Kenneth Roth, diretor da Human Rights Watch, considera “preocupante” o “silêncio” de António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, sobre os direitos humanos. Num artigo de opinião publicado no The Washington Post e no site da HRW, Roth escreve que, “a meio do seu primeiro mandato de cinco anos”, Guterres “está a ficar definido pelo seu silêncio sobre os direitos humanos”. “Mesmo com a proliferação de violações graves desses direitos”, acrescenta.

O advogado norte-americano, que está à frente da fundação há 26 anos, acusa António Guterres de ter optado por uma “diplomacia do silêncio” na abordagem a este tema. E sugere que o secretário-geral da ONU só criticou a “proibição muçulmana” instituída por Donald Trump depois de outras organizações o terem feito:

Talvez não quisesse arriscar dar a Trump uma desculpa para parar de enviar cheques para as Nações Unidas”, sugere.

Roth elogia, ainda assim, o momento em que Guterres resistiu à campanha do presidente Jimmy Morales para destruir a Comissão Internacional Contra a Impunidade, apoiada pela ONU, na Guatemala. E também lhe dá louros por ter exigido que o Conselho de Segurança impedisse a limpeza étnica dos muçulmanos rohingya por parte dos militares de Mianmar. No entanto, “para a maioria das questões de direitos, o som dominante vindo do 38º andar da sede da ONU foi silêncio”, considera o diretor executivo da organização internacional de defesa dos direitos humanos.

Muitos governos expressaram preocupação sobre a detenção de um milhão de muçulmanos turcos para doutrinação forçada. No entanto, Guterres não disse uma palavra sobre isso em público. Em vez disso, elogia a proeza de desenvolvimento da China e lança o tapete vermelho para o presidente Xi Jinping”, atira Kenneth Roth. E acrescenta: “Guterres também se recusou repetidamente a exercer autoridade para estabelecer missões de apuração de factos em flagrantes violações de direitos, como o assassinato por parte da Arábia Saudita do jornalista Jamal Khashoggi, o uso de armas químicas na Síria e o assassinato de dois funcionários da ONU no Congo”.

Kenneth Roth termina pedindo pulso mais firme a António Guterres: “Não há dúvida de que Guterres é um diplomata habilidoso e consciencioso, mas sua decisão de reprimir a sua voz sobre os direitos humanos, especialmente quando civis são alvejados em conflitos armados, é imprudente”. “Falar nunca é fácil. Muitas vezes, há um preço político, até pessoal, a pagar. Mas esse é o custo da liderança. Guterres deve mostrar que pode cumprir todo o leque das suas responsabilidades como secretário-geral da ONU”, conclui.