Título: Augustus
Autor: John Williams
Editora: Dom Quixote
Páginas: 360
Preço: 17,90€

O quarto e último livro de John Williams, e único a trazer-lhe algum reconhecimento em vida, move a acção para bem longe do centro dos seus romances anteriores, deslocando-a dos Estados Unidos seus contemporâneos para o Império Romano na era de César Augusto. Em tudo diferente dos extraordinários Stoner e Butcher’s Crossing, a história do sucessor de Júlio César é contada a partir de memórias, correspondências, diários e libelos de personagens que o rodearam, sendo apenas nas últimas páginas que temos acesso ao testemunho directo do Imperador, sob a forma de uma carta escrita poucos dias antes da sua morte.

Augustus tem uma estrutura trinitária, sendo essa trindade visível, em primeiro lugar, pela divisão do romance em três pequenos livros (a primeira parte sobre a ascensão de Augusto, a segunda sobre o exercício do seu poder depois da pacificação de Roma e a terceira dedicada à perspectiva do próprio sobre a sua vida), mas, mais relevantemente, pelo facto de o romance se parecer centrar à volta de três conceitos principais que Williams procura compreender: a ordem, o poder e a identidade.

A Ordem

Talvez não exista virtude mais facilmente associável ao Império Romano no seu apogeu do que a ideia de ordem. No entanto, em Augustus, essa ordem surge como uma mera aparência, sendo que por debaixo dessa ordem se esconde o caos absoluto. Desde a primeira carta do livro, escrita por Júlio César à mãe de Caio Octávio (ou, como viria mais tarde a ser conhecido, César Augusto), percebemos que, dentro do Império Romano, a fronteira entre amigos e inimigos, aliados e adversários, familiares e rivais é ténue e difícil de traçar. Depois do assassinato de Júlio César, estas distinções tornar-se-iam ainda mais difusas, uma vez que Augusto jura vingança enquanto se alia aos assassinos do seu tio para combater politicamente Marco António, que passava por amigo do falecido Imperador.

O Ovídio williamsiano resume este problema de forma perfeita numa carta a Sexto Propércio quando explica que as tão apregoadas virtudes humanas, mais do que contribuírem para o engrandecimento dos homens, apagam a sua humanidade (“aquelas velhas ‘virtudes’ de que o romano se professa tão orgulhoso e sobre as quais, insiste ele, a grandeza do Império está assente – parece-me cada vez mais que essas ‘virtudes’ de posição, prestígio, honra, dever e devoção simplesmente desnudaram o homem da sua humanidade” [p.278]). É também para isto que Augusto aponta quando afirma que nunca teve qualquer apreço pela humanidade em geral, mas que admirara apenas os momentos em que a ordem se mistura com a desordem, a força com a fraqueza, a coragem com a cobardia, porque só nesses momentos em que os homens se revelam pequenos, frágeis e eternamente errados a humanidade se livra do manto da ordem e se revela, de facto, humana (“a humanidade no seu conjunto sempre a achei bruta, ignorante e cruel (…) e, no entanto, nos homens mais fracos, em momentos em que estão sós e são eles próprios, encontrei veios de força como ouro em pedras a esboroarem-se” [p.325]).

O Poder

Na sua carta, Augusto explica também que existe um tipo particular de amor, presente em todas as outras formas de amor, que é mais potente e duradouro do que a amizade ou o amor carnal: o amor ao poder. As relações de Cleópatra e Marco António, de Júlia com Julo António, de Ovídio com a retórica são todas elas, segundo Williams, manifestações de desejo de poder. Mesmo a ida da mãe biológica de Júlia para o exílio é descrita não como devoção maternal e altruísmo absoluto, mas apenas como uma tentativa de obter um triunfo final sobre a sua vida e sobre a sua desventura, como a busca de “uma condição que lhe confirme mais uma vez o seu desprazer com a existência” (p.184). Não é, por isso, estranho que, no seu diário do exílio, Júlia afirme que o que retirou o encanto ao seu mundo não foi ter sido expulsa de Roma, afastada dos seus filhos ou condenada ao degredo pelo próprio pai, mas ver-se forçada a viver num mundo sem poder: “é estranho aguardar num mundo sem poder, onde nada tem importância. No mundo de onde vim, tudo era poder; e tudo importava. Amava-se até por poder; e a finalidade do amor tornava-se não a sua própria alegria mas a infinidade de alegrias do poder” (p.244).

Identidade

A descrição do homem como esta criatura instável dominada por uma vontade de um poder que nunca alcança é usada por John Williams para tentar compreender o que de mais essencial constitui a experiência humana e o que é que, no meio de todo este caos existencial, nos confere uma identidade. Na interessante introdução que a Dom Quixote acrescentou à edição de Augustus, Daniel Mendelsohn cita uma passagem de Butcher’s Crossing em que um dos companheiros de expedição do protagonista diz: “Acabei por acreditar que na vida de cada homem, mais tarde ou mais cedo, há um momento em que ele tem consciência, para além de tudo o mais que possa compreender e independentemente de conseguir articular essa consciencialização, do terrível facto de que está sozinho, e separado, e que não pode ser mais nada não ser a pobre coisa que é ele próprio”. Esta afirmação parece distar radicalmente do que Augusto afirma quando sugere que cada pessoa começa, na juventude, por ver a vida como uma aventura épica, para depois a ver como uma tragédia até que envelhece e passa a encará-la como uma comédia, já que “os seus triunfos e os seus fracassos fundem-se, e uns não são mais motivo de orgulho ou de vergonha do que os outros; e ele não é nem o herói que dá provas de si contra essas forças nem o protagonista que é destruído por elas. Como qualquer pobre e lastimável carapaça de ator, acaba por ver que desempenhou tantos papéis que já não há um eu” (p.327). Poderia, à primeira vista, parecer que Williams está aqui a sugerir o contrário do que propôs quando escreveu que a única coisa a aprender com o mundo é que não podemos evitar ser nós próprios. No entanto, Williams não nega no seu romance derradeiro que exista uma identidade forte em nós, diz apenas que esse eu não é apreensível pelos papéis que vamos desempenhando nesta triste comédia, mas antes pela criatura desgraçada que, no fim da peça, se senta nos bastidores a respirar fundo enquanto retira a maquilhagem para regressar, enfim, a casa.

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