A votação para a Bola de Ouro é um processo relativamente simples, bem mais do que guardar o segredo em relação ao vencedor (três horas antes do anúncio, até a capa da próxima edição da France Football com Modric já circulava…): a revista francesa escolhe aqueles que considera terem sido os melhores 30 jogadores do ano e cada país é representado por um jornalista de um meio – no caso de Portugal, Joaquim Rita da SIC – que elege os cinco melhores. Depois, cada um recebe pontos: seis para o primeiro, quatro para o segundo, três para o terceiro e assim sucessivamente. E há sempre curiosidades que ressaltam dessas mesmas opções. Em 2018, por razões distintas, esse “prémio” vai para a Coreia do Sul e para São Cristóvão e Nevis.

Wee won-seok, jornalista sul-coreano do The Daily Sports Seoul, foi o único a acertar pela ordem correta aqueles que ficariam como os cinco primeiros da lista: Modric, Cristiano Ronaldo, Griezmann, Mbappé e Messi. Além do órgão asiático, apenas mais 12 países conseguiram eleger aqueles que ocupariam o trio da edição de 2018: Eslováquia, Mauritânia, Gabão, Benim, Bielorrússia, Guiné, Haiti, Omã, Brasil, China, Porto Rico e Rússia. Em contrapartida, Merv-Ann Thompson, do Saint-Kitts-et-Nevis Observer, teve a escolha mais ao lado em relação aos principais candidatos, todos eles fora do top-10 final: Neymar, Sergio Ramos, Luis Suárez, Alisson e Kun Agüero. Também o Sri Lanka teve uma votação muito ao lado da realidade, com Hazard, Firmino e Pogba no pódio de uma lista que tinha ainda Cristiano Ronaldo e Harry Kane.

Olhando para as votações do português, e além de Modric, também Griezmann foi mais vezes escolhido como vencedor do que o avançado da Juventus, que surgiu em mais listas de cinco eleitos do que o francês. Ao todo, votaram no capitão da Seleção Nacional como vencedor mais de 20 países: Arábia Saudita (Al Youm Newspaper), Macau (Ponto Final), Eslovénia (RTV Slovenija), Singapura (The New Paper), Mali (L’Essor), Guiné Bissau (bolanabantaba. com), Moçambique (Notícias), Tajiquistão (Khovar), Cabo Verde (Inforpress), Canadá (The Canadian Press), Camarões (L’Actu-Sport), Burquina Faso (RTB), Jamaica (The Gleaner), Jordânia (Ro’ya TV), Quénia (Daily Nation), Paraguai (Tigo Sports), Portugal (SIC), Venezuela (Directv Sports), Zimbabué (ZBC TV), Zâmbia (Zambia Daily Mail), RD Congo (Mwangaza) e Botswana (The Botswana Gazette).

Além dos cinco melhores classificados, houve ainda outras escolhas mais surpreendentes para primeiro lugar: Luxemburgo, Malawi, Guatemala, Suriname e Índia escolheram Varane; Egito, Palestina e Iémen votaram em Salah; Somália e Bolívia optaram por Luis Suárez; Sri Lanka foi por Hazard; São Cristóvão e Nevis elegeu Neymar; Granada arriscou Kun Agüero; República Centro Africana atribuiu a Benzema; Quirguistão surpreendeu com Courtois; e Vanuatu preferiu Harry Kane.

Mas houve mais para contar sobre a cerimónia da Bola de Ouro realizada no Grand Palais, em Paris. Logo para começar, e depois de se ter confirmado a ausência de Ronaldo, a falta de comparência de Benzema (esta apesar de tudo mais compreensível, tendo em conta a forma como saiu da seleção gaulesa) e Varane, esta última a gerar grande incómodo por ser jogador do Real Madrid e de França, as duas equipas da noite como já se previa. A própria France Football fez questão de deixar uma nota em que explicava ter feito o convite ao central mas que o mesmo tinha sido declinado (tal como no caso do avançado).

