Os dias que antecederam a receção do Benfica ao Santa Clara, na última jornada do Campeonato, foram diferentes no Seixal mas com os responsáveis dos encarnados a fazerem tudo para que não fugissem da normalidade. Depois da vitória em Vila do Conde frente ao Rio Ave, poucos acreditavam que houvesse ainda um volte face na questão do título mas houve um especial cuidado em tentar manter o foco dos jogadores na conquista do empate que faltava – ao ponto de Bruno Lage, ao contrário do que gostaria de ter feito, deixar de fora Zlobin e Yuri, que procuravam os primeiros minutos na prova, para passar também a mensagem. Todavia, não era apenas essa a preocupação que existia e houve uma entrevista na véspera do jogo que não passou ao lado.

Ao Mais Futebol, Nico Gaitán, canhoto formado no Boca Juniors que chegou ao Benfica em 2010 para substituir Ángel Di María, que tinha sido vendido ao Real Madrid, recordou os seis anos que passou na Luz e falou também na saída para o Atl. Madrid (a seguir foi para a China, jogando agora no Chicago Fire dos Estados Unidos). “Muito difícil. Joguei num grande clube, num grande Campeonato, mas a verdade é que nunca antes tinha passado por isso [ser suplente]. Cresci como futebolista. Quando assinei pelo Atl. Madrid, imaginei que as coisas se passassem de maneira diferente. Pensei que estava a dar um passo em frente e, ao não jogar, fui percebendo que era um passo atrás. Já passou, saí para a China, agora estou nos Estados Unidos e amanhã veremos”, contou. Uma frase que não passou ao lado dos dirigentes do Benfica para servir de exemplo para os mais novos.

Sobretudo com o avançar da segunda metade da temporada, a SAD dos encarnados começou a perceber a possibilidade real de algum clube poder chegar à cláusula de rescisão de João Félix. Terão existido abordagens, abaixo dos 120 milhões de euros com a possibilidade de permanência mais uma época na Luz, mas o Atl. Madrid passou a ser a hipótese mais forte depois Griezmann ter anunciado a saída do clube – o que renderia de forma direta 120 milhões, a que se juntariam ainda mais 70 milhões da cláusula do médio Rodri, que deverá rumar ao Manchester City (surgindo Marcos Llorente, do Real, como principal alternativa). Também por isso, o Benfica terá ainda ponderado a possibilidade de renovar com o jovem avançado colocando-o no topo da lista da tabela salarial (3,5 milhões por época líquidos), algo que acabou por não se concretizar perante a cadência dos acontecimentos.

Em abril, na primeira mão dos quartos da Liga Europa com o Eintracht Frankfurt, Txiki Begiristain, antiga glória do Barcelona que é o diretor desportivo do Manchester City, deslocou-se à Luz e esteve com os pais de João Félix. Nesse mesmo jogo, o número 79 apontou o primeiro (e único) hat-trick pelos seniores dos encarnados (tornando-se o mais novo a obter o feito no Benfica e na prova) e caiu em definitivo nas graças do bicampeão inglês. Aliás, os citizens terão estado até à última na luta pela contratação do jogador, não chegando ao valor da cláusula mas atingindo os 100 milhões de euros e um ano de cedência. Da parte dos encarnados, de atuais e antigos responsáveis, a mensagem interna e para fora foi sempre a mesma: ficar mais uma época.

“Estamos a tentar por tudo que fique. A única maneira do João [Félix] ficar é tentar vender e ficar mais um ano, se não o João sai, não há espaço para negociar mais, não quer. Como é que o Benfica vai negociar com alguém que tem uma proposta de seis milhões limpos? Quando estamos sentados à frente deles e eles nos dizem que têm cinco milhões para ganhar, para não os deixar ficar aqui… João Félix tinha cláusula de 60 milhões, alguém se lembrou de passá-la para 120 milhões quando fez dois ou três jogos na equipa principal. Quem vai decidir se fica é o João Félix e a família dele. Se alguém depositar os 120 milhões não vale a pena sonhar”, tinha comentado Luís Filipe Vieira na primeira semana de junho, ciente da cobiça que estava a existir. Aliás, como referiu o As, a 1 de junho, quando foi como convidado a Madrid assistir à final da Liga dos Campeões, o presidente do Benfica ficou a saber num encontro no hotel Villa Magna com Miguel Ángel Gil Marín, diretor executivo do Atl. Madrid, que os colchoneros sabiam que Griezmann estava a caminho do Barcelona e que João Félix era o sucessor escolhido para o francês.

A luz verde acabou por chegar depois do final da Liga das Nações. João Félix esteve alguns dias de férias com amigos em Ibiza (entre os quais outros jogadores do Benfica B) e chegou uma semana depois a Madrid, onde foi apanhado no dia seguinte à noite pelo programa “El Chiringuito” a sair de um restaurante da capital espanhola pouco antes de Jorge Mendes, empresário que está a intermediar o negócio – e que ainda negou ter estado a fechar a transferência, dizendo que tinha apenas estado a jantar “com amigos”. Os valores oficiais ainda não conhecidos mas o português deverá ficar com um ordenado de seis milhões de euros líquidos por cada uma das cinco temporadas, ainda assim bem inferior ao que ganhava Griezmann (20 milhões por época líquidos) mas com mais alguns bónus por objetivos que podem fazer ascender o montante aos sete milhões limpos.

Numa primeira fase, o Atl. Madrid terá tentado chegar a acordo com um montante de 60 milhões de euros mais jogadores, entre os quais Ángel Correa (que está bem referenciado na Luz) e Kalinic, avançado vice-campeão mundial de seleções pela Croácia. Essas tentativas esbarraram sempre na intransigência de Luís Filipe Vieira, que colocou a fasquia na cláusula de rescisão até por considerar que se o jogador fizesse mais uma época no clube ainda iria valorizar-se mais do que nesta altura. Perante o interesse de outros conjuntos, os colchoneros arriscaram mesmo um valor acima dos 120 milhões de euros, dando além do ordenado bem mais alto do que nos encarnados a garantia de que terá um papel principal nesta nova aventura na Liga espanhola. Neste particular, se o peso do agente Jorge Mendes foi decisivo, também o papel do treinador Diego Simeone ajudou ao “sim”. Pelo meio, terá também havido uma alegada oferta do Real Madrid, também superior à cláusula de rescisão.

A esse propósito, o Atl. Madrid destacou-se nos últimos anos por ter conseguido tirar o máximo rendimento desportivo e também financeiro de uma série de avançados que entraram nas principais vendas do clube e para as maiores ligas europeias, casos de Kun Agüero, Falcao, Diego Costa (que entretanto foi recomprado ao Chelsea), Jackson Martínez ou Ferreira Carrasco antes de Antoine Griezmann, o exemplo paradigmático dessa política de sucesso da formação espanhola. Numa outra posição, também Rodri, médio contratado ao Villarreal por 20 milhões de euros, subiu a pique apenas numa temporada.