O ator norte-americano Brad Pitt esteve nas instalações da NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, para entrevistar um dos astronautas destacados neste momento na Estação Espacial Internacional. O ator interpreta um astronauta no filme “Ad Astra”, que se estreia esta quinta-feira em Portugal, e conversou com Nick Hangue, tripulante e engenheiro de voo da Expedição 60, sobre a ciência feita a bordo da Estação para permitir a realização do Programa Artemis, que planeia colocar um homem e uma mulher na Lua em 2024.

A NASA participou na produção do novo filme protagonizado por Brad Pitt, em que o ator faz de Roy McBride, um astronauta obrigado a viajar para os confins do Sistema Solar para encontrar um cientista potencialmente perigoso para a humanidade — mas que também é seu pai. A agência espacial sublinhou que “Ad Astra” é sobretudo “um filme de ficção científica, mais do que uma realidade”. No entanto, “a agência disponibilizou material visual para o filme e algum conhecimento técnico”.

[Veja o trailer de “Ad Astra”:]

De acordo com o comunicado da NASA, a ligação entre a agência espacial e o cinema surgiu como forma de inspirar a Geração Artemis — uma geração de exploradores que se está a preparar para levar a Humanidade uma vez mais à Lua já nos próximos cinco anos, mas desta feita com o apoio de parceiros internacionais e empresas privadas.

É um caminho que começou a ser trilhado em “Interstellar”, “O Marciano” e “Gravidade”. Agora prossegue com “Ad Astra”: “Fizemos a revisão dos textos do Ad Astra numa fase embrionária da produção. Apesar de não haver uma linha temporal relacionada com a NASA, disponibilizámos algumas imagens e vídeos entusiasmantes para o filme, sobretudo da Lua e de Morte. Os filmes de ficção científica levam o público para fora deste mundo”, explicou Bert Ulrich, responsável por estas parcerias.

A entrevista entre Brad Pitt e um dos seis astronautas que estão neste momento no laboratório espacial — além de Nick Hague, também lá estão Christina Koch, Alexey Ovchinin, Andrew Morgan, Alexander Skvortsov e Luca Parmitano — foi transmitida em direto pela televisão da NASA a partir do Centro Espacial Lyndon B. Johnson, em Houston. Pode lê-la aqui em baixo e revê-la no vídeo.

Sabes mesmo o que são todos esses botões pendurados na parede?
Quando cheguei cá a cima, parecia similar, mas na verdade é muito diferente daquilo que tínhamos para treinar na Terra. Aí em baixo, tínhamos fotografias coladas na parede. Aqui temos cabos por todo o lado. Mas habituamo-nos a isto tudo. Muito do que temos aqui são espaços para armazenamento de equipamentos. Por exemplo, temos aqui esta parede, ajuda-nos a perceber como é que as chamas queimam no espaço, que é muito diferente de como o fazem no chão. Tirando o efeito da gravidade, forçando uma certa forma à chama, podemos estudar o fogo em maior detalhe. É bom porque nos ajuda a desenvolver energias mais limpas.

Como é que sabes quando é de dia ou de noite?
Fazemos muitas coisas para gerir o ritmo circadiano. Uma das coisas que fazemos é utilizar tonalidades diferentes do espetro das cores. Assim podemos ter uma luz muito azul durante o dia e depois trocar para cores mais noturnas. Todos seguimos o Greenwich Mean Time (GMT) e isso ajuda-nos a sincronizar o aspeto internacional da expedição, como a sala de controlo em Houston, os centros no Japão, Alemanha ou Rússia. Todos precisam de trabalhar ao mesmo tempo, por isso escolhemos o GMT. Mas, na verdade, quando se é novo na estação, pode ser muito difícil dormir depois de um dia de trabalho porque leva-se com o Sol mesmo na cara.

E há um turno da noite?
Tentamos manter-nos sempre nos mesmos horários. Trabalhamos 12 horas por dia, começamos por volta das sete e meia da manhã e acabamos às sete e meia da tarde. Mas há um turno da noite. É uma equipa gigantesca aí na Terra que está a controlar cerca de 95% das coisas que acontecem na Estação Espacial Internacional. E fazem-no 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano. É uma orquestração incrível de um programa internacional para realmente atingir uma coisa que não podemos fazer sozinhos. É através dessa força e diversidade, e força através da diversidade, que esta Estação está a funcionar há 20 anos.

Tive de ir ao Laboratório de Propulsão a Jato na semana passada e foi no dia em que a Índia estava a tentar chegar à Lua. Os Estados Unidos estavam a ajudá-los nesse esforço. Conseguias ver isso aí de cima?
Não, infelizmente. Eu e o resto da equipa tivemos de saber o que se passava através dos artigos dos jornais. É uma daquelas coisas em que a cooperação internacional é tão importante porque o espaço é um lugar muito duro. E as coisas que tentamos fazer todos os dias, a equipa no chão, a NASA e os seus parceiros fazem um ótimo trabalhar ao tornar coisas muito difíceis, quase impossíveis, parecerem a rotina. As coisas que fomos capazes de fazer juntos são muito especiais. Para mim, a maior aprendizagem que tirei desta missão é a ideia de cooperação a uma escala global. É isso que vai levar a humanidade pelo futuro.

