“O Ali vive num estado de pânico. Cada vez que abrem a porta da sua cela, pensa que chegou o seu momento”. As palavras são de Taha al Hajj, advogado de Ali al Nimr, um dos jovens que foi detido quando era menor na Arábia Saudita e enfrenta a qualquer momento a pena capital e exposição pública do seu corpo decapitado. Juntamente com Abdalá al Zaher e Dawud al Marhun, os três jovens passaram a adolescência atrás das grades e aguardam uma execução por se terem juntado a protestos contra o regime saudita quando ainda eram menores.

Nos três casos, conta o El Mundo, os jovens foram detidos em circunstâncias de violência policial: Ali estava a andar de bicicleta quando foi atropelado por um carro da polícia, Abdalá foi baleado e espancado pelas forças de segurança e Dawud foi detido enquanto esperava no hospital por uma operação que nunca chegou a acontecer. Os jovens aguardam agora a “crucificação”, um termo utilizado na Arábia Saudita para se referir aos prisioneiros que são decapitados e cujos corpos são posteriormente exibidos em público.

“Nenhum deles foi acusado de crimes de sangue. A única acusação que há é a de terem tentado a agitação, quebrado a paz social e reclamado a queda do regime”, acrescenta o advogado de Ali, citado pelo jornal espanhol. Ele próprio teve de abandonar a Arábia Saudita para fugir à repressão do regime e pediu asilo na Alemanha. Ainda esta semana, as organizações internacionais conseguiram impedir a ameaça de pena capital sobre um quarto jovem, Murtaja Qureiris.

Ali é agora um homem crente que tem dado o seu destino a Deus. Ele não fez nada de errado, mas sabe que o seu futuro está nas mãos da vontade divina”, relata Mohamed al Nimr, pai de Ali Al Mimr.

Ali foi preso aos 17 anos, acusado de “organizar protestos com o seu Blackberry, de tirar fotografias das manifestações, de ensinar primeiros socorros aos participantes e de cantar contra o Estado” durante os protestos em massa que em 2011, período da Primavera Árabe, foram liderados pela minoria xiita. O jovem vem de uma família ligada ao ativismo: o seu pai é empresário e jornalista e o seu tio Nimr Nimr é um clérigo xiita que se tornou uma figura dos protestos e exigiu reformas políticas e o fim da discriminação e corrupção no reino.

Já Abdalá foi preso quando tinha 15 anos por estar ligado a uma onda de protestos e permaneceu incomunicável nos primeiros três meses em que esteve preso. Terá sido forçado a assinar uma confissão que não conseguir ler e terá também sido torturado. Dawud al Marhun, o terceiro jovem, foi preso em 2012, quando tinha 17 anos, pelas mesmas acusações. Um dos seus interrogatórios, conta o El Mundo, durou 18 horas consecutivas e também Dawud terá sido forçado a colocar a sua assinatura numa folha de papel branca que mais tarde foi usada pelos funcionários para incluir a sua suposta confissão. Abdalá e Dawud aguardam o seu destino na prisão de máxima segurança do Al Hair, o maior complexo prisional da Arábia Saudita.

Murtaja Qureiris foi detido em 2014, aos 13 anos. Quando tinha 10 anos, levantou um megafone e gritou: “As pessoas exigem direitos humanos!”, tendo aquela ação sido considerada um protesto político (proibido na Arábia Saudita). O jovem foi acusado de vários crimes: participação em protestos anti-governamentais, ida ao funeral de um ativista anti-governamental (o seu irmão), posse de arma de fogo, lançamento de cocktails molotov e pertença a uma organização terrorista. Tornou-se o mais jovem preso político do país. Entretanto, foi divulgado que Murtaja não será executado e pode ser libertado até 2022.

“As notícias de que Murtaja Qureiris não vai enfrentar a execução são um grande alívio para ele e para a sua família, mas é um ultraje que as autoridades da Arábia Saudita tivessem procurado a pena de morte para alguém que foi preso inicialmente com 13 anos. O uso da pena de morte contra pessoas que tinham menos de 18 anos na altura do crime é uma violação flagrante da lei internacional”, referiu a Amnistia Internacional em comunicado.

A Amnistia recorda ainda que as autoridades sauditas pouparam a vida deste jovem, “mas a lei na Arábia Saudita continua a permitir que as pessoas sejam presas por crimes que cometeram quando eram crianças e sentenciadas à pena de morte”. Para isso, acrescentam, “as autoridades devem abolir o uso da pena de morte cometido por jovens”, começando “imediatamente” por “anular as sentenças de morte de Ali al-Nimr, Abdullah al-Zaher e Dawood al-Marhoon”.

Em abril deste ano, a Arábia Saudita decapitou 37 homens por crimes de terrorismo. Segundo o responsável da ONU pelos direitos humanos, a maioria é xiita, e pessoas que podem não ter tido julgamentos justos. Deste número, pelo menos três dos mortos eram menores quando conheceram a sua sentença.