Abriu-se a Caixa de Pandora. Os relatos de exaustão extrema que, em pelo menos quatro casos, terão conduzido professores à morte não param de chegar à Fenprof, que passou a manhã de quarta-feira a analisar um potencial quinto óbito. Depois de na terça-feira, a Fenprof ter denunciado três casos em que os professores terão morrido por exaustão, as denúncias semelhantes começaram a ser recebidas às dezenas no sindicato. Pelo menos duas delas apontavam para mais duas mortes, que acabaram por se revelar ser da mesma pessoa. A primeira, já noticiada, é de um caso em Oliveira de Azeméis e foi recebido na terça-feira. Já esta quarta-feira, uma nova denúncia apontava para outro óbito, em Estarreja. Como as duas localidades são muito próximas, a Fenprof suspeitou que pudesse ser o mesmo caso, o que veio a verificar-se.

Ao que o Observador apurou junto do sindicato, todos os casos ocorreram em casa, à noite, enquanto os professores “trabalhavam em frente ao computador”, a corrigir provas, a dar notas ou a preparar atas de reuniões. A única exceção foi a de uma professora de Inglês, que morreu na sala de aulas numa escola de Manteigas, e que era titular de todas as turmas do 7.º ao 12.º anos daquela disciplina.

“Não se tratam de denúncias anónimas. São professores que nos enviam os seus testemunhos, que assinam com o seu nome os relatos que nos fazem chegar. E há também denúncias que são feitas pelos familiares de professores, preocupados com o excesso de horas de trabalho”, explica fonte da Fenprof. Um dos relatos que mais impressionou os sindicalistas da Fenprof foi o de um marido que relata o dia a dia da sua mulher, professora, que diz ter de estar constantemente disponível para a escola, mesmo quando está em casa, “roubando o tempo que devia ser da família”.

Identidades dos professores não serão reveladas

Com o aumentar de denúncias recebidas, a Fenprof está em estado de alerta. Segundo o que o Observador apurou, o principal objetivo neste momento é perceber se há uma correlação direta entre excesso de carga horária, situações de burnout e a morte destes professores ou se, pelo contrário, os óbitos não terão passado de uma coincidência.

Como todas as denúncias são apontadas por pessoas perfeitamente identificadas, a Fenprof está a compilar toda a informação disponível em cada um dos casos para, o mais tardar na quinta-feira, fazer seguir um ofício para o Ministério Público com um pedido de investigação às mortes. Nome dos professores, dos agrupamentos e das escolas é a informação que ainda está a ser recolhida e que irá ser partilhada também com o Ministério da Educação. À imprensa, serão divulgados todos os dados recolhidos, exceto a identidade dos professores. “São mortes muito recentes, queremos tentar poupar ao máximo as famílias”, esclarece a mesma fonte.

Contactado pelo Observador para comentar este assunto, o Ministério da Educação não respondeu até à hora de publicação deste texto.

Para já, das quatro mortes confirmadas sabe-se apenas que aconteceram em Oliveira de Azeméis (Escola Básica e Secundária de Fajões), Manteigas, Fundão e Odivelas. A idade dos professores também não foi divulgada, mas sabe-se que esta é uma classe envelhecida. Dados da OCDE, divulgados em dezembro de 2018, mostram que em 107 mil professores nas escolas públicas apenas 424 têm menos de 30 anos — o que não chega a ser sequer 1% do total. A situação é ainda mais alarmante se olharmos para as escolas do 1.º ciclo: só 16 professores tinham menos de 30 anos. 

A faixa etária até aos 40 anos também representa uma fatia fina — apenas 15% do total de professores — enquanto que os docentes com mais de 50 anos são quase metade da classe, 48,8%. Assim, no ensino público, a idade média dos professores no 1.º ciclo é de 47 anos, no 2.º ciclo de 50 e no 3.º ciclo e no secundário de 49 anos.

Sobre o burnout, os últimos dados disponíveis mostram que mais de 60% dos professores portugueses (65 mil) sofrem de exaustão emocional, provocada pela excessiva burocracia e a indisciplina dos alunos. A conclusão, divulgada no verão de 2018, é de um estudo liderado pela investigadora Raquel Varela, da Universidade Nova, a pedido da Fenprof para poder ter dados nacionais sobre o desgaste da profissão.

Outra conclusão da pesquisa é que são os mais velhos que mais sofrem de exaustão, principalmente os professores acima dos 55 anos. O burnout é causado por exaustão ou stress profissional.

