A premissa é tão apelativa e antropologicamente interessante para os milhões de espectadores que o veem, quanto voyeurística e perturbadora para os também numerosos críticos. Primeiro, junta-se um conjunto de solteiras e solteiros numa casa fechada durante um pouco menos de dois meses, sem acesso ao exterior. Depois, vê-se quantos dos concorrentes conseguem construir relações amorosas com alguém que esteja na mesma situação civil no interior da casa. Durante todo o programa, o juiz é o público, que avalia as relações e vota no seu casal preferido. Ao mesmo tempo, os concorrentes têm hipótese de ir decidindo se querem optar por manter o parceiro ou a parceira atual ou se preferem trocar. O casal vencedor leva 50 mil libras (55 mil euros) para casa.

É assim que funciona o “Love Island”, um formato de reality show do Reino Unido que já tinha sido explorado nos anos 2000, mas com celebridades como participantes. Em 2015, a estação britânica iTV recuperou-o, alterando um pouco o modelo: desde logo, os participantes passaram a ser anónimos que só se tornam celebridades com a exposição televisiva.

“Love Island” só existe há quatro anos, mas já foram exibidas seis temporadas (são sempre curtas) na televisão britânica, sempre passadas na ilha espanhola de Maiorca — e os níveis de audiência foram tão espetaculares (seis milhões de espectadores, algo de que “nunca se tinha ouvido”, num programa que não é exibido nos principais canais britânicos, como refere a CNN) que os produtores já garantiram que vão filmar uma temporada de inverno na África do Sul. O formato, aliás, já foi exportado para os Estados Unidos, embora sem grande sucesso. Em Portugal, também ainda não foi testado.

Antecipando a final de mais uma temporada, que vai ser transmitida em direto esta segunda-feira à noite, a CNN recorda o crescimento de uma febre que tem tornado os concorrentes anónimos do programa em celebridades que são seguidas por milhões de pessoas nas redes sociais e passam a viver como socialites.

O lado negro: mortes motivam mudanças na televisão britânico

A dificuldade de sair do programa para o mundo exterior com uma projeção e mediatismo que nunca haviam experimentado na sua vida de anónimos (comum a concorrentes de outros reality shows similares), contudo, tem sido motivo de preocupação crescente no Reino Unido — nomeadamente depois da morte de alguns participantes deste estilo de programas, como dois antigos concorrentes do “Love Island” que se suicidaram em apenas um ano e de um convidado do “The Jeremy Kyle Show”, Steve Dymond, que pouco antes da morte tinha falhado um teste de um detetor de mentiras nesse programa, descrito pelos britânicos como um “talk-show” tablóide.

A morte de Steve Dymond agitou a indústria televisiva e as políticas públicas britânicas e já foram definidas novas exigências para as estações de televisiva, relativas à exposição de convidados e anónimos. Segundo o The Guardian, os meios de comunicação britânicos vão passar a estão obrigados explicitamente a proteger “o bem-estar e a dignidade” das pessoas que participam nos seus programas. A imposição foi imposta pela reguladora dos media britânicos Ofcom (que tem missão semelhante à da Entidade Reguladora para a Comunicação Social portuguesa), que tem como intenção, segundo o jornal britânico, proteger membros do público que se tornam participantes de programas dos media.

Os produtores de todos os programas passarão também a estar obrigados a garantir que os seus participantes não sofrerão de “stress ou ansiedade injustificada” que resulte da sua exposição mediática. É ainda difícil de perceber que medidas poderão ser adotadas por rádios, televisões e jornais para evitar esses efeitos secundários da notoriedade mediática, mas os produtores de reality show estarão obrigados a ter cuidado acrescido com a exploração da intimidade de concorrentes anónimos.

A própria estação britânica que transmite este reality show, “Love Island”, tem tentado passar a imagem de que não é indiferente aos problemas psicólogicos de alguns antigos concorrentes de programas de reality television. Numa declaração oficial, a estação garantiu que já procedeu a alterações, incluindo “apoio psicológico reforçado, conversas mais detalhes com possíveis concorrentes sobre o impacto da sua participação no programa, sessões de treino com os concorrentes sobre redes sociais e gestão financeira e um pacote pró-ativo de medidas posteriores à participação no programa que estende o apoio” prestado após a saída do concurso.

Zara McDermott, uma das concorrentes do programa “Love Island” (Photo by David M. Benett/Dave Benett/Getty Images for TWG Tea)

Ouvida pela CNN, o concorrente Eyal Booker, que participou na quarta temporada do “Love Island”, resumiu as dificuldades que teve ao sair do programa: “É preciso reintegrarmo-nos na sociedade de um modo diferente por termos uma cara que as pessoas conhecem. As pessoas pensam que te conhecem — param-te na rua e falam contigo de uma forma com a qual às vezes é difícil lidar”. Embora não tenha sentido grande apoio ao longo do programa, dada a natureza do formato — os participantes são filmados durante 24 horas e, por isso, a produção tenta não intervir demasiado (até para os expor à pressão) —, Eyal Booker afirmou que sentiu que “havia sempre apoio caso precisássemos”

“São as coisas com que muitos de nós lidamos”

Apesar das muitas críticas acintosas feitas ao reality show, que conquistou o Reino Unido, há quem o tente decifrar e explicar o apelo dos espectadores. Num texto publicado na secção noticiosa do site da estação britânica BBC, o “repórter especialista em entretenimento” Steven McIntosh defende que o que torna “Love Island” um sucesso tão retumbante é ser “identificável”, isto é, ser “um microcosmo da sociedade” que reflete “uma cultura de namoro e relações contemporâneas com as quais um público especialmente jovem é capaz de se identificar”.

A posição é corroborada pela psicoterapeuta e escritora britânica Lucy Beresford, que — citada pela BBC — afirma: “Os dramas que os concorrentes vivem e os conflitos que os ocupam são coisas com as quais muito de nós lidamos. Portanto, é apelativo de um ponto de vista educativo mas também por um pouco de schadenfreude — os espectadores pensam ‘graças a Deus que não me meti numa encrenca tão grande numa situação particular como esta’. É também uma forma brilhante de mostrar o que não se deve fazer”.

Curiosamente, se inicialmente o programa apostava bastante em cenas mais picantes e sexuais entre os concorrentes, a exposição de intimidade tem-se tornado menos explícita com a sucessão de temporadas. A jornalista e especialista em televisão Rose Hill, do tablóide Daily Mirror, aponta dois  motivos possíveis em declarações à BBC: “Penso que tem isso está parcialmente relacionado com o programa estar a tentar evoluir para algo mais abrangente [mainstream]. Querem torná-lo algo mais adequado às famílias. Mas também acho que os participantes estão muito mais conscientes das implicações que tem ter relações sexuais na televisão”.

[Aviso: o vídeo abaixo pode conter imagens suscetíveis de chocar os espectadores mais sensíveis:]