Aos 34 anos ninguém corre uma maratona como Eliud Kipchoge. Bastaram duas horas, dois minutos e trinta e sete segundos (02:02:37) para ganhar a Maratona de Londres — 18 segundos à frente de Mosinet Geremew. O resultado não está sequer perto de ser o melhor tempo de Kipchoge, que é o melhor resultado de todos os tempos: duas horas, um minuto e trinta e nove segundos (02:01:37) feitos em setembro de 2018 na Maratona de Berlim. Nessa prova bateu o recorde mundial por 78 segundos — a maior  diferença em cinquenta anos.

Kipchoge treina 300 dias por mês, como contou à BBC. Está longe da mulher e dos três filhos, num campo de treino em Kaptagat, uma pequena vila queniana cuja humildade dificilmente corresponde à fortuna milionária de Kipchoge, acumulada através de décadas de sucesso desportivo.

Desde que se mudou para a maratona, em 2013, conquistou dez das onze provas em que correu, e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016). Antes a carreira brilhara menos nas provas de 5 mil metros: Recebeu a prata e o bronze olímpicos, respetivamente em Beijing (2008) e em Atenas (2004), mas nem foi chamado para a equipa do Quénia nos Jogos Olímpicos de Londres (2012).

Eliud Kipchoge na prova em que estabeleceu o recorde de 5 mil metros para juniores, em Paris, a 31 de agosto de 2003 (Andy Lyons/Getty Images)

Ainda assim, em 2003, com 18 anos, conseguiu estabelecer o recorde mundial de 5 mil metros para juniores: doze minutos e cinquenta e dois segundos. O tempo perdura até hoje, e a prova, em que bateu Hicham El Guerrouj e Kenenisa Bekele para ganhar o ouro, deixou Kipchoge no mapa.

Os 25 segundos que ainda não deixam Kipchoge ser imortal

Tido como o melhor maratonista do mundo, e um dos melhores de sempre, Eliud Kipchoge corre sozinho contra um relógio. O verdadeiro objetivo é agora quebrar uma barreira psicológica da corrida de estrada. Kipchoge quer completar uma maratona em menos de duas horas: 02:00:00. E já quase conseguiu, mas não contava.

“Um dia, a seu tempo, alguém vai correr menos de duas horas”, reflete Kipchoge, continuando: “Talvez seja eu. Talvez não”. Em 2017 tentou, numa prova que sabia à partida não ser reconhecida oficialmente. Com sapatilhas personalizadas da Nike — o projeto, Breaking2, foi desenvolvido pela marca durante três anos — um carro à frente para cortar o vento, e a competição de Zersenay Tadese e Lelisa Desisa, Kipchoge usou a pista de Fórmula 1 de Monza para completar uma maratona em 2:00:25.

Eliud termina o NikeBreaking2 no autódromo de Monza, a 6 de maio de 2017. (Pier Marco Tacca/GettyImages)

Foi um falhanço, tecnicamente, mas para o atleta foi “o projeto desportivo mais bem sucedido do século XXI”, afinal foi o mais próximo que alguma vez se esteve de bater as duas horas. Daí que use agora todos os dias uma bracelete azul clara para o lembrar de como dever olhar a vida: “Nenhum humano tem limitações”, diz a inscrição branca no acessório.

Esta mentalidade, aliás, é a chave do sucesso de Kipchoge, como explicou também à BBC: “A mente é o que faz sobreviver um ser humano. Se tens uma crença, uma crença pura no teu coração, de que vais ser bem sucedido então podes falar com a tua mente e deixar que ela te controle até seres bem sucedido”.

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Para o melhor do mundo, correr é sempre psicológico

Também é o que o faz continuar a limpar as casas de banho e dividir as tarefas domésticas com os outros atletas no centro de treinos de Kaptagat. Os colegas chamam-lhe “chefe”. O seu psicólogo desportivo, Brett Kirby, descreveu-o à National Geographic como alguém “para lá da compreensão humana”.

O próprio Eliud Kipchoge considera-se só alguém que se diverte a correr. “Eu gosto da simplicidade do treino e da vida na maratona”, elabora à BBC, concluindo: “Corres, comes, dormes, andas. É a vida a funcionar sem nunca ficar complicada. Quando fica complicada, ficas distraído e já não podes correr“.

Kipchoge a treinar em Kaptagat a 17 de março de 2017 (SIMON MAINA/AFP/GettyImages)

“A minha mente está sempre livre. A minha mente é flexível”, sublinha, continuando: “Eu quero mostrar que é possível domar os nosso próprios pensamentos, que podemos quebrar mais coisas do que achamos possível quebrar”. E esta mentalidade é parte do que quer levar quando deixar o desporto.

O queniano não vê a reforma como um plano a curto prazo (“Ainda me vão ver por aqui. Ainda há muitas coisas lindas à espera. E eu ainda quero fazer umas coisas giras“), mas quando sair quer dedicar-se a “inspirar pessoas” e a construir “um mundo corredor, que é um mundo saudável, rico, pacífico e feliz”.