Imigrantes Ilegais

Victorina Morales, a imigrante ilegal que foi empregada de Trump

A guatemalteca cruzou ilegalmente a fronteira em 1999 e, durante cinco anos, tratou do apartamento pessoal do, agora, presidente dos EUA, no seu clube de golfe.

MANDEL NGAN/AFP/Getty Images

Há apenas quatro meses, Victorina Morales recebeu um certificado da Casa Branca com o seu nome, pelo “extraordinário” serviço que prestou ao atual Presidente dos EUA. Em Bedminster, morada do clube de golfe de que Donald Trump é dono, e onde começou a trabalhar em 2013, a empregada de limpezas guatemalteca fez a cama de Trump, limpou o seu apartamento pessoal e sacudiu o pó da coleção de prémios de golfe, nos últimos cinco anos. O pormenor curioso desta história é que, na verdade, Morales é uma imigrante ilegal  — e trabalha, nessa condição, desde essa altura, para um, agora, chefe de Estado que fez do combate à imigração ilegal um dos principais focos do seu mandato.

Nunca pensei, enquanto imigrante de uma zona rural da Guatemala, que veria tanta gente importante de tão perto”, disse a empregada de limpeza ao diário norte-americana.

Victorina Morales, 45 anos, não é caso único no clube de Donald Trump. Hoje em dia, Sandra Diaz, outro desses exemplos, já é uma residente em situação legal no país. Mas não era essa a realidade quando a costa-riquenha foi contratada para trabalhar também em Bedminster, onde esteve entre 2010 e 2013. Em entrevistas separadas que concederam ao The New York Times, as duas mulheres garantem que há mais casos de imigrantes ilegais a trabalhar na estância turística e que faziam parte de um grupo de empregadas de limpeza, técnicos de manutenção e de jardinagem, todos em situação ilegal.

O diário ressalva que não há qualquer evidência de que a empresa de Donald Trump ou o próprio Presidente dos EUA (e empresário com interesses em vários setores) tivessem conhecimento destes casos — ainda que pelo menos dois supervisores do clube de golfe tivessem encoberto as funcionárias para que não fossem detetadas pelos serviços de imigração nem perdessem o emprego.

E há, ainda, um detalhe nesta história que revela quão clara era a situação destes funcionários e imigrantes ilegais: um funcionário do clube conduz todos os dias um grupo de trabalhadores desde as suas casas até ao local de trabalho. Porquê? Porque toda a gente sabe que não têm como tirar a carta de condução devido ao seu estatuto ilegal.

Foram as próprias mulheres que, através do advogado que as representa num processo sobre o seu estatuto de imigrantes, se dirigiu ao The New York Times para contar a sua história. Depois de semanas a acompanhar a evolução da história à volta de uma coluna de imigrantes que subiu a América do Sul, rumo à fronteira do México com os EUA, Morales está magoada. Custou-lhe ouvir os comentários que Donald Trump tem feito sobre os imigrantes latino-americanos, colando-os à imagem de violentos criminosos. Os comentários racistas de um supervisor fizeram o resto.

Estamos fartas do abuso, dos insultos, da forma como ele fala sobre nós, quando sabe que estamos a ajudá-lo a fazer dinheiro”, diz Victorina Morales. “Fartámo-nos de suar para estar à altura de cada uma das suas exigências e temos de suportar as humilhações dele”, desabafa.

Victorina Morales não tinha razões de queixa de Trump, na sua versão milionário e dono do clube de golfe. Por mais do que uma vez, a funcionária do agora presidente chegou a casa para contar ao marido que tinha recebido uma gorjeta de 50 dólares, por vezes 100. O problema, diz, foram os comentários de Trump a partir da Casa Branca.

Do número 1600 da Pennsylvania Avenue não saiu qualquer resposta às questões do Times. A Trump Organization respondeu, mas não sobre os casos concretos de Morales e Diaz. “Temos milhares de empregados nas nossas propriedades e seguimos práticas de contratação muito rígidas“, diz Amanda Miller, vice-presidente com as pastas de Marketing e da Comunicação Empresarial. E deixou a garantia: “Se um funcionário submete documentação falsa numa tentativa de contornar a lei, será despedido com efeitos imediatos“.

    Se tiver uma história que queira partilhar ou informações que considere importantes sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal, pode contactar o Observador de várias formas — com a certeza de que garantiremos o seu anonimato, se assim o pretender:

  1. Pode preencher este formulário;
  2. Pode enviar-nos um email para abusos@observador.pt ou, pessoalmente, para Sónia Simões (ssimoes@observador.pt) ou para João Francisco Gomes (jfgomes@observador.pt);
  3. Pode contactar-nos através do WhatsApp para o número 913 513 883;
  4. Ou pode ligar-nos pelo mesmo número: 913 513 883.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: prainho@observador.pt
Eleições

Agora, até na Suécia!… /premium

João Carlos Espada
114

Os factos estão a revelar as trágicas consequências da dicotomia infeliz entre internacionalismo desenfreado e nacionalismo desenfreado. Já é mais do que tempo para recusar esse tribalismo primitivo.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)