As contas, apesar de tudo, além de tudo e pelo meio de tudo, são fáceis de fazer. De 1986 a 2008, o AC Milan conquistou oito ligas italianas, uma Taça de Itália, cinco Supertaças de Itália, cinco Ligas dos Campeões, cinco Supertaças Europeias, uma Taça Intercontinental e um Mundial de Clubes. Esse período de 22 anos, em que o clube de Milão foi constantemente tanto uma potência dentro do próprio país como no continente europeu, coincidiu com a liderança de Silvio Berlusconi. O antigo primeiro-ministro italiano, que é deputado europeu desde as últimas eleições, foi oficialmente dono do AC Milan até 2017 mas já não estava à frente dos desígnios do clube nos dez anos anteriores, depois do escândalo de corrupção Calciopoli.

De lá para cá, as contas tornam-se ainda mais simples. Desde que Berlusconi deixou de controlar o destino do clube italiano, só entraram no museu do AC Milan dois Scudettos e duas Supertaças. Claro que um facto não pode ser diametralmente relacionado com o outro — existem dezenas de outros fatores, como o período hegemónico de José Mourinho no Inter, a superioridade inequívoca da Juventus nos últimos oito anos, o fortalecimento de equipas teoricamente inferiores como o Nápoles, a Atalanta e a Sampdoria e a impossibilidade de competir a nível financeiro com os clubes que lutam pelas competições europeias. Mas para milhões de adeptos do AC Milan, a saída de Silvio Berlusconi da liderança do clube ainda representa um ponto de viragem negativa e entrada num vórtice descendente.

Com Paolo Maldini, o grande símbolo da história recente do AC Milan

Nos últimos dez anos, o AC Milan teve 11 treinadores. Nos dez anteriores, tinha tido quatro (Carlo Ancelloti, sozinho, foi o dono do comando técnico da equipa durante nove temporadas). A viver atualmente um período de instabilidade como há muito já não se via em San Siro — Marco Giampaolo foi despedido quatro meses depois de chegar e deixou o clube em 13.º, com nove pontos, menos dez do que a Juventus e menos nove do que o Inter, e a violação do fairplay financeiro afastou a Liga Europa –, os adeptos olham para o tempo de Gullit e Van Basten, Maldini e Nesta, Gattuso e Pirlo como se de pré-história se tratasse. E quando essa caixa de Pandora se abre, a caixa de Pandora que leva à nostalgia e à saudade sem reservas (ou seja, que branqueia as páginas más e só recorda as fases boas), abre-se também o caminho para vozes que trazem conforto e consolo.

Este fim de semana, Silvio Berlusconi foi essa voz que traz conforto e consolo. Dois anos depois depois de ser confirmada a venda do clube a investidores chineses, o antigo presidente e dono do AC Milan deu uma entrevista à TeleLombardia e explicou rapidamente qual é a solução: “Como recuperar o grande Milan do passado? É fácil, mas ao mesmo tempo é difícil de conseguir. Devolver o clube a Silvio Berlusconi”, atirou o empresário de 83 anos, que também não teve reservas em responder ao atual CEO rossoneri. Ivan Gazidis, responsável pela área financeira que trabalha diretamente com o atual presidente Paolo Scaroni, justificou os resultados sofríveis do AC Milan nas últimas épocas com o facto de os dirigentes terem sido obrigados “a salvar o clube da bancarrota e da queda para a Serie D”. “Há frases que só devem ser ditas numa casa de banho e com a porta fechada”, comentou Berlusconi.

Com ou sem casa de banho, a verdade é que o antigo líder do AC Milan surgiu no meio do nevoeiro para se apresentar a ele próprio como solução para uma situação inesperada naquele que foi um dos clubes mais bem sucedidos da Europa nos anos 90 e no início do novo milénio. Berlusconi, que em Itália é conhecido como Il Cavaliere, O Cavaleiro, graças à Ordem de Mérito que recebeu, quer ser o salvador de uma pátria que já foi sua e onde o seu reinado é ainda o imaginário presente de milhões de adeptos.