Dança

Há uma relação entre Bolsonaro e o festival Dias da Dança no Porto

36 espetáculos em 19 dias num dos maiores festivais de dança do país, com início a 24 de abril. O atual confronto ideológico no Brasil marca várias propostas. A dança está cada vez mais politizada.

Lia Rodrigues é considerada uma das maiores coreógrafas brasileiras da atualidade e apresenta o espetáculo "Fúria"

SAMMI LANDWEE

Autor
  • Bruno Horta
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A análise foi feita esta semana por Tiago Guedes, diretor artístico do festival Dias da Dança: “As questões geopolíticas afetam as linguagens coreográficas. O que está a acontecer na sociedade molda também as estéticas que os artistas aplicam nos seus trabalhos.” É uma tendência nova e pode ser conferida a partir da próxima quarta-feira, 24, quando se iniciar a quarta edição deste evento – que decorre até 12 de maio em várias salas do Porto, de Gaia e Matosinhos, mas com epicentro no Teatro Municipal do Porto (Rivoli e Teatro Campo Alegre). A noite de abertura do Dias da Dança (DDD) será marcada pela estreia em Portugal de “Looping: Bahia Overdub”, uma criação brasileira de Felipe de Assis, Leonardo França e Rita Aquino.

Se o teatro e o cinema, sobretudo os documentários, estão desde há muito atentos à atualidade política e a transformações sociais do momento, na dança nem sempre se verifica o mesmo, porque conceitos, ideias e reflexões abstratas costumam ser o ponto de partida dos artistas. O DDD deste ano dá nota da mudança. “Há uma nova fase na dança contemporânea que toma de assalto muitas questões políticas”, sublinhou o diretor artístico, ressalvando que a dança é muito diversificada e este é apenas um dos caminhos atuais.

Tiago Guedes, de 40 anos, também diretor do Teatro Municipal do Porto, instituição no âmbito da qual o DDD foi criado, conversou com o Observador e preferiu deixar de fora questões concretas sobre políticas culturais, mas não deixou de apresentar a sua visão quanto o que deve ser o papel de um programador cultural.

Corpos em tensão

Do Brasil, país em foco nesta edição do festival, chegam coreógrafos engajados com a contestação política e social que o país vive há alguns anos, especialmente desde que Jair Bolsonaro se candidatou e venceu as eleições presidenciais. A polarização partidária e o confronto ideológico entre povo e elites está muito presente em “A Invenção da Maldade”, de Marcelo Evelin (para ver no Campo Alegre, no dia 25 de abril), mas também em “Fúria”, de Lia Rodrigues, considerada uma das maiores coreógrafas brasileiras da atualidade (Teatro Nacional de São João, 2 de maio).

[vídeo de promoção dos espetáculos brasileiros no DDD 2019]

São artistas empenhados em denunciar a situação política e social do Brasil e isso vê-se através da tensão dos corpos, da maneira como as coreografias são montadas e da forma reativa como os bailarinos se relacionam entre si. Está também nos títulos das próprias peças, nas imagens para as quais remetem, nos textos que os coreógrafos escrevem para as folhas de sala”, contextualizou Tiago Guedes.

A estes espetáculos que respiram o ar do tempo, o DDD junta outra linha de propostas que testemunham ou questionam valores e modelos sociais a oriente, sem uma visão político-partidária vincada. O Tao Dance Theater, da China, mostra “4 & 8 Numerical Series” (Rivoli, 11 de maio), uma dança “completamente assética” que “agarra o bailado clássico, no sentido em que todos os bailarinos executam o mesmo movimento, e transpõe isso para a dança contemporânea”, descreveu o diretor do festival. “É uma dança com bailarinos-máquinas, todos sincronizados, o que aponta para a sociedade chinesa de hoje, onde as mega-estruturas industriais concentram funcionários que executam todos o mesmo movimento.”

