“Nada disso corresponde à verdade. Nada saiu para membros da família ou do executivo”. O presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande desmentiu esta sexta-feira a reportagem da TVI, transmitida esta quinta-feira, que dava conta da existência de centenas de donativos que não foram entregues às vítimas do incêndio de 2017 e que ficaram guardados em dois armazéns da autarquia, referindo ainda que alguns dos donativos foram levados por familiares de autarcas.

Em declarações ao Jornal de Notícias, Valdemar Alves garantiu que os bens que estão dentro desses armazéns não pertencem ao município, sendo “das instituições que estão lá [em Pedrógão] a reconstruir as casas e são para equipar as casas”. Segundo relata a TVI, que também divulgou várias fotografias do local, estão “escondidos” vários eletrodomésticos, mobílias e até colchões que nunca chegaram a ser vistos pelas vítimas do incêndio.

Estes armazéns, acrescenta aquele canal, estão “vedados” e “permanentemente trancados” e o espaço apenas pode ser acedido por funcionários da autarquia. Sobre esta informação, Valdemar Alves explica que foi colocada uma retroescavadora a impedir o acesso aos local por uma questão de segurança: “Já fomos objeto de três furtos e aquela máquina é para que nenhum camião de gatunos possa entrar lá dentro”, disse ao JN, acrescentando que foi o próprio autarca a ordenar que a máquina fosse lá colocada.

O Ministério Público já está a analisar o caso para saber o que foi doado e a quem foram entregues esses donativos. Depois da divulgação das imagens dos vários bens armazenados, o presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande disse ainda que vai informar as entidades que lhe pediram para guardar os donativos para procurarem outro local com o mesmo objetivo. “Fico preocupado que os bandidos saibam o que há lá dentro”, referiu.

Sobre a reportagem transmitida pela TVI, Valdemar Alves diz tratar-se de “um caso político” e que está a ser “perseguido”. “Ontem ficou esclarecido naquele trabalho. O meu mal foi ter ganho as eleições”, argumentou.

Fundo Revita garante que “processo está a decorrer com normalidade”

Entretanto, o Fundo Revita e a Cruz Vermelha, depois das acusações que surgiram, garantiram que têm os bens “inventariados, geridos e corretamente entregues, não sendo conhecida qualquer irregularidade”, avançou o jornal Público.

A Cruz Vermelha refere que fez um pedido à autarquia para o armazenamento dos artigos que servem para serem colocados nas casas reconstruidas, acrescentando ainda que tem os bens inventariados “dos que foram entregues para armazenamento e dos que foram entregues às famílias”.

Já fonte oficial do Fundo Revita confirmou ao Público que os bens doados às instituições estão “devidamente inventariados”. “A Cruz Vermelha Portuguesa identifica a necessidade, propõe a doação à Comissão Técnica do Fundo Revita e, após aprovação por parte da Comissão Técnica, indica à câmara onde as entregas devem ser feitas”, explicou o responsável do fundo.

PSD e CDS exigem que investigação vá “até às últimas consequências”

Após a divulgação do caso, Duarte Marques disse em declarações à TVI que “o Governo preocupou-se mais com a propaganda da ajuda do que propriamente com a ajuda às pessoas”. O deputado do Partido Social Democrata (PSD) considera ainda que “há cada vez mais evidências de que a má gestão da ajuda das pessoas tem prejudicado aqueles que precisavam e beneficiado aqueles que não deveriam ser beneficiados”.

Do lado do CDS, João Ameida afirmou que a investigação a este caso deve ir “até às últimas consequências” e que “é fundamental que isto aconteça para que não se frustre o sentimento de solidariedade e para que os portugueses continuem a acreditar que quando contribuem generosamente para uma causa solidária, essa causa verdadeiramente existe e é destinada a quem mais precisa”.

(Artigo atualizado às 18h50 do dia 22 de fevereiro com as informações sobre a Cruz Vermelha e o Fundo Revita)