A caravela portuguesa Vera Cruz atracou já no porto de Sevilha, quatro dias e três noites depois de ter zarpado de Setúbal, para celebrar e divulgar em Espanha os 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães e Sebastián Elcano. A bordo da caravela, a Lusa acompanhou a viagem comandada por José Inácio, marinheiro experiente e de pele curtida pelo sol, que chegou até a “beijar” o Estreito de Magalhães, navegando à vela até à Antártida.

Com 21 tripulantes e dois cães — o Sebas e a Lua, que entre si contam com 14 anos de experiência náutica combinada — a Vera Cruz partiu de Setúbal ao som do “grito de guerra” do imediato Felipe Costa, que consiste em berrar “Orça”, o ato de navegar contra o vento, que todos os navegantes repetem três vezes, perante acenos de quem fica em terra.

A rotina a bordo da caravela é dividida em quartos, que em contexto náutico significam turnos de trabalho, normalmente de quatro ou três horas, dedicados a tarefas que vão de limpar casas de banho e louça, ao içar das velas de genoa — a dianteira, inovação portuguesa que permite navegar com segurança sob ventos desfavoráveis — vela grande e de mezena, para além de manobrar o leme.

Isentos dos quartos estão só o comandante, o imediato e o cozinheiro, Eugénio Ribeiro, de cognome “Conde da Gávea”, nome moderno para o cesto do topo da vela grande, que antigamente tinha o nome técnico de “caralho”, que deu origem à expressão “Vai para o…”, porque seria desconfortável.

A expedição de Magalhães teve objetivos comerciais e políticos, mas também científicos, ao jeito da viagem de Charles Darwin no “Beagle”, contando também com encarregados de capturar ou colher espécimes vegetais, animais e humanos ao longo das paragens. No Vera Cruz, apenas Alice, de 20 anos, foi colhendo amostras de água de mar e rio para medir os níveis de amónia e salinidade, numa investigação ambiental requerida pelo curso de Biologia Marítima da Universidade de Lisboa.

Para além da celebração de meio milénio de verdadeira globalização, a viagem do Vera Cruz, orçada pela Associação Portuguesa de Vela (APORVELA), parte também de ímpetos de ação social, a partir da instrução e formação de jovens oriundos de contextos menos dados à disciplina que o navegar exige.

“Nós acreditamos que fazemos viagens que mudam vidas”, diz à Lusa o imediato Felipe Costa, “já ganhámos vários prémios sociais com projetos que fizemos na área do Mar, já embarcámos milhares de jovens ao longo destes quase 40 anos da APORVELA, e eles percebem que há muito mais mar que aquele que veem na praia. Crescem através da disciplina náutica e descobrem também um novo mundo, para além daquele a que estão habituados”, conta com orgulho, a um dia do rio Guadalquivir.

Em quartos de noite limpa e lua nova, dedicados sobretudo ao leme, a Vera Cruz rasga as ondas num triângulo de fitoplâncton luminescente, uma esteira de pontos de luz que tenta esbater o horizonte — vasto — entre a Via Láctea e o mar.

Se uma onda varre o convés, também o contamina de pontos de luz e, por meio segundo, o chão de madeira da nave é só mais um espelho do espaço.

“É engraçado que com esta tecnologia toda seja mais difícil, hoje, navegar à noite que nos tempos de Magalhães”, comenta o comandante Inácio, “só porque o tráfego marítimo é muito maior. Agora é preciso muito mais medidas de segurança para não bater em ninguém, ou em bóias”, ensina, em noite de calor pré-mediterrânico.

Quando o mar é revolto e se tenta dormir, é possível ouvir tripulantes em beliches do porão a gritar impropérios análogos a “Gávea!”, quando batem com a cabeça na parede.

Quase tudo o que se sabe da primeira viagem de circum-navegação global provém do cronista Antonio Pigafetta, italiano abordado à última da hora, que teve a sorte de ter sido transferido para a nau Victoria, a única sobrevivente das cinco que de Sevilha partiram a 10 de agosto de 1519 , com apenas 18 dos quase 250 tripulantes que partiram.

“Leva a pensar o quanto se terá perdido com os cronistas que não voltaram”, pondera o comandante José Inácio, concluindo que “depois aparecem terras chamadas Adelaide no meio da Austrália e ninguém sabe porquê…”

Para além de provar sem sombra para dúvidas que a Terra é redonda, a expedição de Magalhães e o calendário rigoroso de Pigafetta permitiram confirmar que o planeta roda sobre o próprio eixo e que é possível, viajando a contraciclo, largar de um porto num dia e chegar a outro no dia anterior.

A poucas horas de Sevilha e ao quarto dia de viagem, a Vera Cruz chegou a Sanlúcar de Barrameda, tal como Sebastián Elcano, já enquanto comandante do único navio sobrevivente da expedição que votou Fernão de Magalhães a uma morte inglória – trespassado por lanças de guerreiros filipinos na ilha de Mactán.

Eis que a caravela portuguesa encontra a Victoria, réplica homónima da nau que confirmou a circum-navegação, de tripulação inteiramente espanhola, e com a qual ficará duas semanas aberta ao público no porto de Sevilha, para que se veja as condições em que se deu a volta ao mundo e ao passado.

Ao cruzar das embarcações, o imediato lança o grito de saudação, a que a tripulação que largou de Setúbal – incluindo dois cães de patas dianteiras no talabardão, ou borda do convés – respondem, qual reflexo condicionado:

“Orça! Orça! Orça!”

A viagem da Vera Cruz a Sevilha, ao sabor do vento e com GPS, enquadra-se numa série de celebrações dos 500 anos da primeira circum-navegação, ao abrigo do programa de cooperação INTERREG Espanha-Portugal POCTEP 2014-2020, que envolve também a autarquia de Sevilha, a Universidade de Évora, a Direção-Regional de Cultura do Alentejo e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.