Óscares

As 11 coisas em que (provavelmente) não reparou na noite de Óscares

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Andámos com um microscópio à cata de pormenores que ninguém viu. E encontrámos 11 coisas, entre jóias e mentiras, que estavam mesmo debaixo do seu nariz.

A.M.P.A.S. via Getty Images

Bateram-se recordes, mas ninguém deu por isso. Fizeram-se jóias históricas, mas é improvável que conheça a história por detrás delas. Falou-se noutras línguas que não inglês, mas isso serviu para encobrir uma mentira. E até houve dois portugueses que, sem que ninguém desse por nada, também deram uma mãozinha para a conquista de um dos Óscares. Descubra todos os detalhes que lhe passaram ao lado durante a noite dos Óscares.

Nunca antes uma edição dos Óscares galardoou tantos negros

Regina King, Ruth Carter, Hannah Beachler, Mahershala Ali, Peter Ramsey, Spike Lee e Kevin Willmott. São apenas seis, mas ainda assim nunca antes tantos artistas negros tinham saído galardoados de uma cerimónia dos Óscares. O mais perto que se esteve deste recorde foi em 2017, quando Mahershala Ali ganhou Melhor Ator Secundário em “Moonlight”, Viola Davis foi Melhor Atriz Secundária em “Vedações”, Ezra Edelman venceu Melhor Documentário por “O.J.: Made in America”, e Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney levaram um Óscar de Melhor Argumento Adaptado também por “Moonlight”.

Este ano foi-se mais longe. Regina King arrecadou o prémio de Melhor Atriz Secundária por “Se Esta Rua Falasse”. Ruth Carter, apenas a segunda nomeada na categoria de Guarda-Roupa desde 1949, também venceu pelo trabalho em “Black Panther” e tornou-se na primeira pessoa negra a vencer esse prémio. E Hannah Beachler tornou-se a primeira designer negra a receber uma nomeação e um prémio na categoria de Direção de Arte em “Black Panther”.

Mahershala Ali ganhou o Óscar de Melhor Ator Secundário por “Green Book”, considerado o melhor filme do ano pela Academia. Créditos: Kevin Winter/Getty Images.

Peter Ramsey, de “Homem-Aranha: No Universo Aranha”, é o primeiro realizador negro a ser nomeado e depois a ganhar na categoria de Melhor Filme de Animação. Mahershala Ali, já habituado aos Óscares, venceu mais um este ano por “Green Book” e tornou-se apenas no segundo ator negro a arrecadar esse troféu mais do que uma vez — além dele só mesmo Denzel Washington. E, por fim, Spike Lee e Kevin Willmott também adensam a lista por terem ganhado o Óscar na categoria de Melhor Argumento Adaptado por “BlacKkKlansman”.

Além disso, o Óscar de Melhor Filme foi para “Green Book – Um Guia Para a Vida”, que retrata as dificuldades que os cidadãos norte-americanos enfrentaram na era da segregação, quando havia casas de banho, hotéis ou restaurantes exclusivos para brancos e outros para negros. Fez-se história nos Óscares.

Adam McKay era o único americano branco nomeado para Melhor Realizador

No rescaldo de uma discussão acesa sobre a falta de diversidade racial nos Óscares, apenas um dos cinco nomeados para o galardão de Melhor Realizador era americano e caucasiano. Spike Lee, o artista por detrás de “Blackkklansman”, é um afro-americano habituado a explorar o tema da discriminação racial e do preconceito nas suas produções. Paweł Pawlikowski é polaco e neto de um homem que morreu em Auschwitz durante a II Guerra Mundial. Yorgos Lanthimos, realizador de “A Favorita”, é grego. E Alfonso Cuarón, o realizador que levou a Netflix aos Óscares com “Roma”, é mexicano.

