Boris Johnson é o novo líder do Partido Conservador. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros foi o mais votado as eleições internas, com 92.153 votos — quase o dobro dos 46.656 votos assegurados por Jeremy Hunt. Os resultados foram conhecidos na manhã desta terça-feira, depois de semanas de votações entre os quase 160 mil militantes do partido que votaram. A taxa de participação foi de 87,4%.

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Na reação imediata — numa declaração muito curta, a que não faltaram as piadas que costuma incluir em todas as suas intervenções — Boris Johnson procurou mobilizar o partido, insistindo na ideia de que tudo está a começar agora e reafirmou a promessa de fazer o Reino Unido sair da União Europeia.

Sei que conseguimos fazê-lo, as pessoas deste país confiam que conseguimos fazê-lo e nós vamos fazê-lo!”

Ainda assim, não repetiu a ideia de que os britânicos sairão a qualquer custo, com ou sem acordo. Pelo contrário, optou por falar em parceria e amizade com a UE:

Neste momento decisivo na nossa história, temos, de novo, de reconciliar dois tipos de instintos, dois tipos de instintos nobres: entre o desejo profundo por amizade e comércio livre e apoio mútuo na segurança e na defesa, entre o Reino Unidos e os nossos parceiros europeus; e o desejo simultâneo — igualmente profundo e sentido — por um governo democrático e soberano neste país.”

O novo líder do Partido Conservador reafirmou ainda o slogan da campanha, para lembrar as três prioridades que assumiu, de forma genérica: “Cumprir o Brexit, unir o país e derrotar Jeremy Corbyn”. O líder do Partido Trabalhista também reagiu. No Twitter, Jeremy Corbyn sublinhou que Boris Johnson foi escolhido por menos de 100 mil tories e não pelo país.

Antes do ataque a Corbyn, Boris Johnson tinha começado por deixar elogios ao adversário derrotado, Jeremy Hunt, e um agradecimento a Theresa May.

E na mesma altura, no Twitter, Theresa May dava os parabéns a Boris Johnson pela vitória e prometia-lhe apoio total na condição de deputada.

Da declaração de vitória sobra ainda um recado aos críticos. Boris Johnson disse que sabia que haveria quem quisesse “questionar a sabedoria da decisão” dos que votaram nele — e até mesmo alguns dos que votaram sem saber exatamente o que estavam a fazer —, mas que “ninguém tem o monopólio da sabedoria”, sublinhou. E prometeu começar já a trabalhar porque a campanha acabou.

A eleição foi desencadeada pela demissão de Theresa May, a 7 de junho, depois do fracasso no processo da saída do Reino Unido da União Europeia e dos maus resultados nas eleições locais na Irlanda do Norte e em Inglaterra — os piores desde 1995 para os tories.

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Anunciado o nome do seu sucessor, May irá uma última vez, como primeira-ministra, ao parlamento britânico, na quarta-feira, seguindo depois para o Palácio de Buckingham, onde apresentará a sua demissão à Rainha Isabel II. Quando essa formalidade for cumprida, a monarca vai receber Boris Johnson, a quem dará posse como novo primeiro-ministro.

Ainda esta terça-feira, Johnson deverá fazer uma curta declaração de vitória. O primeiro discurso como PM será feito apenas na quarta, depois de tomar posse, à porta do número 10 de Downing Street, a residência oficial que passará a ocupar.

Boris Johnson foi, desde o primeiro momento, o favorito na corrida à sucessão de Theresa May. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros — que se demitiu do Governo de May em desacordo com a forma como a primeira-ministra estava a conduzir o Brexit — foi o mais votado em todas as rondas da eleição.

Defensor de uma saída rápida, com ou sem acordo, Johnson fundou a sua campanha na garantia de que, ao contrário da antecessora, cumpriria o Brexit. Foi ele, aliás, uma das caras do “Leave” no referendo de 2016. Aquilo que propõe pode, no entanto, não ser fácil de pôr em prática. Para sair sem acordo, Boris Johnson terá de passar por cima do parlamento, que por mais que uma vez votou contra essa opção, e do próprio partido, dividido quanto ao que fazer.

