh, é proposto nos EUA por 35.000 dólares (30.600€), o que o poderá posicionar na proximidade dos 40.000€ em países como o nosso, ou um pouco menos na Alemanha, por o IVA ser inferior. Ora 28.000€ não é propriamente metade de 40.000€. Mas mais problemático é a autonomia de ambos os modelos que, a diferir, isso será causado pela eficácia do modelo e do seu motor eléctrico (e o peso), pois em termos de capacidade de bateria equiparam-se, com o Volkswagen a oferecer 48 kWh e o Tesla 50 kWh.

NEFZ é o alemão para NEDC, mas se os dados do VW I.D. Neo estão registados em NEDC, os referentes ao Model 3 da Tesla surgem segundo as especificações da EPA americana, incomparavelmente mais rígida e próxima da realidade. É uma “batota” de efeitos limitados

Só esperamos que o construtor de Wolfsburg não tenha utilizado, para termos de comparação, um quadro que mostrou durante a apresentação do I.D., em que mencionava a autonomia do seu Neo segundo o método NEDC, já ultrapassado, e o EPA para o Model 3 (veja o quadro então mostrado à imprensa na fotogaleria), pois o sistema americano é muito mais próximo da realidade (até em relação ao novo sistema europeu WTP). Na altura, o fabricante alemão revelou que o seu I.D. Neo seria capaz de percorrer 400 km na versão de entrada, a mais barata (com 48 kWh) e 600 km com a bateria maior (80 kWh) – valores impressionantes, especialmente quando comparados com o Model 3, que na tabela da Volkswagen reivindicava apenas 215 milhas (345 km), de acordo com o método EPA. Sucede que esses eram valores estimados, que depois foram substituídos pelos definitivos, fixados em 220 milhas (353 km).

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A Volkswagen estará consciente que há uma (grande) diferença entre o NEDC e o EPA, uma vez que o seu e-Golf, já com a bateria de 35,8 kWh, tem homologado 300 km de autonomia em NEDC e apenas 201 km em EPA. O problema é que se usarmos a mesma fórmula de equiparação, que a marca alemã deveria ter utilizado, é fácil constatar que o Model 3 deveria ser apresentado naquele quadro comparativo como tendo uma autonomia de 527 km (sempre no método escolhido então pela Volkswagen, segundo o NEDC). Substancialmente melhor do que os 400 km, segundo o mesmo método, reivindicado pelo I.D. Neo. De acordo com o WLTP, o Neo cai para os 330 km e o Model 3, seguindo o mesmo raciocínio, deverá limitar-se a 434 km, ainda assim um valor superior. Isto significa que, no capítulo da autonomia, a Volkswagen já está numa fase muito superior aos Zoe e Leaf, mas ainda lhe falta bastante para fazer frente à Tesla. Esperemos que, no que respeita aos custos, Diess imponha a sua palavra e proponha o Neo por 50% do valor do Model 3. Quem gosta de eléctricos certamente agradeceria.

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