No seio de um evento que tende a galardoar homens brancos e americanos, este ano a Academia surpreendeu ao nomear apenas um americano caucasiano para a categoria de “Melhor Realizador”. Adam McKay, de “Vice”, chega aos Óscares com uma história que retrata as histórias da administração de George W. Bush; e sobretudo o papel todo-poderoso do vice-presidente Dick Cheney.

Trevor Noah disse: “Os brancos não sabem que estou a mentir” em Xhosa

Numa edição dos Óscares em que muito se falou em espanhol — tudo como forma de protesto contra a construção de um muro entre os Estados Unidos e o México — Trevor Noah escolheu falar em Xhosa, um dos idiomas oficiais da África do Sul, terra natal do comediante. Quando subiu ao palco para falar sobre “Black Panther”, que estava nomeado para o Óscar de Melhor Filme, Trevor Noah disse, entre os sons e os estalidos que caracterizam a língua: “Abelungu abazi’ uba ndiyaxoka“.

Ora, Traver Noah garantiu que a frase significava: “Em tempos como estes, somos mais fortes quando lutamos juntos do que quando tentamos lutar separados”. No entanto, a Vox foi verificar se a tradução estava mesmo bem feita e descobriu que Traver Noah tinha enganado (quase) toda a gente. Afinal, a frase significava “Os brancos não sabem que estou a mentir”.

Trevor Noah falou em Xhosa, uma língua com estalidos da África do Sul. Mas enganou o público. Créditos: Kevin Winter/Getty Images

Uma nova categoria devia ter nascido este ano, mas não aconteceu

Foi uma tentativa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de abrir novos capítulos nos Óscares, mas não resultou. Pela primeira vez desde 2001, quando começou a premiar os filmes de animação, a organização anunciou que os Óscares teriam uma nova categoria: “Outstanding Achievement in Popular Film” ou, em português, “Melhor Filme Popular”. Serviria, explicou a Academia, para premiar os blockbusters, isto é, os sucessos de bilheteira.

Mas os comentários a esse passo foram tão negativos que a Academia não tardou em recuar com a justificação de que “implementar qualquer novo prémio nove meses depois do começo do ano cria desafios para filmes que já foram lançados”. É que a ideia foi mal recebido pelos especialistas, que acusaram a Academia de querer tornar os Óscares num prémio mais popular para conquistar mais público. Além disso, causava um problema semântico: se houvesse um prémio de popularidade, isso indicaria que todos os outros filmes não eram populares nem grandes sucessos.

Por isso, a Academia chegou a admitir que “houve uma série de reações à introdução do novo prémio”: “Reconhecemos a necessidade de mais discussão com os nossos membros. Fizemos mudanças nos Óscares ao longo dos anos, incluindo este, e vamos continuar a evoluir”, disse o presidente executivo da Academia, Dawn Hudson. E, portanto, tudo ficou na mesma no mundo das categorias dignas de um Óscar.

Havia uma artista nomeado duas vezes para a mesma categoria

Sandy Powell era, ainda antes de a cerimónia dos Óscares começar, uma vencedora à partida. Em primeiro lugar porque já foi nomeada para o Óscar de Melhor Guarda-Roupa catorze vezes, o que faz dela uma espécie de Meryl Streep das categorias técnicas. E em segundo lugar porque, na 91ª edição do mais prestigiado prémio de cinema do mundo, foi nomeada duas vezes para a mesma categoria.

Sandy Powell esteve nomeada duas vezes para a mesma categoria. Mas saiu do Dolby Theater de mãos a abanar. Créditos: Kevork Djansezian/Getty Images

Tudo porque teve um ano particularmente agitado. Foi ela a responsável pelo guarda-roupa por detrás de “A Favorita”, que esteve nomeado para o Óscar de Melhor Filme. E também foi ela a criar os figurinos do filme “O Regresso de Mary Poppins”. Para fazer os fatos do primeiro filme, Sandy Powell levou seis semanas. Depois saltou dois séculos e passou dos fatos do século XVIII para os dos anos 30. Sem grandes dificuldades, disse ela. Foi tudo graças “à adrenalina”.