Jeremy Hunt, adversário de Boris Johnson nestas eleições, por exemplo, admitia a possibilidade de pedir mais tempo para garantir um bom acordo de saída para os britânicos. A oposição interna que o novo líder vai encontrar também se tornou bastante evidente com a saída do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, na segunda-feira. A demissão deve ser seguida por outros nomes, como os dos ministros da Justiça e das Finanças.

O Reino Unido tem até ao dia 31 de outubro para sair da União Europeia, a nova data definida depois de mais um adiamento do Brexit, previsto inicialmente para 29 de março.

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Num primeiro rescaldo a estas eleições internas, as reações foram diferentes entre os vários lados. Nigel Dodds, líder dos unionistas no Parlamento em Londres, enviou uma mensagem ao novo líder do Partido Conservador e escreveu no Twitter que está “ansioso por continuar as discussões” para “avançar na União, cumprir o Brexit e restaurar o governo delegado na Irlanda do Norte”.

Também Donald Trump utilizou as redes sociais para comentar a eleição de Boris Johnson. Numa mensagem curta, o Presidente dos Estados Unidos assegura: “Ele vai ser ótimo!”

Por outro lado, Nigel Farage também comentou a escolha e os objetivos de Boris com a saída do Reino Unido da União Europeia. “Desejo tudo de bom a Boris Jonhson como primeiro-ministro e com a sua promessa de ‘fazer ou morrer’ para cumprir o Brexit a 31 de outubro”, começou por escrever. O líder do Partido Brexit referiu ainda que se trata também de um “fazer ou morrer” para o futuro do Partido Conservador e deixou a questão para o futuro do Brext: “Será que ele [Boris Johnson] tem a coragem de o entregar ao país?”

Richard Tice, chairman do Partido Brexit, coloca as mesmas questões e salientou que Boris e o seu partido têm apenas 100 dias para conseguir cumprir a data da saída da União Europeia. “O Boris não é muito conhecido por honrar a sua palavra quanto ao Brexit, uma vez que ele votou para o terrível acordo de adiamento depois de o cconsiderar de uma forma de vassalagem”, disse ainda Richard Tice.

Um pouco mais tarde, Jeremy Hunt, que acabou por sair derrotado destas eleições, também reagiu no Twitter à escolha de Boris Johnson. “Parabéns pela campanha bem disputada. Será um bom primeiro-ministro para o nosso país neste momento crítico. Ao longo da campanha mostrou otimismo, energia e uma confiança inabalável no nosso ótimo país e precisamos disso”, referiu.

Já Nicola Sturgeon, líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP) e chefe do governo escocês, diz ter “grandes preocupações sobre a perspetiva da sua governação e seria hipócrita se não fosse honesta sobre estes factos”, acrescentando que nenhuma forma de Brexit vai beneficiar o país e o resto do Reino Unido.

Estas são preocupações que tenho a certeza que vão ser partilhadas pela vasta maioria das pessoas na Escócia que, se tivessem tido a oportunidade de dizer alguma coisa, não teriam escolhido entregar as chaves do número 10 a alguém com as visões e o historial que ele tem”, acrescentou ainda a primeira-ministra da Escócia, citada pelo The Guardian.

Nicola Sturgeon refere ainda que o lema do “fazer ou morrer” que Boris Johson utiliza para o Brexit “voa diante da lógica, bom senso ou qualquer consideração básica pelo bem-estar das pessoas e nações do Reino Unido”.

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O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, também já reagiu e manifestou a convicção sobre um reforço das relações turco-britânicas. Através de uma mensagem no Twitter, Erdogan felicitou Johnson e acrescentou: “Acredito que as relações entre a Turquia e o Reino Unido vão florescer ainda mais durante esta nova era”.