Título: Quinta Alegre
Autores: Alexandra Gago da Câmara, Luís Aguiar Campos, Victor Mendes e outros
Editor: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Design: Silva Designers
Páginas: 160, ilustradas
Preço: 25 €

Sob direcção científica do saudoso olisipógrafo José Sarmento de Matos (1946-2018), a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa decidiu transpor para livros os trabalhos de estudo histórico e memória da reabilitação arquitectónica e artística desenvolvidos em edifícios nobres que foi acrescentando ao seu vasto património imobiliário, partilhando-os assim, da melhor maneira possível, com muitos mais do que aqueles que directamente irão usufruir-se deles, ao mesmo tempo que dá um contributo perene para a história da arte portuguesa. A qualidade das equipas formadas, a complementaridade das abordagens, o brilho das intervenções patrimoniais qualificadoras, o registo fotográfico do a par e passo e — agora — o profissionalismo evidente da campanha editorial-gráfica permitem perceber a exemplar sagacidade destas campanhas. Não bastam os meios (que raramente há): a escolha dos modos também determina o que se faz, ou quer fazer, e porquê.

Depois de em Novembro de 2016 ter produzido um livro dedicado à requalificação do Palácio Portugal da Gama, adquirido apenas dois anos antes (112 pp. ilustradas, 18 €), ali mesmo a São Roque — a actual “Casa Ásia”, que mostra parte da colecção de Francisco Capelo —, este segundo volume da Colecção Património é consagrado à Quinta Alegre, em Camarate, que a Misericórdia comprou no afinal distante ano 1983. Foi o provedor Pedro Santana Lopes quem finalmente retomou e fez recuperar essa antiga quinta de recreio nos arredores de Lisboa — classificada como imóvel de interesse público em 1962, mas muito delapidada, sobretudo depois de 2005 (diz Mestre, p. 85), como mostram as fotografias das pp. 50, 52, 54, 56 e 105 —, para nela instalar um complexo de habitações dito “intergeracional”, em parte destinado a residência assistida de funcionários da própria Misericórdia de Lisboa que tendo atingido o limite de idade careçam desse apoio. (Um gaiato atrevidote achou isso tão bem, que até veio declarar a pena que tem de não vir a ser um deles…)

Se bem se lembram, Santana Lopes deu uma entrevista de balanço dos seus dois mandatos de provedor (2011-17) percorrendo de capacete na cabeça e mangas arregaçadas o canteiro das obras ainda em curso, no cenário de salões decorados a fresco e do jardim de estilo dito romântico, fazendo claramente da reabilitação desta quinta um seu projecto-bandeira. Já o provedor Edmundo Martinho assina a Apresentação deste livro, omitindo ou contornando os créditos desta boa herança do seu antecessor, politicamente diferenciado (mas que importa isso?…), porém reconhecida com a atribuição à Santa Casa do prestigiante Prémio Nacional da Reabilitação Urbana 2018, pelo restauro da Quinta Alegre. Provérbio popular bem diz que os actos ficam com quem os pratica, mas talvez não seja suficiente…

O livro divide-se em três partes naturais: 1) História do edifício; 2) Intervenção de conservação e restauro; e 3) Projecto de reabilitação — assinadas pelos respectivos responsáveis e autores, a saber: 1) Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara e Teresa de Campos Coelho; 2) Luís Aguiar Campos, Vítor Emanuel Lucas Rios Roriz e Rui Mascarenhas Lima da Silva Trindade; e 3) Victor Mestre e Sofia Aleixo.

Ainda que a Quinta Alegre seja dada como construída pelo 1.º marquês de Alegrete, Manuel Telles da Silva (-1709) e reconstruída por José Bento de Araújo (-1844), um abastado comerciante da praça de Lisboa com interesses no Pernambuco brasileiro, a partir de 1819, a sua identificação cartorial e cartográfica é periclitante até 1906, quando surge claramente delimitada na Planta Topográfica de Lisboa da autoria de Júlio Silva Pinto, contígua à assim chamada Estrada de Circunvalação. Incerta é também a forma — reconhecem as historiadoras — como depois de ter pertencido por heranças sucessivas ao visconde de Pereira e à viscondessa de Coruche, voltou à posse dos Alegrete, pois em 1919 o 6.º detentor deste título faleceu “muito possivelmente na quinta” (p. 17). E nesta família continuaria até à sua venda à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, por coincidência uma instituição em que os marqueses de Alegrete haviam desempenhado “os mais altos cargos” no século XVIII.