Spike Lee homenageou Prince

Enquanto desfilava passadeira vermelha fora em busca de um Óscar, Spike Lee aproveitou o barulho das luzes para homenagear um amigo para quem fez uma festa de homenagem quando morreu: Prince. O realizador de “BlacKkKlansman” chegou com um fato púrpura assinado por Ozwald Boateng, uns ténis Michael Jordan de ouro feitos por Tinker Hatfield; e um colar Amedeo Scognamiglio de ouro, diamantes e uma pala com o símbolo típico do cantor.

O realizador Spike Lee exibe a jóia que mandou fazer em homenagem a Prince. Créditos: Frazer Harrison/Getty Images

Spike Lee e Prince conheceram-se quando o músico, impressionado com a longa-metragem de estreia do realizador em 1986 “She’s Gotta Have It”, pediu-lhe para contribuir no filme “Graffiti Bridge”. Foi assim que se tornaram amigos. E foi em homenagem a esse companheirismo que Spike Lee chamou Amedeo Scognamiglio para fazer a peça que representa Prince: um pendente de ouro de 18 quilates emoldurado em diamantes e com uma opala de 17 quilates.

Em “BlacKkKlansman”, Spike Lee decidiu introduzir uma versão de “Mary Don’t You Weep” de Prince. E, segundo ele, “isso nunca seria um erro”: “Disse para mim mesmo que nada poderia ser mais adequado do que ter uma canção negra espiritual cantada por Prince, apenas ele e o piano, neste filme. O Prince queria que eu tivesse esta música em BlacKkKlansman. As pessoas podem dizer que estou louco, mas juro pela campa da minha mãe que ele queria que eu usasse esta música”, justificou.

O colar de Lady Gaga tinha uma pedra usada por Audrey Hepburn em “Boneca de Luxo”

O colar que Lady Gaga usou nesta edição dos Óscares incluía um diamante Tiffany & Co com 128.54 quilates que vale 30 milhões de dólares (o equivalente a 26,5 milhões de euros) e que Audrey Hepburn usou em 1961 para promover o filme “Breakfast At Tiffany’s” ou, em português, “Boneca de Luxo”. Segundo a Tiffany & Co, este diamante foi descoberto nas minas de Kimberly, África do Sul, em 1877 e depois levado para Paris para ser transformado “num diamante que brilha como que aceso como uma chama interior”.

Esta não é a primeira vez que Lady Gaga utiliza um colar milionário durante eventos como este. Já nos Globos de Ouro a artista tinha utilizado um colar de 300 diamantes Tiffany & Co com 100 quilates que ladeavam outro diamante de 20 quilates e formato de uma pera. Só que dessa vez o colar tinha sido “desenhado especialmente para Lady Gaga”, garantiram as estilistas Sandra Amador and Tom Eerebout.

Leia mais aqui em baixo.

Lady Gaga consertou o laço torto de Rami Malek

Quando posou para as fotografias na passadeira vermelha, Rami Malek, que dali a umas horas havia de ser considerado o Melhor Ator Principal do ano, chegou com o laço desengonçado. Talvez fosse um bom presságio para a vitória que havia de conquistar, mas Lady Gaga garantiu que o colega subiria ao palco em grande estilo. E endireitou o dito laço, como testemunham as fotografias tiradas já dentro do Dolby Theater.

Rami Malek chegou acompanhado da namorada Lucy Boynton, que interpreta o papel de Mary Austin em “Bohemian Rhapsody” — o filme que, embora tenha arrecadado mais prémios do que qualquer outro, ficou na sombra de “Roma”. Os dois juntaram-se para um retrato de casal e depois entraram juntos no teatro. Foi já na plateia que Lady Gaga reparou no laço torto de Rami Malek e decidiu ajudá-lo.

