“É um dos sítios mais importantes para se ganhar e que nos marcam mais, talvez pelo cenário em si. A Senhora da Graça não é a pior subida que há em Portugal, há mais meia dúzia que são tão ou mais difíceis, não têm é a imponência que tem a Senhora da Graça. Recordo-me quando era corredor de bicicletas, e ainda hoje acontece quando me aproximo para ir para as chegadas com quem vou da RTP, comento que assusta só de ver. Ainda hoje me arrepio de me lembrar disso… É uma subida que tem características muito próprias e tem um problema que se mantém até hoje: o último quilómetro parece que são dez. Quando chegamos, a corrida para quem está lá é terrível porque parece que vai acabar mas nunca mais, os metros não passam, não se chega lá acima. Até para quem vê, pode alterar tudo aí e afinal quem vai ganhar era quem vinha só em quarto ou quinto. Há ali uma quebra de quem está na frente e ao mesmo tempo o ânimo a quem até ali as coisas não correram muito bem…”.

Antes do início da Volta a Portugal, em entrevista à Rádio Observador, Marco Chagas, português com mais triunfos individuais na competição (quatro) e atual comentador da RTP, não teve dúvidas em falar da Senhora da Graça quase como o ponto mais alto da principal prova velocipédica do calendário nacional. Este ano, tratando-se da penúltima etapa e com os três primeiros separados por menos de 20 segundos, ainda mais. E a passagem a 12 quilómetros da meta reforçou mais esse sentimento, com centenas e centenas de pessoas na rua para um último apoio antes do início da subida do Monte Farinha.

Com Vicente de Mateos, chefe de fila do Louletano que ocupava o quarto lugar na geral a pouco mais de 30 segundos da camisola amarela, a desistir ao 47.º quilómetro, e com os principais corredores do Sporting-Tavira a somarem mais alguns imprevistos (Frederico Figueiredo caiu e teve de receber assistência médica, Alejandro Marque fez uma curva em frente apesar de ter evitado a queda que poderia trazer outro tipo de problemas), os tais últimos de quilómetros chegaram com duas lutas paralelas que iriam marcar não só a etapa mas, possivelmente, a própria classificação final desta Volta: por um lado, a luta entre Joni Brandão, João Rodrigues e Gustavo Veloso pela amarela; por outro, a batalha entre equipas não só com a Efapel e a W-52 FC Porto mas também a RP-Boavista, que vencera as duas últimas tiradas, e o Sporting-Tavira, à procura de uma “consolação”.

Com Luís Fernandes de novo a brilhar até ser “apanhado” pelos principais classificados a menos de cinco quilómetros, a W-52 FC Porto apercebeu-se das dificuldades de Henrique Casimiro, o grande “defensor” de Joni Brandão, e foi atacando para tentar cortar o grupo de 11 corredores que entretanto perdera de vez Marque sobretudo por Edgar Pinto, que obrigava o camisola amarela a sucessivos esforços para responder às manobras dos azuis e brancos até que o próprio chefe de fila da Efapel saiu para partir de vez o grupo e deixar para trás Gustavo Veloso, a acusar já maiores dificuldades na subida. António Carvalho acabou por vencer a etapa, com Joni Brandão e João Rodrigues a chegarem quase colados um a outro.

Contas feitas, João Rodrigues chegou a um segundo do vencedor e companheiro de equipa António Carvalho, menos um do que Joni Brandão. João Benta (RP-Boavista), Frederico Figueiredo (Sporting-Tavira) e David Rodrigues (RP-Boavista) formaram o grupo perseguidor a seis segundos do corredor azul e branco, na etapa onde Gustavo Veloso não foi além da nona posição a 24 segundos de Carvalho. Assim, na geral, Joni Brandão e João Rodrigues surgem com o mesmo tempo à entrada para a última etapa, mais distanciados de Veloso que passou a estar agora a 40 segundos dos dois líderes.

A Volta a Portugal em bicicleta fecha este domingo com um contrarrelógio entre Vila Nova de Gaia e Porto com a curta distância de 19,5 quilómetros e que decidirá quem será o sucessor de Raúl Alarcón como vencedor da prova em 2019. E com essa curiosidade: depois da forma guerreira como Joni Brandão se defendeu mesmo sem ter a ajuda de Henrique Casimiro, a W52-FC Porto ganhou a etapa (António Carvalho), perdeu um candidato (Gustavo Veloso) e chega ao final sem saber se vai ganhar ou perder com aquele que se transformou no nome mais forte para discutir o triunfo final (João Rodrigues).