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A história de Nav Bhatia, o “Super Fã” dos Raptors que viu mais de 1.000 jogos seguidos e é um símbolo de Toronto

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Estudou nos EUA, voltou à Índia, foi para o Canadá, montou um negócio e vê os Raptors há 24 anos seguidos sem falhar em casa. Nav Bhatia realizou um sonho mas representa mais do que isso para Toronto.

Nav Bathia nunca falhou um jogo dos Raptors em Toronto desde 1995. "Nem cheguei atrasado, nem saí mais cedo em nenhum", acrescenta

Getty Images

“Sinto-me no topo do mundo, sinto-me abençoado. Tenho de agradecer à equipa por nos colocar numa posição em que viemos à Oracle Arena ganhar com dois mil adeptos canadianos só para apoiar. Eles são a grande razão para termos ganho. Não foi apenas os Toronto Raptors contra os Golden State Warriors, foram os Canadá Raptors contra Golden State e essa é uma fabulosa sensação. Agradeço não só a estes jogadores mas a todos aqueles que passaram nos últimos 24 anos como o Vince Carter, Damon Stoudamire, McGrady, Oakley, DeRozan…”, começou por referir num pavilhão já vazio. E quando foi descrito como o “Super fã” dos Raptors, quis voltar a falar: “E nunca cheguei tarde nem saí mais cedo, mesmo quando estávamos a perder por 20 ou por 30 pontos… Tudo isto começou como entretenimento mas entretanto, através da minha Fundação, permitiu construir campos de basquetebol e ajudar miúdos carenciados. É isso que este jogo faz: junta o mundo através de um jogo de basquetebol”.

O rapper Drake é conhecido também por ser um incondicional adepto do conjunto canadiano que se sagrou pela primeira vez campeão esta madrugada, após vencer os ex-campeões Golden State Warriors no jogo 6 da final, em Oakland. No entanto, há um outro fã que o próprio Barack Obama, antigo presidente dos Estados Unidos, reconhece como o “rosto” de todos os que apoiam a equipa. E que já esteve na passerelle de grandes eventos exatamente por essa ligação. Nav Bhatia teve o dia mais feliz de uma vida dedicada aos Raptors mas que permitiu também ir mudando mentalidades em Toronto através do jogo. Tanto que, de forma algo surpreendente, o primeiro a dar-lhe os parabéns pelo título acabou por ser o técnico da equipa contrária (sendo que, mais tarde, aproveitaria também um encontro nas bancadas para dar um abraço a Stephen Curry).

“Deixe-me só dizer uma coisa: tenho de dar os parabéns também aos Golden State e dizer que a primeira pessoa que me deu os parabéns pelo título e me abraçou foi o treinador Steve Kerr. Veio ter comigo e disse ‘Super fã, parabéns, tu mereceste, neste caso não me importo de perder porque conseguiste que o teu sonho se concretizasse. Foi um verdadeiro gentleman. E também os fãs, milhares de fãs aqui em Golden State, foram fantásticos comigo e fizeram-me sentir em casa”, contou. Desde 1995, quando a equipa foi criada, o indiano de 66 anos com dupla nacionalidade canadiana nunca falhou um minuto de um jogo em casa e não perdeu agora a oportunidade de viajar até à Califórnia para ver os Raptors conseguirem o impossível e tornarem-se campeões. Mas, mais do que essa devoção como poucos ou nenhuns, é o papel que representa na sociedade que o notabiliza. Tanto que, nos arredores do pavilhão nos últimos dias, circularam várias caras suas gigantes numa homenagem dos próprios adeptos da equipa.

Nascido em Deli, Bhatia ainda começou a formação em medicina (para poder depois seguir oftalmologia, o ramo profissional do pai) mas não demorou a perceber que o seu caminho não seria por aí e viajou para os Estados Unidos no início dos anos 70 para poder tirar uma licenciatura em engenharia mecânica, vivendo curiosamente na Califórnia (onde celebrou agora o título) com o irmão. Para ajudar também nas contas, conseguiu arranjar e explorar um pequeno cinema e alguns restaurantes. Depois, voltou à Índia para seguir o negócio familiar mas foi obrigado a sair de novo do país de origem em 1984, no seguimento das perseguições a sikhs após a morte de Indira Gandhi. Aí, escolheu o Canadá. E passou por dificuldades.