Pude ver isso quando estavam a trabalhar no novo rover que vai ser levado para Marte. Foi impressionante ver toda a gente a trabalhar para construir as diferentes partes. Quais são as tuas funções neste momento?
Estou nos últimos tempos da minha estadia cá em cima. Ficamos aqui durante 200 dias, mais ou menos, e eu já passei dos 180. Tenho mais ou menos duas semanas até voltar para a Terra em outubro. Numa semana normal há muita ciência para ser feita. Fazemos experiência e fazemos manutenções à Estação. Tive sorte suficiente para, na semana passada, ter feito o meu terceiro passeio espacial. São experiências maravilhosas. Todos os dias são cheios de coisas novas e entusiasmantes. Se eu olhar para a variedade de experiências que pude fazer ao longo da missão, pude pesquisar novas receitas para novas formas de borracha. Isso pode mudar a forma como construímos carros mais eficientes. Ou como expelir fibras óticas para melhorar as comunicações. Também fizemos edição genética e pesquisámos por coisas que nos vão ajudar a combater o cancro ou o Alzheimer. Cresci numa quinta e nunca podia ter pensado em estar envolvido em coisas deste género.

Como é que geres as saudades da família? Como é que manténs o teu estado mental em paz?
Estar longe da família e dos amigos é um desafio. Mas uma das características de estar a trabalhar na baixa órbita terrestre é a conectividade que temos, a capacidade de fazer telefonemas. Todas as semanas faço uma vídeochamada com os meus filhos e conto-lhes algumas das coisas que fazemos aqui em cima. Além disso, também quero fazer parte da vida deles e compreender o que se passa na Terra. Temos de partilhar as experiências destes 200 dias e, depois, voltar à Terra e voltar a ser uma família normal. Esses são os desafios. É mais fácil aqui porque as comunicações quase não têm atrasos. Mas à medida que avançamos para dentro do espaço, esses desafios dificultam-se.

Li que os astronautas falam de como olharam para a Terra e perceberam quão insignificantes somos. A tua experiência é igual?
É uma das coisas especiais de estar aqui: é olhar pela janela e ver a Terra por baixo de nós. À vista desarmada podemos ver os círculos nas plantações no Kansas ou em Missouri. Podemos ver os sinais da humanidade debaixo de nós. Temos esta perspetiva de estar longe da Terra. Depois, podemos ver a Lua a nascer pelo horizonte e temos esta ideia: “Eu não estou na Terra e também não estou na Lua, mas estou no cosmos”. Essa perspetiva é muito desafiante. Estamos a olhar para todas as coisas que alguma vez conhecemos e cria-se uma apreciação muito profunda do quão grande o universo realmente é. Isso fez-me apreciar ainda mais quão delicada é esta ilha onde vivemos.

Agora, a pergunta mais importante de todas: quem controla a aparelhagem?
Nós temos uma playlist rotativa e fazemos turnos. É porreiro porque temos italianos e russos a bordo, por isso podemos ouvir algumas músicas tradicionais da Rússia ao jantar. É uma exposição incrível porque nos ajuda a apreciar esta sensação de internacionalização da nossa equipa.

Sim, mas aposto que alguém já pensou: “Quem me dera que o Nick não pusesse mais música country…”
De certeza que sim. É isso e parar de dizer piadas secas.

Como é que te consegues manter sempre na mesma posição? Tens apoios para os pés?
Sim, tenho os pés presos a uns apoios. E também os tenho no teto, se quiser. Há pouco falámos sobre os efeitos para o corpo de viver aqui em cima… Eu já não tenho calos nos pés porque já não preciso deles para a andar. Mas agora tenho-os mais nos dedos maiores porque estou constantemente a pendurar-me em coisas com os dedos grandes para me segurar. É uma daquelas coisas estranhas em que não se pensa quando se está na Terra, depois chega-se cá a cima e… Uau, o corpo vive em constante adaptação e o espaço muda tudo.

Vocês já estão a utilizar impressoras 3D aí?
Sim, sem dúvida, já experimentámos usar impressoras 3D para construir peças que nos podem ser úteis aqui na Estação Espacial, mas também para o Programa Artemis. Coisas como ferramentas e coisas que podem ser mais fáceis se forem impressas. É uma vantagem porque assim não temos de levar todas as coisinhas de que precisamos para uma viagem até à Lua ou para ainda mais longe, Marte. Uma das ideias mais interessantes em que pensámos foi em imprimir órgãos. Já fizemos músculo cardíaco, veias. Pusemos tinta na máquina e vimo-la transformar aqui em tecidos.

Por favor, conta-me: como é andar no espaço?
Quando vestimos o nosso fato e embarcamos pela escotilha, a primeira coisa que vemos é a Terra. É uma perspetiva diferente da que se tem quando se está dentro da Estação porque o capacete quase que dá uma vista panorâmica de 180 graus. Esquecemo-nos muito rapidamente que há alguma coisa entre nós e o vácuo do espaço. O único barulho que se ouve é um discreto murmurar na ventilação que cria ar fresco atrás da nossa cabeça para o sistema de suporte à vida. De repente, dás por ti e estás a trabalhar, a concentrar-na na tarefa com a equipa que está em Terra. Houve um momento espacial em que estava à frente da Estação a preparar-me para entrar. Olhei para cima e vi a curva da Terra. E terra debaixo dos meus pés. E senti a velocidade da estação. As emoções tomam conta de nós.

Nick, última pergunta. Quem é mais credível: Clooney ou Pitt?
Tu és, sem dúvida nenhuma!