Rádio Observador

Estados Unidos da América

Apoiantes de Trump tornam viral um vídeo falso de Nancy Pelosi. Facebook recusa apagar as imagens

147

Um discurso da líder da Câmara dos Representantes foi manipulado digitalmente. Objetivo era dar a ideia de que Pelosi estava alcoolizada. O Facebook diz que não vai apagar o vídeo dos conservadores.

Nancy Pelosi tem feito duras críticas a Donald Trump recentemente

Win McNamee/Getty Images)

Tornou-se viral depois de ter sido manipulado para dar a ideia de que Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, discursou num evento alcoolizada ou em mau estado de saúde. O vídeo foi publicado por um grupo de apoiantes de Donald Trump e surge na semana em que Pelosi acusou o presidente norte-americano de estar envolvido na tentativa de encobrimento do envolvimento da Rússia nas presidenciais de 2016, sendo um obstáculo à investigação. O vídeo é falso, mas o Facebook já informou que não vai eliminá-lo, noticia o The Guardian.

House Speaker Nancy Pelosi on President Trump walking out infrastructure meeting: "It was very, very, very strange."

House Speaker Nancy Pelosi on President Trump walking out infrastructure meeting: "It was very, very, very strange."

Posted by Politics WatchDog on Wednesday, May 22, 2019

As imagens mostram a democrata a falar num evento do Centro para o Progresso dos EUA, na quarta-feira. Mas o vídeo foi editado e a voz de Pelosi foi desacelerada, dando um efeito de fala arrastada. O mesmo vídeo foi publicado no YouTube e Twitter, com utilizadores a acusarem Pelosi de estar bêbada e usar drogas. “Uma desgraça”, escrevem alguns internautas.

Em apenas dois dias, uma versão do vídeo, que está alojada na página dos conservadores Politics WatchDog, soma 2,4 milhões de visualizações, 47 mil partilhas e quase 30 mil comentários.

O advogado pessoal de Trump, o ex-presidente da Câmara Municipal de Nova Iorque Rudy Giuliani, está entre as pessoas que divulgaram e promoveram o vídeo. Na sua conta de Twitter, Giuliani colocou um link para as imagens e escreveu: “O que se passa com a Nancy Pelosi? O padrão discursivo dela é bizarro”. O advogado apagou depois o tweet, mas um jornalista divulgou a publicação.

Investigadores e jornalistas do Washington Post analisaram o vídeo e afirmam que a voz de Pelosi foi editada para ficar 15% mais lenta. Os responsáveis pelo vídeo também terão editado o pitch (tom) da voz da democrata, dizem os investigadores.

“Não há dúvida de que o vídeo foi editado para a voz de Pelosi ficar mais lenta”, afirmou Hany Farid, professor de ciência computacional e perito forense na área digital da Universidade da Califórnia. “É impressionante a forma como uma manipulação simples pode ter um efeito tão eficiente e credível para alguns. Apesar de eu achar que se trata de uma ameaça real, este tipo de tecnologia falsa mostra que há uma ameaça muito maior na desinformação em campanhas: muitos de nós estamos dispostos a acreditar no pior das pessoas com quem discordamos”, completou o perito.

Trump também contribuiu para a divulgação de vídeos falsos sobre Pelosi

Já na noite de quinta-feira, Donald Trump divulgou um outro vídeo de Nancy Pelosi. As imagens também foram adulteradas e o vídeo compila alguns erros e atrapalhações da democrata numa conferência de imprensa. Nesse encontro com jornalistas, Pelosi terá descrito as recentes atitudes do presidente norte-americano como uma “birra de mau feitio”.

“A PELOSI GAGEJA DURANTE UMA CONFERÊNCIA”, escreveu Trump no seu Twitter. Na quinta-feira, o presidente dos EUA já tinha usado expressões como “Crazy Nancy” (Nancy Louca) e afirmou que a democrata “perdeu o juízo”.

O Facebook não vai eliminar o vídeo

O Facebook anunciou na quinta-feira que o vídeo estava na lista da empresa para ser revisto, mas que o processo de análise ainda não tinha começado. Se a rede social considerar o vídeo como desinformação, será diminuído o número de vezes que este surge no feed de notícias dos utilizadores. Contudo, segundo a lei norte-americana, o Facebook não pode, legalmente, apagá-lo.

Esforçamo-nos para encontrar um equilíbrio entre o encorajaramento da liberdade de expressão e a promoção de uma comunidade autêntica e segura. Acreditamos que reduzir a distribuição de conteúdo inautêntico prejudica esse balanço. Permitimos que as pessoas publiquem o vídeo como forma de expressão, mas não o vamos mostrar no topo do feed de notícias”, disse um porta-voz do Facebook.

A página Politics WatchDog criou uma sondagem para que os utilizadores votassem na manutenção ou eliminação do vídeo. A maioria votou na manutenção. Defenderam a decisão dizendo que os Estados Unidos são “um país livre”.

“Só para que fique registado, nunca dissemos que a Pelosi estava bêbada. Não podemos controlar o que as pessoas nos comentários pensam”, defendeu fonte da página onde o vídeo está alojado.

Já no YouTube, o vídeo em questão foi eliminado. Um porta-voz do site referiu que o conteúdo do vídeo violava a política da empresa.

Esta não é a primeira vez que são divulgadas imagens distorcidas de Nancy Pelosi. No inicio deste mês, foi publicado no canal de YouTube de um grupo conservador um vídeo que distorceu o discurso da democrata. O vídeo foi eliminado depois de atingir 28 milhões de visualizações.

Imagem que mostra o vídeo interdito pelo YouTube

Também este mês, o canal The American Mirror, que critica figuras femininas da política norte-americana, descreveu um discurso de Pelosi como “uma constrangedora pausa cerebral de cinco segundos”. Em 2018, o canal conservador The Next News Network também já tinha acusado Pelosi de estar “bêbada” ou “muito doente” durante uma conferência através de outro vídeo.

O facto de todos estes vídeos se terem tornado virais e partilhados por milhares de pessoas mostra o perigo da desinformação na internet. Perigo esse que pode afetar as eleições presidenciais norte-americanas de 2020. E, como mostra esta versão adulterada do discurso de Pelosi, não são precisos grandes conhecimentos ou tecnologia sofisticada para causar desinformação e influenciar a percepção pública de um adversário político, alerta o Washington Post.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Escolas

A escola é uma seca /premium

Eduardo Sá

Não podemos continuar a opor uma ideia “industrial” de escola a uma escola “ecológica”, como se não fosse possível conciliar as duas escolas, sem a educação indispensável abalroar o direito à infância

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)