Depois de uma longa lista de possibilidades de trabalho que lhe foram sendo negadas, Nav Bhatia foi contratado por um stand da Hyundai como vendedor de automóveis. Também aí, pela etnia e por usar um turbante na cabeça, sentiu que o olhavam de uma forma diferente. Queria provar que nenhuma daquelas reações faziam sentido, empenhou-se no trabalho e conseguiu vender um total de 127 viaturas nos primeiros três meses. Foi promovido a gerente numa outra loja e conseguiu virar um negócio à beira da bancarrota num projeto rentável. Tornou-se um dos maiores vendedores em Toronto e não só ficou com essa nova loja como ainda comprou a primeira que teve no ramo e que lhe abrira as portas. Não era por ali que via o seu futuro, foi por ali que fez fortuna. Mas houve um episódio na cidade em 1998 que lhe mudou o resto da vida.

Ao entrar numa loja, um homem que falava ao telefone com a mulher desligou porque tinha de ir apanhar um táxi, assumindo que quem estava à sua frente era o motorista. Em várias entrevistas que foi dando ao longo dos anos, Nav Bhatia nunca deixou de mostrar orgulho ao falar dos sikhs que tentam orientar a sua vida e conduzem táxis mas considerou naquele momento que não se podia resumir tudo a isso. Foi para casa nesse dia a pensar na melhor forma que teria para ajudar a que esse preconceito fosse ultrapassado e, uns tempos depois, marcou uma reunião com os responsáveis dos Toronto Raptors, onde tinha sido considerado pelo antigo campeão (nos Detroit Pistons) e diretor geral Isiah Thomas o “Super Fã”, com direito a camisola e homenagem no centro do campo no intervalo de um jogo. A partir desse momento, passou a haver um Baisakhi Day todas as épocas, o primeiro com 3.000 crianças convidadas e com receitas a reverterem para os mais jovens e para a comunidade.

24 anos depois, e com uma Fundação em seu nome sem fins lucrativos para apoiar crianças carenciadas e projetos de integração na sociedade tendo sempre o basquetebol como centro das ações, Nav Bhatia continua sem falhar um jogo em casa. Ao todo, entre fase regular e playoffs, foram mais de 1.000 encontros consecutivos – e a contar. Pelas contas do StubHub e do Auto News, o “Super Fã” que entretanto se tornou empresário de sucesso no ramo dos automóveis gastará à volta de 300.000 dólares por ano em bilhetes (sempre na primeira fila) – um pouco mais de 265 mil euros – além de todos os ingressos que compra para distribuir na área reservada aos mais novos no pavilhão. Entradas à parte, o indiano que se tornou amigo das maiores estrelas da NBA, dos CEO das maiores empresas e de vários músicos internacionais (também costuma organizar concertos de compatriotas em Toronto), e que brilhou na passadeira vermelha de Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2017 por ter entrado no documentário sobre Vince Carter antes de ser escolhido por Obama para uma fotografia num evento na cidade, ficou como símbolo daquilo que muitos descrevem como uma nova cultura na cidade inspirada nas ações de Bhatia.

“Disse ao presidente Obama que é como se eu conseguisse juntar todo o mundo através do jogo de basquetebol. Ele estava contente por isso, claro. Não sou um jogador, sou apenas uma pessoa comum e aqui estou eu com o 44.º presidente dos Estados Unidos, de quem sou grande fã. Sou um abençoado. Quando cheguei ao meu carro, tive de ficar uns minutos sentado para absorver tudo”, comentou na altura. 24 anos depois, Nav Bathia realizou o sonho de uma vida ao ver os seus Toronto Raptors sagrarem-se campeões da NBA. Durante 24 anos, também ele deu asas aos sonhos de milhares de crianças que se tornaram fãs dos Toronto Raptors. Mais do que um slogan ou um chavão, o “We The North” que caracteriza o conjunto canadiano é também uma identidade com influência dos ensinamentos que um “Super Fã” deixou par toda uma comunidade.

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