Mário Centeno quer companhia nas decisões sobre os destinos financeiros da Europa. O ministro das Finanças aproveitou a ida ao SummerCEmp a Monsaraz, um evento organizado pela Comissão Europeia, para sugerir que a futura comissária europeia de Portugal, Elisa Ferreira, fique com a pasta dos Assuntos Económicos e Financeiros. O também presidente do Eurogrupo — que se apresentou em todas essas versões aos 40 alunos do evento — começou por dizer que a designação de Elisa Ferreira é uma “excelente notícia”, pois é alguém que tem “um nível de qualificações único e excecional do ponto de vista político e técnico” e que, “qualquer que seja a pasta que vá ter, vai ser mais um exemplo da excelência da representação portuguesa”.

Depois, o ministro das Finanças defendeu que a comissária designada por António Costa seja escolhida para a sua área por Ursula Von der Leyen: “As qualificações da professora Elisa Ferreira na área financeira e económica são ótimas e espero que sejam aproveitadas nessa dimensão“. Já a sua equipa tweetou sobre o assunto — ainda durante a intervenção do ministro — mas apenas referiu a parte de a antiga eurodeputada ter “qualificações” para “qualquer pasta”.

Já no final da sessão, em declarações aos jornalistas, Centeno insistia que Elisa Ferreira tem “muita credibilidade”, mas dizia que a é “uma decisão que decorre dentro da composição do colégio de comissários” e que passa pela presidente da comissão. No entanto, tem a certeza que Ursula Von der Leyen “acompanha essa matéria” e que as pastas que irá atribuir à portuguesa “serão condizentes com as suas qualidades”.

“Não há nenhum ministro das Finanças que goste de cobrar impostos”

Centeno dispensou, desta vez, as metáforas futebolísticas de que tanto gosta, embora tenha feito uma intervenção de 90 minutos. O tema era “A Europa vista por Portugal”. Ao longo da conversa com jovens universitários, o ministro confessou que às vezes não sabia em qual das condições devia responder.

Quando respondia a uma questão sobre política fiscal, chegou a dizer: “Não sei se fale como ministro das Finanças, se como economista, se como presidente do Eurogrupo, se como membro do Ecofin.” Na mesma circunstância, explicou que “não há nenhum ministro das Finanças que goste de colectar impostos”, mas que eles têm de existir para pagar os serviços prestados pelo Estado. Na antiga igreja Santiago, hoje transformada em galeria de arte, Centeno lembrou que nunca pensou ocupar os cargos que hoje ocupa, mas que todos os economistas são “obcecados pelo desvio padrão”.

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Centeno não acredita em outra crise como a última

Mário Centeno lembrou o recente artigo do Financial Times que apresentou Portugal “como a maior esperança da Europa” e disse não acreditar que haja uma crise nos mesmos moldes da anterior, uma vez que a Europa tem hoje mais capacidade de resposta.

Para o ministro, esta foi “uma crise única” e que por isso “não vamos observar [outra] nos próximos tempos com a mesma dimensão e características, estamos dotados com instrumentos que não tínhamos na altura”. E garante que o país também está mais resistente a crises: “Em Portugal, o que tínhamos para fazer foi feito”.

Mário Centeno diz ainda que não tem “pânico das crises”. O ministro das Finanças destaca que as “crises financeiras têm normalmente uma situação de pânico”, mas esse pânico deve ser evitado. “As crises económicas devem ter uma resposta, mas não devem gerar pânico”, acrescentou.

Sobre o projeto europeu, Centeno destacou que a “Europa se tem construído como projeto absolutamente único a nível global”  e que não conhece outra experiência “mais maravilhosa” de integração política, embora lembre que “todas as experiências feitas pelos homens têm erros.” E, puxando “a brasa à sua sardinha”, como acabaria por confessar, defendeu que o euro é o expoente máximo dessa integração europeia. E que é hoje mais consensual: “Nunca o euro teve um apoio tão grande dentro dos países da União Europeia”.

Mário Centeno não dispensou deixar farpas ao Presidente dos EUA, Donald Trump, a propósito da tentativa de compra da Gronelândia. “Não compramos a terra dos outros, como agora se tenta fazer. Nunca o fizemos. Nunca o vamos fazer. Tomamos decisões em conjunto”.