Mas pode-se ou não fazer uma correlação entre burnout e a morte destes quatro professores? Prudência é o caminho escolhido por Filinto Lima, presidente da associação que representa os diretores de escolas públicas e agrupamentos, a ANDAEP, que diz que neste caso concreto deveríamos ouvir o que as famílias têm a dizer, antes da Fenprof. As causas da morte dos quatro professores podem ser muitas e o próprio espaço temporal em que elas aconteceram é ainda desconhecido. Mas a exaustão dos professores, diz, é uma realidade.

“Os professores andam cansados o ano inteiro, não me parece que haja um pico de cansaço no final do ano. O que acontece nesta altura é o trabalho invisível, as pessoas acham que estamos de férias, mas estamos nas escolas a preparar o próximo ano letivo para garantir que ele corre bem”, diz o presidente da ANDAEP.

O que é preciso é que o próximo Governo cuide dos nossos professores”, conclui. Pelo caminho, critica a desburocratização de que muito se fala, mas pouco se vê. “Pode haver menos papéis nas escolas, mas há cada vez mais plataformas na internet com informação para preencher. As plataformas são a escravidão do século XXI”, remata Filinto Lima.

Lembrando que o burnout é um problema reconhecido na carreira docente, o diretor do agrupamento de escolas Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, defende que os sindicatos se deviam bater por recuperar alguns direitos perdidos: “Antigamente, a partir dos 40 anos, os professores podiam ter menos duas horas de componente letiva, agora é a partir dos 50. Outra medida importante – embora não saiba os custos que tem – era permitir que a partir do 60 anos os professores pudessem, se assim o desejassem, deixar de fazer a componente letiva e fazer as 35 horas de componente não letiva.”

Avelino Azevedo, presidente da CNAPEF — Conselho Nacional de Associações de Profissionais de Educação Física e Desporto — diz ficar chocado se houver correlação entre a morte destes quatro professores e a exaustão provocada pelo trabalho.

“Estar a dar notas é uma descarga de adrenalina que as pessoas não compreendem. É estar a reduzir um aluno a uma nota que pode não representar tudo o que ele fez durante o ano. Já a morte da professora que dava aulas a 6 anos de escolaridade diferentes… É de uma violência que nem consigo imaginar. Quando prepara aulas, tem de fazê-lo de seis formas diferentes, com conteúdos muito diferentes”, defende.

Quanto aos professores de Educação Física, lembra que com o avançar da idade e do desgaste deixam de ter capacidade para ajudar os alunos na progressão pedagógica das aulas práticas. “Já viu o que é um professor de 60 anos pegar ao colo um aluno de 100 quilos — há muitos por causa da obesidade infantil — para ajudá-lo a fazer um exercício?”

Reunião no Ministério da Educação sobre “sobretrabalho imposto” sem novidades

Esta segunda-feira, na véspera da conferência de imprensa em que Mário Nogueira denunciou as três mortes, a Fenprof reuniu-se com o secretário de Estado da Educação, João Costa, exatamente para discutir, nas palavras do sindicato, o “sobretrabalho imposto aos professores”. Da reunião, “não saiu qualquer novidade”, avançou a Fenprof em comunicado enviado às redações.

“O Ministério da Educação demonstrou nada querer fazer para acabar com o sobretrabalho dos docentes, que está na origem do tremendo desgaste que afeta o corpo docente das escolas; aos professores resta recorrer à greve desde o início do próximo ano letivo, não comparecendo nas reuniões e outras atividades que lhes sejam impostas para além das 35 horas semanais de trabalho estabelecidas na lei”, detalha o comunicado, deixando claro que a greve ao trabalho extraordinário será para continuar ao longo do ano letivo 2019/20.

No encontro, a federação liderada por Mário Nogueira insistiu na necessidade de impedir que se repitam “os abusos e ilegalidades” verificados no último ano letivo, e pediu à tutela que enviasse às escolas ordens concretas nesse sentido.

“O sobretrabalho imposto aos docentes é hoje um dos principais fatores de burnout, doença que já atinge mais de dois terços dos docentes, 24% destes de forma considerada grave. Há hoje professores que, literalmente, morrem a trabalhar. Em Manteigas, no ano que terminou, uma professora morreu em plena sala de aula; a esta professora estava atribuída a lecionação de Inglês a todas as turmas do 7.º ao 12.º ano. No Fundão, outra professora, já no final do ano letivo, morreu a lançar as notas dos seus alunos na plataforma informática, num período em que também garantia a vigilância de exames e corrigia 60 provas de aferição. Falta, agora, saber se a morte súbita destas docentes teve na origem a sobrecarga de trabalho que lhes foi imposta, mas, caso tal se confirme, a Fenprof apoiará as respetivas famílias em ações a apresentar em tribunal contra o Estado Português”, lê-se no comunicado.