Gago da Câmara e Campos Coelho cotejaram as características arquitectónicas do palácio na Mouraria, da Quinta das Lapas em Torres Vedras e da Quinta Alegre de São Bartolomeu da Charneca, propriedades dos Alegrete, para nelas reconhecerem um risco comum da mão seja de Pedro e João Nunes Tinoco seja de Manuel e Mateus Couto, colaboradores habituais de Telles da Silva em obras públicas e militares. Já sobre o arquitecto que serviu Bento de Araújo e as datas da “última grande campanha de obras [nas cazas nobres] na Quinta Alegre” antes de 1983 (p. 36), não encontraram documentos relevantes. Fica assim por conta da diacronia estilística dos elementos decorativos o cálculo das intervenções no edifício residencial, como sucede com as pinturas murais neoclássicas no piso nobre, como sucede com sala de jantar — «um espaço de grande qualidade cenográfica» —, datável de 1844-64 (pp. 42, 43). E por aproximação comparativa com outras quintas da região, é admitida a intervenção do pintor-decorador Joaquim Marques (1755-1822). A rivalidade pela sumptuosidade nestas quintas de veraneio — e lembremos Monserrate e a de Gerard Devisme — espicaçou a elite urbana e deixou até à actualidade nos arrabaldes da capital alguns edifícios notáveis (à nossa escala, claro está). Em Junho de 1908, Joshua Benoliel fotografou para a Illustração Portugueza uma garden party na Quinta Alegre (p. 85).

A parte do livro sobre conservação e restauro — em jeito de relatório técnico com reportagem fotográfica incluída — é eloquente da decadência a que pode chegar o património cultural no nosso país, mas também da capacidade de miraculosa restituição exercida pacientemente por um contingente de técnicos de pincel, espátula, esponja, escova, bisturi e ponteiro, com toda uma bateria de químicos ao lado, face ao «quadro patológico» (p. 60) encontrado.

“Projecto de reabilitação” tem três capítulos — 1) Memória, continuidade e inovação; 2) Intervenção em património histórico e 3) Obra final —, em que Mestre e Aleixo analisam a velha organização funcional da “casa sobradada”, e os diferentes sinais de alterações expostos durante os trabalhos de reabilitação. Desde logo, a transferência da entrada principal da quinta, que de início muito próxima da casa principal se fixou, no tempo de Bento Araújo (1819-44), num portão de ferro com brasão em bronze no topo poente-sul, abrindo para um páteo de aparato. Mas o estudo do edifício surpreendeu os arquitectos pela “qualidade dos materiais e da sua aplicação”, toda «uma unidade construtiva coesa de elevada resistência», livre de assentamentos de fundações ou fissuras em paredes e cornijas. De facto, a requalificação em larga escala assemelha-se a um teatro anatómico em que se expõe a olho nu os meandros do corpo físico-estrutural dum velho edifício, permitindo identificar em estruturas geralmente ocultadas os modos e métodos construtivos ali aplicados: os «detalhes de cuidada concepção e edificação denotam uma atenção e valorização do acto de bem construir» (pp. 88-89).

Orientados pelo “conceito ético da intervenção mínima” (p. 104), sem abuso das artes decorativas que revestem paredes e tectos, os arquitectos optaram por iluminação “de pé” no piso nobre, rede eléctrica em aparelhagens ocultas em rodapés e alizares, unidades de climatização instaladas dentro de mobiliário desenhado sob medida, e nas janelas “um novo vidro com características térmicas” (p. 108), mantendo assim a caixilharia antiga.

Inicialmente uma extensa casa agrícola, com “adega, lagar, vinha, pomar de espinho e caroço, oliveiras e terra de semeadura”, de acordo com documento de 1822 citado na p. 14, a Quinta viu reduzida drasticamente a sua área externa no século passado (o confronto dos mapas das pp. 90-91 é chocante), pelo que o relativamente pequeno jardim e três pavilhões agrícolas anexos (v. p. 80) é tudo o que ficou depois das expropriações para o aeroporto em 1946 e das urbanizações e construções precárias a galope no pós-1974. As elogiadas vistas sobre o Tejo e o Mar da Palha tinham ganho contrariedades à altura. Certamente pressentindo que a natural expansão da Portela, com demolição de construções adjacentes, poderia pôr em risco a Quinta Alegre — ou procurando valorizá-la com vista a uma futura venda, como viria a suceder —, Maria Amélia Abreu Saraiva Telles da Silva, esposa do 7.º marquês de Alegrete, inicia em 1957 o processo da sua classificação patrimonial, que demora cinco anos a concretizar. A Quinta ficaria na posse dos Alegrete apenas por mais duas décadas.

Com as salas decoradas a fresco impecavelmente restauradas, e as unidades habitacionais adjacentes ao edifício principal acolhendo também jovens residentes, a Santa Casa da Misericórdia procurou aliar a preservação patrimonial de edifícios ditos nobres com um novo conceito intergeracional de residências assistidas, favorável a “uma interacção constante e um desenvolvimento intelectual e social dos seus utentes, evitando o isolamento e a exclusão recorrentes na terceira idade” (p. 119). Em suma, um trabalho bem feito: e as agora repostas figuras de convite, que no páteo dão as boas-vindas a quem chega, de tão bela tradição azulejar portuguesa, parecem concordar em absoluto…

Este livro será apresentado na Feira do Livro de Lisboa no dia 9 de Junho, domingo, às 16h, no stand C00, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, numa sessão que reúne alguns autores dos dois livros acima referidos, e de um terceiro, dedicado ao Palácio dos Condes de Tomar, antiga e saudosa sede da Hemeroteca Municipal de Lisboa.