Juntar na mesma frase juventude e um futebolista à beira dos 38 anos não é propriamente a coisa mais comum mas, como define o ABC e outros órgãos espanhóis, essa acaba por tornar-se a melhor forma de definir o que representa a ligação entre Iker Casillas e o FC Porto depois de um quarto de século do guarda-redes no Real Madrid. A incerteza e o desconhecido acabaram por transformar-se em algo apaixonante e natural para as duas partes – como se o espanhol levasse já 25 anos no Dragão.

De atores a políticos, de desportistas a cantores, as reações ao enfarte agudo do miocárdio mostraram bem a dimensão do número 1 em termos mundiais. A forma como tudo o que se estava a passar conseguiu ser “filtrado” pelo FC Porto também ajudou nisso: quando a notícia veio cá para fora, a situação estava corrigida, estabilizada e não havia motivos de preocupação com o estado de saúde do campeão mundial e europeu por clubes e seleções. Ainda assim, ficou uma vez mais provada a imagem planetária que o guarda-redes goza, bem como a ligação aos azuis e brancos, uma segunda casa no novo ciclo de carreira. Em quatro anos, Casillas entrou na história dos dragões assim como os dragões entraram na sua história. E por quatro razões.

Pouco depois da cirurgia feita de urgência, Casillas já tinha recuperado a sua habitual tranquilidade e boa disposição. Recebeu logo na quarta-feira a visita de alguns companheiros como Bueno, Maxi Pereira ou Óliver Torrer, trocou mensagens com outros jogadores como Sergio Ramos, e contou com a presença da mulher, Sara Carbonero, que estava em Espanha à hora do treino por questões profissionais, tendo regressado de imediato ao Porto. No dia seguinte, mais manifestações de apoio, entre as quais uma chamada do Presidente da República, Marcelo Rebelo Sousa, acabado de chegar da visita oficial à China. À porta do Hospital da CUF, no Porto, um batalhão de jornalistas e alguns adeptos, com cachecóis e uma imagem do guarda-redes numa tarja. “Quero em nome do FC Porto mostrar-lhe a maior solidariedade, não por ser um atleta de eleição mas por ser um homem impoluto, com caráter excecional, um homem com H grande de que todos nos orgulhamos muito, por ser um dos nossos. Tu és Porto!”, comentou pouco depois do ocorrido Pinto da Costa, numa ideia que mostra bem a ligação estreita entre o espanhol e o clube.

A melhor solução possível para o início de um novo ciclo (para ambos)

O FC Porto sempre teve um cuidado especial com a transição no posto específico de guarda-redes e é por isso que, lesões à parte (e algumas com gravidade, a nível do joelho e do tendão de Aquiles), existem apenas três grandes figuras este século na baliza dos azuis e brancos que surgem na memória: Vítor Baía, Helton e Iker Casillas. A chegada do antigo capitão merengue à Invicta, em julho de 2015, acabou por ser o resultado de uma conjugação cósmica de fatores, da inesperada saída do Real à necessidade de encontrar uma alternativa (ou um titular) para o brasileiro, passando pela capacidade financeira do clube para segurar um dos melhores de sempre e pela orientação técnica de um espanhol na altura (Julen Lopetegui), mas respondeu também ao que as duas partes estavam à procura, com o sucesso desportivo que hoje todos conseguem reconhecer.

Com Casillas, o FC Porto despediu-se do seu antigo capitão Helton e ganhou uma das maiores referências do Campeonato, com exibições e momentos bem melhores do que tinha vivido na parte final da permanência no Santiago Bernabéu; com o FC Porto, Casillas ganhou um clube que tinha a ambição de voltar a ganhar depois de um longo período de hegemonia, uma cidade próxima de Madrid à qual se ambientou de forma rápida e um Campeonato que, não tendo a competitividade de Espanha, estava logo no primeiro degrau depois dos Big Five europeus – e podendo continuar a pisar os palcos da Liga dos Campeões. Em paralelo, como destacaram vários órgãos espanhóis como o El Confidencial, o número 1 nunca perdeu a esperança de poder voltar à seleção espanhola, tendo mesmo mostrado essa disponibilidade diretamente a Luís Enrique de novo este ano.

Casillas chegou ao FC Porto naquela que iria coincidir com a última época do antigo capitão Helton (MIGUEL RIOPA/AFP/Getty Images)