O momento em que Lady Gaga ajeita o laço de Rami Malek. Créditos: Kevin Winter/Getty Images

Uma das atrizes nomeadas para os Óscares já ganhou… um Razzie

Melissa McCarthy esteve na corrida para um Óscar de Melhor Atriz pela participação no filme “Can You Ever Forgive Me?”, mas há pelo menos um prémio que já arrecadou este ano: o Razzie, um anti-Óscar humorístico que é entregue aos piores filmes e piores performances do ano. A atriz, que em 2012 ganhou um Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo filme “A Melhor Despedida de Solteira”, foi galardoada (por assim dizer) pelo papel desempenhado em “The Happytime Murders” e “Life of the Party”.

Ainda assim não ficou a perder. A organização dos Framboesas de Ouro — o nome oficial dos Razzies — deu uma palmadinha nas costas a Melissa McCarthy e entregou-lhe o “Prémio Razzie da Salvação” precisamente pela interpretação em “Can You Ever Forgive Me?”. Ao contrário do que Sandra Bullock fez no passado (ela que recebeu um Óscar e um Razzie no mesmo ano), Melissa McCarthy não teve oportunidade de receber o prémio pessoalmente porque as Framboesas de Ouro já não têm cerimónia física.

A atriz mascarou-se para entregar o prémio de Melhor Guarda-Roupa. Créditos: Matt Sayles – Handout/A.M.P.A.S. via Getty Images)

Desde 1989 que os Óscares não aconteciam sem apresentador

Este ano, em especial, foi imperativo seguir o nosso liveblog enquanto via a cerimónia dos Óscares. É que não houve apresentador durante o evento. O escolhido tinha sido Kevin Hart, mas à conta de uns comentários homofóbicos publicados no Twitter entre 2009 e 2011, o humorista foi afastado do palco do Dolby Theatre. Na falta de alternativas, a Academia preferiu deixar em branco esse papel.

Mas isso não era novidade. O que lhe pode ter passado ao lado é que a última vez que uma coisas destas aconteceu foi em 1989. E a cerimónia ficou na memória, mas não pelos melhores motivos. A parte do monólogo — em que os apresentadores fazem piadas do presidente, por exemplo — foi substituída por um espetáculo conduzido por Allan Carr, realizador de “Grease – Brilhantina”. Foi um espetáculo de 11 minutos. E não correu muito bem.

De qualquer modo, houve quem especulasse que a Academia podia ter contratado um apresentador surpresa. Quiçá a atriz e apresentadora norte-americana Whoopi Goldberg, que tem faltado ao “talk show” da NBC “The View”, onde é co-apresentadora. Nem toda a gente engoliu a desculpa de que está meramente doente e, portanto, não tem ido trabalhar. Mas agora que os Óscares já aconteceram, de facto sem apresentador, o mais provável é que Whoopi Goldberg esteja mesmo a recuperar de uma gripe em casa.

Dois portugueses venceram um Óscar esta noite

“Free Solo” ganhou o Óscar de Melhor Documentário. Créditos: Kevin Winter/Getty Images

No momento em que Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi subiram ao palco do Dolby Theatre para recolher o Óscar de Melhor Documentário, houve dois portugueses que também estavam a ser galardoados. Chamam-se Joana Niza Braga e Nuno Bento e já tinham sido distinguidos graças a este projeto pelos norte-americanos Cinema Audio Society (CAS) Awards.

Joana Niza Braga é “foley mixer” e Nuno Bento é “foley artist” ou, em português, sonoplasta. Foram eles os responsáveis por reproduzir efeitos sonoros complementares na pós-produção para melhorar a qualidade do áudio e incluir, por exemplo, o som de uma porta a ranger, de saltos altos a percorrer um corredor com chão de madeira ou uma faca de metal a cair. Ambos são reconhecidos pelo trabalho em “The First Purge” ou “Cam”.

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