Há 15 anos, em Crystal Palace, Dina Asher-Smith integrou a lista de participantes de um corta-mato para crianças. Com oito anos, foi incentivada pelo professor de Educação Física, que garantia que a então criança era tão boa nas provas de velocidade como nas de distância. Pediu para desistir a meio mas terminou o percurso porque os pais lhe prometeram um gelado no final. Ficou a detestar corta-mato: mas percebeu que gostava de correr, de competir e, sobretudo, de ganhar. 15 anos depois, no Qatar, Dina Asher-Smith tornou-se a primeira britânica a conquistar uma medalha de ouro em Mundiais ou Jogos Olímpicos em provas de velocidade.

Ao terminar a final dos 200 metros em primeiro nos Mundiais de Doha, onde acabou por bater o próprio recorde nacional, a atleta de apenas 23 anos entrou diretamente para a história do desporto do Reino Unido. Mas foi naquele corta-mato em Crystal Palace, quando ainda era uma criança, que Dina Asher-Smith acabou por conhecer o homem que se tornou preponderante na sua carreira. John Blackie, que acompanha a velocista desde sempre, estava a assistir à prova infantil e interpelou os pais de Asher-Smith logo depois do cortar da meta, garantindo que a britânica tinha tudo para se tornar uma atleta de alta competição. “O meu treinador é como família para mim. Muitas pessoas questionam-se sobre ele, porque não é o tipo de pessoa que procura os holofotes e quer atenção extra. Ele é feliz com ele mesmo e encontra alegria em apoiar os outros e ajudá-los a cumprir o potencial que têm. É humilde e amável e eu adoro-o”, confidenciou a atleta há algum tempo, na coluna que escreve regularmente para o jornal Telegraph, onde revelou ainda que considera John Blackie um “segundo pai”.

A atleta com John Blackie, o treinador que diz ser “da família”

Além do ouro nos 200 metros, Dina Asher-Smith foi prata nos 100 metros e confirmou as boas indicações que tinha deixado não só nos Europeus do ano passado — onde venceu as duas provas e ainda a estafeta 4×100 — como nos Jogos Olímpicos do Rio, onde esteve com apenas 20 anos, conquistando a medalha de bronze na estafeta com a equipa do Reino Unido e ficando em quinto nos 200 metros. Numa altura em que falta um ano para os Jogos de Tóquio, Asher-Smith garantiu em Doha que é uma das candidatas às medalhas nas provas femininas de velocidade e que é desde já o próximo grande nome do atletismo britânico. “No que toca ao desporto no Reino Unido, ela pode mesmo mudar as coisas. Não tínhamos ninguém assim desde os tempos do Greg Rutherford, da Jessica Ennis-Hill e do Mo Farah. A Dina está a puxar a equipa toda para cima”, disse Naomi Ogbeta, campeã inglesa do triplo salto, à BBC.

Esta quarta-feira, no Qatar, a atleta que terminou o primeiro corta-mato da carreira porque lhe prometeram gelado foi de ouro. E nem queria acreditar. “Isto significa tanto. Hoje acordei a pensar: ‘É agora’. Este era o momento para o qual sempre trabalhei. De repente, todo o cansaço desapareceu. Toda a gente disse que era a favorita mas mesmo assim ainda tinha de ir para lá e correr. Estava focada nisso. Sonhei com tudo isto e agora é real. Estou a ficar emotiva, estou muito feliz. Normalmente falo muito e tenho muita energia mas hoje não tenho palavras. Toda a gente continua a dizer ‘campeã do mundo’, ‘título mundial’, mas ainda não me bateu e, honestamente, acho que nunca vai bater”, disse Dina Asher-Smith apenas minutos depois de correr 200 metros em 21 segundos e 88 milésimos.