Para Marques Mendes, o grande tema nacional da semana foi o caso Tancos, que não deixa quase ninguém incólume: foi “muito mau” para as Forças Armadas, para o Governo, para António Costa e para o Partido Socialista, apontou o comentador, no seu espaço semanal na SIC. E acrescentou: “O Partido Socialista dizer que isto é conspiração do Ministério Público (MP) não faz sentido e é mesmo um gesto de delírio e sinal de desespero. Toda a gente sabe que o MP não tinha alternativa a fazer esta acusação em campanha eleitoral, há prazos legais a cumprir, há arguidos presos, tinha de ser”.

Se o PS quiser queixar-se não é do Ministério Público [que se deve queixar], é do comportamento do seu ex-governante”, Azeredo Lopes, apontou o antigo líder do PSD .

Também as Forças Armadas, acrescentou Marques Mendes, “queixam-se que são desprestigiadas” mas aqui “foram as responsáveis” por uma situação que “acrescenta desprestígio ao desprestígio”. Conclusão: “Só se podem queixar delas próprias”. O processo judicial também afeta o Governo, por ter tido um ex-ministro da Defesa que “não falou completamente verdade ao Parlamento, terá omitido questões essenciais ao primeiro-ministro [PM] e terá compactuado numa tramóia, segundo o que consta da acusação”, disse o líder laranja.

Por último, o caso afeta António Costa mesmo que o PM não tenha estado a par do processo de recuperação ilegal das armas, defendeu Marques Mendes. Afinal, num primeiro plano, foi o líder socialista “quem escolheu Azeredo Lopes” para ministro da Defesa. Acresce que “ainda não teve uma palavra para criticar ou pelo menos para se demarcar. Deveria ter dito: ‘se for verdade, é inaceitável’. Deu cobertura”.

Governo do PS com PAN? “Provável” mas “tipo queijo limiano”

Também a campanha eleitoral — e a recente aproximação do Partido Social-Democrata ao Partido Socialista nas sondagens — mereceu um comentário de Marques Mendes. Por um lado, essa aproximação favorece os dois grandes partidos (por fomentar a ideia de voto útil e por dar a impressão de que nada está decidido) e prejudica os pequenos partidos, entende o comentador. Por outro, torna a maioria absoluta do PS mais improvável, pelo que lhe restarão três opções para formar Governo, se vencer com minoria:

  1. Governo minoritário do PS com “acordo de incidência parlamentar feito com o PAN”, caso os dois partidos elejam pelo menos 116 deputados. Será, diz Marques Mendes, uma solução que “talvez possa ser muito provável”, porque “para o PS é uma solução baratinha — não tem de dar grandes concessões — e provavelmente o PAN também gosta”. O que não seria era um Governo credível, na opinião do ex-líder laranja: “Faz-me lembrar até um Governo tipo queijo limiano [referência ao Orçamento do Estado de 2001, que ficou conhecido como “Orçamento do Queijo Limiano”], pouco credível e pouco consistente”
  2. Governo minoritário do PS, sem acordos com outros partidos para a legislatura. Seria “aquilo que fez António Guterres e o que fez Sócrates no segundo Governo”, lembrou Marques Mendes. Para o antigo líder do PSD, também não seria boa: “Seria uma solução precária, daria a impressão que pode cair a qualquer momento, vai lançar a ideia permanentemente que os Orçamentos podem chumbar e [o Governo] pode entrar em crise”
  3. Nova Geringonça. É o cenário “mais difícil”, mais improvável, antevê Marques Mendes. Por os seguintes motivos: “O quadro que se vive vai ter uma fatura muito elevada para o PS. O PCP, podendo esvaziar-se nas urnas, vai querer compensar com exigências fortes. O BE vai tentar vingar-se [das críticas feitas por António Costa ao partido bloquista], impor um caderno reivindicativo muito pesado, tentar fazer a vida negra ao PS”.

Discurso de Greta Thunberg: “Quase a tocar o fanatismo”

Foi um dos discursos mais polémicos da semana e nem Luís Marques Mendes deixou de comentá-lo. No seu espaço opinativo semanal na SIC, o antigo líder do PSD e atual Conselheiro de Estado diz acompanhar as “intervenções” de Greta Thunberg, adolescente e popular ativista climática, e por isso não ter dúvidas das suas “retas e boas intenções”. No entanto, o discurso desta ativista na Cimeira do Clima foi “demasiado obsessivo, demasiado radical, quase a tocar o fanatismo e o fundamentalismo”, entende Luís Marques Mendes.

Foi exagerado e tudo o que é demais… pode ser autêntica, acredito que seja, mas um discurso tão radical, tão fanático, retira-lhe autenticidade. Os fanatismos nunca são bons”, disse ainda.

Apesar de não ter gostado do discurso da adolescente sueca, Marques Mendes defendeu o “mérito incalculável” de um dos seus feitos: “Em poucos meses, conseguiu fazer o que muitas personalidades e organizações governamentais durante anos não conseguiram: colocar a questão do clima na agenda mundial. O mundo inteiro está a mobilizar-se nesta questão”.