A correspondente do jornal espanhol El Confidencial em Portugal escreveu um artigo onde reconhece que alguns feitos do governo de António Costa têm permitido a leitura de que o país é “uma fabulosa exceção” de uma “social-democracia que resiste”, mas acaba por sublinhar de forma clara que por baixo de tudo tudo isto há “falhas” e várias “ilusões de ótica”. Afinal, escreve a jornalista Lola Sánchez, Portugal não será tanto um país de “vinho e rosas”, como se dirá pela Europa fora.

“Desde que chegou ao poder no final de 2015, o Partido Socialista conseguiu o ‘milagre’ de acabar com a austeridade sem assustar Merkel, reduziu o desemprego e o défice para mínimos históricos. Enquanto isso, os partidos de extrema-direita, em vez de elegerem deputados, causa gargalhadas de desprezo entre os cidadãos. Aqui, subiu-se o salário mínimo e as pensões, oferecem-se os livros da escola a todos os menores, as start-up florescem e até parece que já é fácil subir e descer de bicicleta as encostas de Lisboa”, escreve a jornalista.

Mas, depois, vem o mas: “Na sua essência, tudo isto é verdade. Porém, se for visto com uma lupa, o ícone progressista apresenta falhas”.

As três “falhas” e “ilusões de ótica” de Costa…

A jornalista do El Confidencial apresenta três falhas no “ícone progressista” (na versão original, Lola Sánchez escreve progre, termo que nos últimos tempos adquiriu uma carga pejorativa na política espanhola) que alguns vêem em Portugal.

A primeira falha diz respeito a Mário Centeno — ou, como o ministro das Finanças é apresentado naquele texto, o Mr. Cativações. “Não houve novos cortes, mas antes uma contenção férrea da despesa pública”, diz, explicando depois que através deste instrumento o governo consegue “não executar uma quantidade [monetária] orçamentada”. Como consequência, a jornalista do El Confidencial aponta para as greves levadas a cabo por setores profissionais como os “enfermeiros, professores, trabalhadores judiciais, guardas prisionais e trabalhadores da rede ferroviária”.

A segunda falha elencada naquele texto é a pobreza. Para sustentar esse argumento, são referidos os dados recolhidos pelo Observatório sobre Crises e Alternativas, da Universidade de Coimbra, onde foi apurado que o salário médio dos contratos sem termo (que diriam respeito a um terço dos contratos laborais) era de 830 euros. No caso dos contratos temporários a média salarial desceria para os 700 euros. (Nota: de acordo como Instituto Nacional de Estatística, a média de salários subiu para 902 euros em 2019.) Também o elevado preço da habitação é referido pela correspondente do El Confidencial: “Em Lisboa, já não há apartamentos de 60 metros quadrados por menos de 750 euros”.

A terceira e última falha apontada pela autora tem a ver com as “políticas socialistas contidas” de António Costa”, referindo haver também aqui uma “ilusão de ótica”, já que a só no quarto e último ano da legislatura é que surgiu essa “bateria de medidas sociais”. Ou seja, medidas como a subida do salário mínimo e das pensões, alívio da carga fiscal para as famílias, livros escolares gratuitos ou descida no preço da eletricidade são “um rebuçado de última hora para diluir a imagem de um governo socialista criticado pelos trabalhadores, sobretudo os empregados da saúde e educação”.

… e as duas exceções (positivas) de Portugal

O retrato, porém, não é apenas negativo ou sequer agridoce. Há mesmo dois fatores que leva a jornalista do El Confidencial a dizer que os portugueses são um exemplo.

O primeiro tem a ver com a despenalização do consumo de drogas, aplicada em 2001 para fazer frente às mortes por overdose e à toxicodependência. “A dependência passou a ser uma questão para a saúde pública e para os agentes, que deixaram de ter de perseguir os consumidores e puderam concentrar-se nos traficantes”, escreve. “Com excelentes resultados neste campo, no início deste ano foi dado mais passo, ao legalizar a canábis medicinal.”

Outro exemplo português que a autora aponta é que, para já, Portugal parece ser um terreno pouco fértil para as forças políticas da direita radical e da extrema-direita. “As causas são várias, incluindo o facto de o ser um país que não tem problemas com a imigração nem um debate territorial que espolete nacionalismos”, diz. Além de que acrescenta que “os portugueses continuam a confiar na esquerda para lidar com os problemas sociais de que o país padece”, referindo para esse efeito a “gestão pragmática do Partido Comunista Português a nível local”.

“Ali, os comunistas lusitanos não têm dúvidas ao aplicar uma elasticidade ideológica apelativa, de forma a galvanizar o apoio dos vizinhos. Simplesmente não deixam espaços em branco para outros discursos”, diz.