Foi no dia 5 de fevereiro de 1974, numa casa nos Olivais, em Lisboa, que Costa Braz, então com 39 anos, se juntou à denominada Comissão de Redacção encarregue de reformular o “Programa do Movimento dos Capitães” que, cerca de dois meses e meio depois, viria a culminar no 25 de abril.

A partir desse dia a história do então tenente-coronel, casado, pai de dois filhos, ficou indelevelmente ligada à da revolução. Apesar de não fazer ideia de quando ela iria de facto acontecer.

Quando a operação começou, Manuel Costa Braz estava em casa, a dormir. “Até que, na noite, tocou o telefone: apesar de ter participado nos preparativos, eu não sabia, porque não queria saber, por razões óbvias de segurança, quais o  «dia D e a hora H»”, recordou no seu blogue, em 2016.

Eram 4h da manhã, recordou o militar de abril num texto publicado no Jornal de Notícias em 2004, a propósito dos 30 anos da revolução. Rapidamente se levantou, fez a barba, vestiu e saiu, rumo ao Estado Maior do Exército, ainda sem saber se daquela seria de vez. “O «16 de Março» acontecera havia pouco mais de um mês antes!”, justificou no texto, de 9 páginas.

O resto é história: parte do Grupo dos 9, foi um dos militares responsáveis pela consolidação da democracia em Portugal, esteve na comissão de administração da RTP e foi pessoalmente encarregue da função de proceder ao recenseamento eleitoral da população, para as eleições da Assembleia Constituinte, as primeiras eleições livres com sufrágio universal no País.

Adjunto Militar do Primeiro-Ministro do primeiro Governo Provisório e ministro da Administração Interna do segundo e do terceiro, fez parte dos governos de Mário Soares e de Maria de Lourdes Pintasilgo. Antes disso, em março de 1976, tinha tomado posse como Provedor de Justiça — foi o primeiro em Portugal, mas manteve-se no cargo apenas durante quatro meses, até ser nomeado ministro

Natural de Pombalinho, Santarém, Manuel Costa Braz foi ainda Alto-Comissário contra a Corrupção, entre 1983 e 1993. Neste último ano passou a Presidente do Conselho de Administração da Hidroelétrica de Cahora Bassa (de que já tinha sido administrador em 1978) , em Moçambique, cargo que desempenhou até 1999.

Saiu, recordou em entrevista ao Expresso em 2016, no meio de uma polémica com o Diário de Notícias, que durante três dias publicou notícias em que o dava como “acusado de fuga ao fisco”.

“Quase todos os jornais tinham recebido os mesmos faxes, com uma denúncia anónima. A metade superior da primeira página do jornal dizia «Costa Braz acusado de fuga ao fisco» e acrescentava verdades, meias verdades e mentiras (…) Em 2005, o Tribunal da Relação, em acórdão sobre recurso que os réus apresentaram sobre outro acórdão, condenou o diretor e os dois jornalistas intervenientes a sete meses de prisão, suspensa por um ano, e o jornal a uma indemnização cível. Saí de Cahora Bassa em 1999, ia fazer 65 anos, fui abordado para outras coisas mas não aceitei nada porque tinha essa situação pendente. É completamente machucador! Não esqueço nem perdoo!”

Depois da reforma, aos 65 anos, Manuel Costa Braz foi ainda presidente do Conselho Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência — “Sem remuneração”, garantiu na mesma entrevista.

Morreu esta terça-feira, dia 2 de julho de 2019, aos 85 anos, vítima de doença prolongada.