A mensagem estava sintonizada. Catarina Martins e Marisa Matias encerraram mais um dia de campanha do Bloco de Esquerda a falar do mesmo tema: feminismo. Em Coimbra, terra natal da cabeça-de-lista do partido às eleições europeias, a líder do BE foi a primeira a discursar e rapidamente se percebeu que a sua intervenção teria a luta contra o machismo como tema único. Lembrando “as mulheres invisíveis” que “lutam por ter dignidade”, Catarina Martins chegou mesmo a emocionar-se quando trouxe para o comício o exemplo das mulheres migrantes. “Queria também falar-vos das mulheres que colocam os seus filhos no mar porque a terra é tão perigosa que o mar parece mais seguro”.

A frase foi imediatamente seguida de um silêncio, que permitiu que a visível emoção da líder do BE não tomasse conta da sua voz. Depois prosseguiu recordando a importância de lutar “para acabar com a violência contra as mulheres”. “No dia 8 de março de 2019 fizemos uma greve feminista como este país nunca tinha visto. Levámos milhares de pessoas para a rua e dissemos nem mais uma. Queremos todas vivas!”.

A plateia aplaudia frequentemente. A líder tentou cavalgar a onda e puxou de um argumento que encaixa que nem uma luva na estratégia do Bloco de Esquerda. “Quem disser que o feminismo já não é preciso tem de olhar para esta campanha e para estas eleições. Dos 17 cabeças-de-lista só há uma mulher. Felizmente, é a Marisa Matias”, disse. Estavam encontradas as 16+1 razões pelas quais o partido pode capitalizar junto de um eleitorado sensível à causa feminista.

Por isso, o apelo direto ao voto que deixou para o fim chegou com alguma naturalidade. “No dia 26 de maio, todas as pessoas que quiserem dizer que já chega e que não aceitam a violência com as mulheres vão votar sabendo que um voto no Bloco de Esquerda e na Marisa Matias vai fazer a diferença”, concluiu.

A eurodeputada subiu depois ao palco para não deixar cair o entusiasmo. Fez o já habitual resumo do dia — “acho que tenho de o fazer porque precisamos de prestar contas”, justificou-se —, e entrou ao ataque. Aproveitou a visita a um centro de saúde para apontar a PS, PSD e CDS, seguiu para as condecorações de Joe Berardo para criticar os três partidos “que mantêm tudo na mesma” e terminou num apelo ao “não voto” nesse trio.

Só depois recordou um relatório que redigiu no Parlamento Europeu para defender o estatuto de cuidador informal em toda a União Europeia. E o que é que isto tem a ver como feminismo? “80% dos cuidadores informais são mulheres. Não ver esse trabalho reconhecido é uma forma de discriminação”, considerou. Também lembrou a greve feminista do 8 de março e os vários momentos em que as mulheres se uniram para dizer que “perderam o medo”. “Quando as mulheres perdem o medo a sociedade ganha toda”, resumiu.

O comício foi longo, mas a julgar pelas pessoas que ao longo das intervenções se foram aproximando da tenda bloquista pode ter sido o momento mais alto da campanha do partido.