Goran Ivanisevic chegou a ser o número 2 do mundo, atingiu as meias-finais do US Open em 1996, caiu três vezes nos quartos do Open da Austrália e de Roland Garros mas terminou a carreira com o triunfo de Wimbledon em 2001 como ponto alto – e logo num ano em que participou no torneio inglês como wild card, tendo vencido até à final com o australiano Patrick Rafter nomes fortes como Carlos Moya, Andy Roddick, Greg Rusedski, Marat Safin ou Tim Henman. Como seria de esperar, o croata foi um nome recordado nas últimas duas semanas mas não foi do passado que se falou: na antecâmara da edição de 2019, foi convidado para ser treinador de Novak Djokovic, atual líder do ranking que tentava defender o troféu.

“É alguém para quem sempre olhei, era qualquer coisa como um herói para mim e somos amigos há muito tempo, apesar de na maioria das vezes em lados contrários da rede. Não demorou até que ficássemos confortáveis um com o outro. Falei com o Marian [Vajda, o treinador do sérvio] e combinámos que íamos à procura de um antigo campeão, alguém que soubesse a sensação de estar no court, que tivesse passado por isso. Tive um período de sucesso com o Boris [Becker], espero ter agora com o Goran [Ivanisevic]”, explicou Djokovic a propósito da escolha de alguém que, por não ter conseguido cancelar alguns compromissos, foi sua companhia nos treinos até ao final da primeira semana – e que valeu mesmo críticas ao sérvio pela opção.

Novak Djokovic conseguiu mesmo revalidar o título, num encontro emocionante com Roger Federer onde o suíço chegou mesmo a ter dois match points, o segundo salvo com uma direita cruzada só ao nível dos verdadeiros campeões. No final, entre a festa de família e restante staff, ficou também esse destaque para Ivanisevic. No entanto, houve outra figura mais invisível que fez a sua diferença para o sucesso do sérvio: o especialista em números Craig O’Shannessy, a quem chamam a “mente brilhante”.

“O que faço é ajudá-lo [Novak Djokovic] a entender melhor os seus rivais e eliminar as más derrotas da equação. Essas derrotas típicas contra rivais que não conhece porque nunca os defrontou antes. Assim já nada pode resultar numa surpresa”, explicou numa entrevista recente ao Punto de Break, onde contou também como começou neste mundo das estatísticas: “Envolvi-me no ténis como júnior ainda, talvez um pouco tarde quando fiz 11 anos. Ao lado da minha casa há três campos de terra batida e comecei a atirar a bola contra a parede. Depois de jogar, fui treinador nos Estados Unidos. Porquê? Acho que tem a ver com o facto de não treinar da forma típica que se faz nas academias; ao invés, jogava muitos sets. Isso ajudou-me a criar uma mente estratégica. Como treinador, só queria ajudar os meus jogadores a ganhar e pensei no que me devia focar. Na nutrição, na parte física, na técnica? São as coisas mais importantes para vencer um jogo? Então descobri que o mais importante é fazer o adversário do outro lado jogar mal e explorar os seus pontos mais débeis em jogo”.

O’Shannessy conheceu Djokovic através de um amigo comum e mereceu a aprovação do treinador do sérvio, iniciando a ligação a partir de 2017 numa fase em que, através de um trabalho mais desenvolvido a nível de nutrição e parte física, atingiu o seu “ponto de maturação” – entrando então este novo upgrade na preparação para os jogos e torneios. “Segredo? A sua capacidade para absorver informação e colocá-la em prática no jogo, a sua capacidade de não se centrar apenas em si mas no seu adversário e a sua capacidade para confundir os rivais, que muitas vezes esperam que faça uma coisa e faz outra. Em casa jogo há cenários diferentes e em casa cenário há um plano de jogo. Às vezes é uma quantidade de informação muito grande mas o Novak tem essa capacidade de saber o que fazer em cada um dos momentos”, destacou, entre outras considerações entre rivais mais diretos como o (muito) tempo que Roger Federer demorou para perceber o jogo de Rafael Nadal.

Ainda assim, o australiano está longe de trabalhar apenas para Novak Djokovic, sendo, entre muitas outras funções, o chefe analista do próprio ATP e também de Wimbledon, além de já ter integrado também os quadros do WTA ou de federações nacionais como a italiana, como explica o Sport. Além de escrever artigos de opinião em algumas publicações como o The New York Times, O’Shannessy dá também cursos de formação da vertente mais estatística do jogo.