Um marco em termos de reputação internacional, extra Liga dos Campeões

A constante presença na fase de grupos da Liga dos Campeões e os dois anos e meio dourados com José Mourinho no comando, onde o FC Porto ganhou em temporadas seguidas a Taça UEFA (Liga Europa) e a Champions, ajudou e muito a que os dragões solidificassem a sua imagem em termos internacionais – acrescentando a isso mais seis Campeonatos em sete épocas, entre 2003 e 2009, depois do penta entre 1994 e 1999. Depois, houve a entrada noutros “mercados” por influência dos jogadores que faziam parte da equipa, casos de Colômbia ou México, onde a atualidade dos azuis e brancos passou a ser seguida de outra forma. Agora, com Iker Casillas, essa dimensão aumentou e muito, a nível de cobertura mediática e de reconhecimento. Como recordava o La Vanguardia, são mais de 45 milhões de seguidores no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Em 1999, a contratação do gigante Peter Schmeichel por parte do Sporting foi uma das manobras mais surpreendentes, tratando-se de um jogador que não só se sagrara campeão europeu de seleções pela Dinamarca como tinha conquistado a Champions umas semanas antes. E ainda houve os casos de Anderson Polga, central campeão mundial de seleções em 2002 que chegou a Alvalade em 2004, ou de Joan Capdevilla, lateral que assinou pelo Benfica em 2011 após ganhar o Europeu e o Mundial com a Espanha. No entanto, Iker Casillas foi o jogador com maior currículo a chegar ao Campeonato português, depois de três Ligas dos Campeões, duas Supertaças Europeias, três Mundiais de clubes e cinco Ligas espanholas entre 19 títulos pelo Real Madrid – além de ter sido campeão mundial (2010) e bicampeão europeu (2008 e 2012) como capitão da Roja. Para o FC Porto e para a própria Primeira Liga, o acompanhamento mudou, sendo a imprensa vizinha o exemplo paradigmático disso mesmo.

Casillas com Buffon após a derrota em Turim com a Juve: elogios dos adversários foram uma constante (GIUSEPPE CACACE/AFP/Getty Images)

Chegar e vestir a pele, como se fosse o clube de sempre

Sergio Ramos no Real Madrid, Gerard Piqué no Barcelona. Se pensarmos nos principais símbolos do clube enquanto instituição e à parte de qualquer análise desportiva, os centrais surgem como grandes baluartes da defesa dos valores dos dois grandes clubes espanhóis. Antes, era Casillas que representava esse papel no conjunto da capital espanhola – com funções alargadas, por ter também de exercer uma função diplomática nos bastidores da seleção espanhola, numa fase em que as (más) relações entre jogadores em campo se tornaram demasiado evidentes nos clássicos que iam disputando na Liga, na Taça e na Champions.

Desde cedo que o guarda-redes se habituou à realidade de um grande clube, a todos os níveis: a pressão dos encontros, desde os particulares em digressões fora da Europa a finais de Liga dos Campeões, Europeus ou Mundiais; os jogos internos típicos de qualquer clube, maiores consoante a dimensão da equipa em causa; a relação com a imprensa, durante a semana ou antes e depois das partidas disputadas; a perceção de que a sua formação está a ser beneficiada ou prejudicada por Federação, Liga ou arbitragens. Casillas tirou em Madrid um doutoramento de tudo o que envolve futebol ao longo de 25 anos, vestindo a pele do Real como poucos; ao longo de quatro épocas no FC Porto, e mesmo estando inserido num outro contexto, o guardião nunca se coibiu de, muitas vezes através das redes sociais oficiais, comentar casos de arbitragem ou polémicas envolvendo os dragões ou os rivais, assim como outras datas “simbólicas” como o aniversário do clube ou de Pinto da Costa, por exemplo. Essa foi sempre uma das grandes virtudes do espanhol: “viver” a realidade portista como se tivesse sido sempre a sua. “Sente-se que se está perante mais um tripeiro, orgulhoso de viver nesta cidade que o acolheu”, destacava esta sexta-feira o El País.

Casillas foi um dos destaques do FC Porto para quebrar o maior jejum de títulos da era Pinto da Costa (MIGUEL RIOPA/AFP/Getty Images)

A liderança natural de um capitão sem braçadeira

Iker Casillas chegou ao FC Porto a meio daquele que seria o período de maior seca sem títulos da era Pinto da Costa, que começou após o triunfo dos dragões comandados por Paulo Fonseca na Supertaça em agosto de 2013 e terminou apenas na conquista do Campeonato com Sérgio Conceição, em maio de 2018. A escolha falhada de treinadores foi um dos pontos apontados para abordar esse jejum, a venda de ativos sem a devida substituição outra. Depois, e de forma insistente, várias personalidades ligadas ao universo azul e branco foram falando da falta de referências e liderança na equipa. O espanhol, mesmo não sendo um dos mais antigos do plantel, foi tentando disfarçar uma das lacunas que entretanto se deixou de colocar.

Entre Herrera, Danilo Pereira, Felipe, Brahimi ou mais recentemente Pepe, Sérgio Conceição tem hoje um lote de jogadores capaz de envergar a braçadeira com tudo o que daí advém. Depois, há Casillas: anos a fio capitão do Real Madrid, o espanhol integrou-se com facilidade na cidade e no balneário dos portistas, destacando-se pelo exemplo de dava de forma diária mesmo estando na parte final da carreira e depois de já ter ganho tudo o que havia para ganhar em termos internacionais por clubes ou seleções. “O que se pode dizer mais? Nada. Foi campeão do Mundo por Espanha, da Europa, foi campeão de Espanha e foi, que é o mais importante, campeão pelo FC Porto. Mas este atleta sem igual, que podia ter a vaidade que muitas vezes alguns têm sem ter o seu palmarés, impressionou-me desde a primeira hora em que o conheci. É um homem extraordinário”, confidenciou Pinto da Costa, presidente dos azuis e brancos, na última fala de atribuição dos Dragões de Ouro.

Casillas é um dos jogadores mais respeitados no balneário dos azuis e brancos (Octavio Passos/Getty Images)