A gaffe da noite pertenceu a Martin Solveig, o DJ e produtor musical francês que já tinha animado a apresentação de Neymar no Parque dos Príncipes e que depois de um arranque animado de noite com o apresentador David Ginola acabou por falhar quando Ada Hegerberg recebeu o prémio de melhor jogadora do ano (galardão que teve a primeira atribuição em 2018, tal como o Troféu Kopa) e perguntou à avançada norueguesa campeã europeia pelo Lyon se ela sabia dançar “twerk” (um tipo de dança mais sensual e ousado), numa questão que não demorou a ser muito partilhada e criticada nas redes sociais.

“Expliquei à Ada Hederberg o buzz e ela disse-me que percebeu que era uma piada. Apesar disso, as minhas desculpas a quem se possa ter sentido ofendido. E mais importante, parabéns à Ada”, escreveu depois nas redes sociais Martin Solveig.

Gaffes à parte, e depois da reação contundente da família e amigos próximos de Cristiano Ronaldo por não ter recebido aquela que seria a sua sexta Bola de Ouro, também Antoine Griezmann, o terceiro classificado, não escondeu alguma deceção por ter de novo terminado no último lugar do pódio. “Estou no meu país, por isso é um prazer. É uma noite muito bonita e quero desfrutar. É uma pena que não estejam todos presentes, para mim é importante. Era uma pena se um francês não ganhasse, sinal de que um Campeonato da Europa é mais importante do que um Mundial, mas veremos”, disse antes da cerimónia. “Quando soube tive vontade de ficar sozinho mas é um orgulho ser finalista e estou aqui por respeito. O que é preciso mais para conseguir ganhar uma Bola de Ouro? Não sei, boa pergunta…”, atirou já depois do anúncio do vencedor.

“Tranquilo Griezmann: às vezes nem ganhando a Champions é um momento histórico. Pode ser que o problema seja a cor da equipa. Força Atleti e um forte abraço craque”, comentou Paulo Futre.

Em relação ao grande vencedor, o mesmo comportamento fora de campo que tem dentro das quatro linhas: discreto mas capaz de assistir toda a gente, muito emocionado sempre com a família por perto e uma certeza, que sairá na entrevista concedida à France Football – “nos primeiros dias o troféu vai ficar ao lado da minha cama, depois arranjarei um local especial”. Além disso, o médio recordou na mesma conversa um diálogo quase premonitório que teve com Zidane em janeiro de 2016.

“Nunca houve um momento específico em que pensei: podes ganhar. Quando vi os troféus individuais que foi ganhando este ano e que estava na lista de 30 nomeados, comecei a acreditar que poderia ganhar a Bola de Ouro. Há uma coisa que nunca me vou esquecer, quando Zidane chegou a treinador do Real em janeiro de 2016 e me chamou ao seu gabinete depois de um treino. Explicou-me como me via como jogador e o que esperava de mim. Disse-me que era um jogador muito importante para si e que me via como alguém que, amanhã, poderia ganhar a Bola de Ouro. Quando alguém como Zidane, com a sua personalidade e historial, te diz algo assim, a moral sobe”, contou o médio croata. “Admirava-o e respeitava-o muito como jogador. Via-me como alguém parecido com ele, tranquilo e um pouco tímido. Esperava que me abrisse em campo. Essas palavras ajudaram-me a ir mais além no meu jogo”, completou sobre a influência do técnico francês no seu crescimento.

A família Modric, com o casal Luka e Vranja e os três filhos Ivano, Ema e a pequena Sofia (ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP/Getty Images)

Também no Grand Palais se confirmou essa forma de ser, da emoção por ver um vídeo onde o pai não aguentava as lágrimas a falar sobre o feito do jogador de 33 anos à foto com a mulher Vanja e os filhos Ivano e Ema (Sofia, a mais pequena com 14 meses, também esteve presente) a beijar a Bola de Ouro. E como não poderia deixar de ser, também houve uma mensagem gravada de Kolinda Grabar-Kitarovic, presidente da Croácia que se tornou uma das grandes estrelas fora dos relvados no Mundial de 2018 e que esteve recentemente em França (Lille) para festejar… a vitória do país na final da Taça Davis em ténis.