Governo

Costa alerta para risco de “pneumonia”. E para a “pressa” na geringonça

243

Primeiro-ministro aponta dois maiores perigos para uma "pneumonia" económica no país. E avisa a "geringonça" para a "pressa" eleitoral -- sem deixar de entrar nesse mesmo frenesim.

António Costa esteve ao lado de Vasco Lourenço num dos "Almoços Animados" na Associação 25 de abril

MÁRIO CRUZ/LUSA

O terreno não era propriamente hostil — o da Associação 25 de abril em Lisboa onde o primeiro-ministro almoçou esta quarta-feira –, mas nem por isso António Costa saiu confortado com duas palmadinhas nas costas e votos de boa maioria absoluta nas eleições que aí vêm. O socialista ouviu o presidente da associação, Vasco Lourenço, desejar precisamente o contrário: que vença as eleições, sim, mas sem a tal maioria. Nesse campo, Costa preferiu não fazer futurologia, guardou-a para apontar a outros horizontes: os dos riscos que podem fazer constipar o país. Ou até levar à pneumonia.

Começou por discordar de Vasco Lourenço quando este se referiu ao país como “um oásis”. “Não somos um oásis”, contrariou Costa que aponta mesmo os dois principais riscos que se avizinham para o crescimento sustentável da economia que tem por objetivo: o primeiro é o Brexit, porque “o Reino Unido é o nosso melhor cliente e qualquer perturbação nessa relação afetas as exportações e a produção” nacionais, o segundo é a “guerra comercial entre os Estados Unidos e a China que pode ter efeito no comércio internacional”. Conclusão: “Temos de continuar a ter cautela suficiente para não nos pormos numa corrente de ar, apanharmos uma gripe que se transforme numa pneumonia”.

É essencial manter as boas condições de investimento, mas ao mesmo tempo precavermos contra qualquer acidente”, avisou ainda sobre os riscos em causa.

“Geringonça forever”, mas sem pressas. E o alerta para a dispersão à esquerda

Um diagnóstico que surgiu neste almoço, integrado no ciclo dos “Animados Almoços” — uma parceria da rede social Ânimo (dinamizada pelo ex-assessor do PS e artista plástico António Colaço) e a Associação 25 de abril — e onde na plateia muito se elogiou a “geringonça”. “Geringonça forever”, gritou um dos presentes na sala — onde também se contava o antigo secretário geral da CGTP Manuel Carvalho da Silva — quando Vasco Lourenço desejava que o PS, nas próximas legislativas, “não atinja a maioria absoluta” para que se repita “uma solução que tem dado boas provas”.

Costa não deixou a sua solução governativa por menos e atribui-lhe mesmo responsabilidade pela inexistência de “uma corrente populista como já apareceu noutros países da Europa”. “O que tem acontecido na Europa é que os sistemas não têm conseguido encontrar alternativas. Nós fomos capazes de encontrar uma solução”, (auto) elogiou.

A autoria da solução é sua e remonta a 2015, mas na cabeça do líder socialista mantém-se a vontade de a reeditar em 2019. Já o disse publicamente e, esta quarta-feira, repetiu o desejo ao dizer que “a melhor prova final da bondade da atual solução governativa é não só que ela conclua bem a legislatura como também que ela se possa renovar para o futuro”. Ou seja, que continuem de boas relações até ao fim, sem cederem à “pressa final de cada um começar a contar ganhos e perdas eleitorais e, por calculismo injustificado, pôr em causa o que foi um fator de enriquecimento da democracia”. Uma no cravo, outra na ferradura de uma geringonça que Costa teme que entre em nervosismo eleitoral.

Um frenesim a que Costa, na verdade, também não se mostra completamente imune, sobretudo quando perante ele está uma sala assumidamente de esquerda, mas pouco ou nada entusiasmada com uma maioria socialista. A esses deixou uma chamada de atenção e talvez o primeiro apelo ao voto da temporada: “Convém que para evitar um resultado [a maioria absoluta], não se tenha um resultado que não desejamos [que o PS não tenha um resultado relevante]”. Ou seja, cuidado com a dispersão de votos à esquerda.

O outro Mourinho das Finanças

Foi só já na parte das perguntas dos participantes no almoço, que se falou diretamente do Governo e dos seus membros. Uma das questões trouxe uma análise aos “muitos Ronaldos que existem no Governo”, com um participante do almoço a explicar que se referia a Augusto Santos Silva e “ao outro Silva”, José António Vieira da Silva. Quanto a Costa, referiu “é o Mourinho”.

Mas a distribuição de estrelas do futebol não encheu as medidas do primeiro-ministro: “Temos muitos Ronaldos no Governo, mas temos um Mourinho dentro do Governo”, contrapunha. Por esta altura, o seu interlocutor fazia saber que se tinha esquecido de Mário Centeno, “também um Ronaldo”, mas Costa ia embalado na aposta noutro player da governação: “Um dos secretários de Estado de Centeno é precisamente um Mourinho e portanto iremos, concerteza, conservar os Ronaldos, mas também os Mourinhos”. O secretário de Estado Adjunto e das Finanças é Ricardo Mourinho Félix (primo do treinador José Mourinho) que, desde que Centeno assumiu a presidência do Eurogrupo o substitui, sempre que necessário, no Ministério das Finanças. António Costa já parece lançado em contas eleitorais, mas não só.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: rtavares@observador.pt
Greve

O povo é quem mais ordena e a CGTP está fora /premium

André Abrantes Amaral

Quando os motoristas de matérias perigosas param o país e não se revêem na CGTP é a própria Concertação Social que está posta em causa, o que revela o quanto a geringonça distorceu esta democracia.

Eleições Espanha 2015

Sombras da guerra civil /premium

Manuel Villaverde Cabral

Não se espera uma nova guerra civil mas não são de afastar enfrentamentos de vários géneros, incluindo físicos, apesar da pertença comum à União Europeia, cujos inimigos em contrapartida rejubilarão!

25 de Abril

O Governo Ensombrado vai ao circo

Manuel Castelo-Branco
143

Se hoje é possível um programa como o Governo Sombra, foi porque o Copcon de Otelo não vingou. Porque apesar de serem “apenas” 17 vítimas mortais, as FP25 foram desmanteladas e os seus membros presos.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)