Peça de registo idêntico é “Behalf”, de Pichet Klunchun e Wu-Kang Chen (Palácio do Bolhão, 27 de abril), sobre questões de parentalidade e família. “Dois homens falam das relações que têm com os seus pais, da relação com os seus filhos, o que está imbuído do respeito pela família no oriente, uma ligação que permanece pela vida fora, muito diferente do se que passa na Europa na América”, resumiu Tiago Guedes.

Tiago Guedes defende que os festivais devem dar visibilidade internacional aos artistas portugueses (foto: José Caldeira)

De Vera Mantero a Jonathan Uliel Saldanha

Nesta quarta edição, o DDD junta-se ao histórico FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica para uma secção comum de programação intitulada “Semana +”, durante a qual peças também abertas ao público estão especialmente vocacionados para curadores e programadores de vários países. É a aposta na internacionalização, tão cara ao diretor artístico.

Os festivais, quando atingem uma certa dimensão, têm duas grandes responsabilidades: trabalhar para os públicos, oferecendo projetos de grande qualidade, e criar uma relação forte com os artistas convidados”, defendeu Tiago Guedes. “Para isso, os festivais devem dar visibilidade internacional aos artistas. Estamos a fazê-lo ao convidarmos outros programadores e diretores de festivais internacionais. Já estão confirmados 90. Destes, 30 vêm através de uma bolsa que nós oferecemos. São da Europa, da China, do Irão, do Brasil, da Argentina, do Chile, de muitos países. Podem ver quatro espetáculos por dia, de dança e de teatro, conhecer os artistas, ter sessões de pitching, fazer um verdadeiro cruzamento para a internacionalização.”

Esta “Semana +” decorre entre 8 e 12 de maio e contempla apresentações de peças novas ou recentes de portugueses como Vera Mantero, Ana Rita Teodoro, Jonathan Uliel Saldanha, Mala Voadora e Miguel Pereira, Hotel Europa e Lígia Soares.

As escolhas desta secção e do restante programa do DDD obedecem a um “critério curatorial”,  segundo Tiago Guedes. “Não fazemos uma open call, mas recebemos dezenas de propostas que são analisadas. Uma parte importante do meu trabalho e das minhas equipas é a prospeção nacional e internacional, o que se faz a ver espetáculos que já existem ou a desafiar a criação em conjunto com outras estruturas”.

Abertura do festival Dias da Dança no Rivoli há um ano (foto: José Caldeira)

O festival DDD surgiu em 2016 no contexto do projeto artístico que Tiago Guedes criou para o Teatro Municipal do Porto ao tomar posse como diretor, em 2014. O público tem sido “muito eclético”, classificou o diretor. De alunos de escolas de dança clássica e contemporânea do Grande Porto, ao público em geral, passando pela comunidade artística local.

É uma iniciativa do Teatro Municipal, este ano em coorganização com a Associação de Artes Performativas Dias da Dança, fundada em 2018. Representa uma das grandes apostas da chamada “frente atlântica do norte”, que reúne os municípios do Porto, de Gaia e Matosinhos. O orçamento deste ano ainda não foi divulgado, mas poderá ser ligeiramente superior aos 583 mil euros do ano passado.

Questionado sobre como se faz programação cultural que não seja puro entretenimento nem apenas relevante para franjas do público – programar ao centro, como parece ser o caso do Teatro Municipal do Porto –, Tiago Guedes respondeu que é necessário “criar laços de confiança com o público”. “Esse é um dos grandes desafios das instituições culturais, para que as pessoas, mesmo não sabendo quem é o artista ou de que espetáculo se trata, confiem na nossa programação e vão ao nosso teatro descobrir”. É um “grande segredo”, que tem de estar ligado à “comunicação e mediação de públicos”, a que muitas vezes se chama serviço educativo. “Tudo à volta tem de ser muito bem lavrado, para que os espetáculos sejam só o ponto alto da relação com os públicos. Numa época com tanta oferta, com séries no computador ou no telemóvel, temos de organizar aulas, workshops, encontros com artistas, conversas depois dos espetáculos. Hoje, os espetáculos propriamente ditos são apenas uma parte das instituições culturais”, defendeu Tiago Guedes.

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