Enviado especial a Macau

Em Macau, a época dos tufões ainda está para começar. Mas a manhã desta quarta-feira foi assim uma espécie de pré-época. Sem vento, mas com muita confusão.

Ainda o pastel de nata português estava a ser mastigado e já Marcelo experimentava um pedaço de carne de vaca seca. E um doce chinês. E depois outro, e mais outro. E um “cookie” a seguir. Dentro da boca presidencial, um cruzamento de culturas à maneira de Macau, onde a parte chinesa claramente estava a ganhar terreno.

Mesmo sem saberem bem quem era, as empregadas da loja perceberam que havia ali celebridade – tal era a quantidade de jornalistas e seguranças à volta -, e iam trazendo mais variedades para o Presidente provar. “Muito bom, e aquele também era muito bom. É de sésamo?” Se o lado chinês foi aprovado, a recriação de pastel de nata made in Região Administrativa Especial, também. Com a mesma pose de Estado com que comenta uma bilateral com Xi JinPing, Marcelo deu o veredicto:

“São muito diferentes. Nos de Belém, o recheio é o mais importante. Aqui, a parte de massa à volta é muito mais espessa, e muito saborosa. E portanto retira o lado mais doce que têm os pastéis de nata em Portugal. Aqui, acho que se pode comer dois, três que não é tão perigoso para o colesterol”.

Num ambiente que fazia lembrar o de uma campanha eleitoral, Marcelo deu beijinhos e abraços aos portugueses que foi encontrando pelo caminho, uma meia dúzia deles. E um acenar constante às multidões de turistas asiáticos que se acumulavam nas laterais das estreitas ruas do centro histórico. Telefones, tablets e máquinas fotográficas em riste, acenos de resposta aos acenos do Presidente.

Os turistas à passagem de Marcelo Rebelo de Sousa pelo centro histórico de Macau.

Os vários seguranças contratados para o passeio ajudavam a manter a festa, porque apertavam a bolha à volta do presidente do português, impedido até o acesso de microfones e câmaras de filmar. E não escondiam alguns sinais de desorientação com as guinadas inesperadas e não previstas no guião. Marcelo parecia estar a gostar desta reta final da visita de Estado em que as formalidades ficaram quase todos na China “Mainland”. O programa em Macau é intenso, mas dura pouco. Marcelo não chega a estar 24 horas no território, onde chegou na noite anterior.

Também por causa disso, o Presidente quis esclarecer que ao final do dia, quando regressar a Lisboa não se vai despedir: “”Eu venho aqui para dizer a Macau até logo”. E esse “logo”, pode ser já no fim do ano quando se assinalarem oficialmente os 20 anos da transição de Macau de Portugal para a China? É muito provável.“Dezembro pode ser um bom pretexto, por causa dos 20 anos. É evidente que a própria República Popular da China entende como naturalíssimo que Portugal esteja representado ao mais alto nível na celebração dos 20 anos, foi assim que aconteceu há 20 anos, é assim que acontece agora”, disse Marcelo que lembrou que o Presidente Xi JinPing vai lá estar. “Provavelmente eu também virei, veremos”.

Para além de um pastel de nata, Marcelo bebeu chá e provou vários doces chineses

As conversas com os jornalistas surgiam ao mesmo tempo que o Presidente da República respondia a todas as solicitações que lhe faziam, fosse de um português para uma selfie, fosse de um lojista para oferecer uma amostra.
“Não empurra, não empurra, está aqui uma criancinha”. Marcelo beijou-a, claro. Como beijou duas antigas alunas, casais portugueses com quem se cruzou e também Maria de Fátima e a filha Raquel. Ambas tiraram selfies, ambas se abraçaram a chorar ao Presidente, ambas se zangaram várias vezes com os seguranças que tentavam impedir a aproximação frequente a Marcelo: “Não me empurre, o nosso presidente é muito querido”. Como as duas decidiram misturar-se na comitiva, eles empurravam e elas zangavam-se: “No need so close, ok?”. E o combate entre as duas frentes durou até o fim da visita: “Let me say bye bye to my President”.

O passeio terminou nas Ruínas de São Paulo, o ex-líbris do turismo histórico macaense, e começou na Santa Casa da Misericórdia de Macau, fundada há 450 anos. Sempre a acompanhar o passeio, o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, que estudou tão bem a lição que o primeiro sítio onde levou o Presidente português foi a uma farmácia. “Você é tão popular em Macau”, dizia Alexis Tam.

Mas Marcelo já estava com o radar nas prateleiras: “Sabe que eu gosto muito de farmácias”. O Presidente olhou, à procura do conforto de um bula médica minimamente ocidental, mas não havia. E assim, não conseguindo identificar nada familiar, deu meia volta e saiu. Havia de tentar outra vez, noutra farmácia mais à frente. Sem sucesso.

Assim que saiu da Santa Casa da Misericórdia de Macau, Marcelo entrou numa farmácia.

Apesar de ter dado aulas em Macau, o Presidente nunca mais tinha regressado. O território mudou muito desde essa altura e, sobretudo, desde que Portugal saiu em 1999. Os casinos estilo Las Vegas são apenas a parte visível dessa mudança que também vai sofrendo mutações, digamos, com menos neons, ao nível político. O estatuto “Um País, Dois Sistemas”, que também se aplica Hong Kong, tem prazo de validade em Macau até 2049. Depois, não é claro o que a China irá fazer. Sabendo disso, Marcelo espalhava simpatia, provava mais um doce e aproveitava para fazer passar a mensagem política que trazia para a última paragem na visita de Estado de três dias:

“É fundamental preservar dois patrimónios, a língua portuguesa e o património monumental. Isso é que faz a diferença. É preciso não deixar cair essa preservação. Quando desaparecem as diferenças, o que é maior esmaga o que é mais pequenino” alertou Marcelo que defende que o português deve continuar como língua oficial depois de 2049. Questionado sobre se Pequim estará interessada nisso, o Presidente disse esperar que sim.

E já que estava numa de expectativas otimistas, continuou: ” E espero estar vivo em 49 para ver…  deixa cá ver se é possível… 2049, ainda faltam 30 anos. Teria que ter 110 anos. Não sei, não é fácil, mas talvez.”

O fim do passeio no centro histórico de Macau, nas Ruínas de São Paulo