O embaixador dos Estados Unidos para a União Europeia, Gordon Sondland, está a ser ouvido esta quarta-feira na Câmara dos Representantes no processo de destituição do presidente Donald Trump (impeachment). E aquilo que afirmou logo na sua declaração inicial foi suficientemente marcante, já que — ao contrário do que tinha dito inicialmente nas declarações ao Congresso à porta fechada —, implicou diretamente o Presidente na estratégia de pressionar a Ucrânia para investigasse Joe Biden e o seu filho, Hunter Biden.

Para começar, Sondland confirmou que a chamada telefónica relatada pelo adido diplomático David Holmes, em Kiev, entre o embaixador e o Presidente num restaurante ocorreu de facto: “A chamada durou cinco minutos. Lembro-me de que estava num restaurante em Kiev e não tenho razão para duvidar de que a conversa incluiu o tema das investigações“, confirmou. Questionado pelo facto de inicialmente ter dito que não se recordava de tal conversa, Sondland diz que o que lhe despertou a memória foi uma referência ao rapper A$AP Rock, que terá sido mencionado na chamada.

Como se não bastasse, o embaixador na UE esclareceu ainda que sabia do backchannel informal que estava a ser levado a cabo pelo advogado pessoal do Presidente, Rudy Giuliani, e declarou que tanto ele como Kurt Volker e Rick Perry (conhecidos entre os democratas como os three amigos) trabalhavam diretamente com Giuliani — que estaria a tentar pressionar os ucranianos a investigarem os Bidens — por instruções diretas de Donald Trump.

Colocando isto de forma simples, jogámos com a mão que tínhamos”, afirmou perante o Comité de Informação da Câmara dos Representantes.

“Todos percebemos que se recusássemos trabalhar com o senhor Giuliani, perderíamos uma oportunidade importante de cimentar relações entre os EUA e a Ucrânia. Portanto seguimos as ordens do Presidente.

O testemunho de Sondland também fez mossa no executivo de Trump por envolver outras figuras do governo, como o vice-presidente Mike Pence e o secretário de Estado Mike Pompeo. “Toda a gente estava informada. Não era segredo nenhum”, garantiu o embaixador na Europa. Essa informação foi mais tarde desmentida pelo gabinete do vice-presidente, que garantiu que Pence “nunca teve nenhuma conversa com Gordon Sondland sobre investigar os Bidens, a Burisma ou a entrega condicional de ajuda financeira à Ucrânia em troca de potenciais investigações”.

Por fim, Sondland não teve pejo em afirmar que crê que o objetivo da retenção da ajuda militar à Ucrânia se devia à exigência de Giuliani que os Bidens fossem investigados, estabelecendo diretamente o tal quid pro quo: “Na ausência de qualquer explicação credível para a suspensão da ajuda, mais tarde passei a acreditar que o fim da ajuda militar ocorreria, a não ser que houvesse uma declaração pública da Ucrânia a comprometer-se com as investigações às eleições de 2016 e à Burisma [empresa de Hunter Biden], como o senhor Giuliani exigia.” Estas informações contradizem o testemunho inicial feito por Sondland à porta fechada — que o próprio pediu para corrigir duas vezes e que agora volta a contradizer.

Donald Trump sobre Sondland: “Não o conheço assim tão bem”

Do lado republicano, as questões colocadas por Devin Nunes e o advogado de defesa começaram por focar que as ações do Presidente decorreram apenas para tentar perceber como é que a Ucrânia pode ter sido palco de campanhas para prejudicar Donald Trump nas eleições de 2016: “Eles estavam a tentar prejudicar Trump”, afirmou Nunes. “E não conseguem compreender que o seu advogado tenha tentado ir lá para tentar chegar ao fundo da questão”, acrescentou, referindo-se a Giuliani.

Já o advogado de defesa, Stephen Castor, tentou insistir que a ideia de que a ajuda militar seria apenas concedida em troca da investigação aos Bidens e ao envolvimento de ucranianos na campanha de 2016 (o tal quid pro quo) não foi estabelecido diretamente por Donald Trump. “Não vou caracterizar se [o Presidente] acreditava nisso ou não. Só estou a tentar dizer o que me pareceu que ele disse ao telefone”, explicou Sondland.

Já o Presidente, por seu turno, desvalorizou o testemunho de Sondland. “Não o conheço assim tão, não falámos assim tanto. Este não é um homem que eu conheça bem”, afirmou. “Mas parece um bom tipo.” Questionado anteriormente sobre se teve a conversa telefónica com Sondland mencionada pelo adido David Holmes, Trump tinha-se limitado a responder que não se lembrava de tal ter acontecido.

A declaração de Trump ficou ainda marcada pelo papel que transportava consigo e cujo conteúdo foi captado pelos fotojornalistas presentes no local, em letras garrafais: “Não quero nada. Não quero nada. Não quero nenhum quid pro quo. Diga ao Zelenski [sic] para fazer a coisa certa. Esta é a última palavra do Presidente dos EUA.” Segundo o Presidente, isto foi o que já tinha dito diretamente a Sondland.

Sondland já era tido como testemunha-chave antes da audição

Para o antigo procurador do escândalo Watergate, que levou ao processo de destituição do então Richard Nixon, esta audição de George Sondland tinha potencial para ser “prejudicial” para o agora presidente dos Estados Unidos, disse Nick Akerman à CNN.

“Sondland vai contar a história toda, com documentos detalhados e com muitas testemunhas a corroborar. Não há dúvidas de que [a Administração Trump] tentou que o Governo ucraniano anunciasse uma investigação a Joe Biden”, afirmou Akerman. Mais: “Usaram dinheiro aprovado pelo Congresso dos EUA para fazer isso. Suborno puro”.

Em causa estão alegadas pressões de Trump sob a Ucrância, através do seu Presidente Volodymyr Zelensky a quem terá pedido para investigar o potencial candidato às presidenciais de 2020, Joe Biden, e o seu filho. Caso não o fizesse retirar-lhe-ia o apoio militar.

Akerman diz que não resta outra hipótese ao embaixador se não a de “abrir o jogo”, pois caso volte atrás — como já fez — e escudar-se na falta memória das conversas que ouviu e do anúncio de Kiev a uma investigação ao filho de Biden, poderá acabar preso.

“Acabará como Roger Stone numa prisão federal, tendo Roger Stone como companheiro de cela. Ele não quer que isso aconteça”, declarou Akerman.

Stone é um estratega do Partido Republicano e um colaborador de longa data de Trump que, na sexta-feira, foi considerado culpado de mentir aos investigadores da alegada ingerência russa nas eleições de 2016. Foram sete as acusações, mas a sentença só deverá ser conhecida em 2020.

Referindo-se a Sondland, o antigo procurador do Watergate acrescentou: “Se eu fosse o advogado dele, estaria a pressioná-lo bastante para garantir que ele diria tudo o que sabe, toda a pequena prova, para ter a certeza de que ele não iria sacrificar-se por Donald Trump”, disse.

Esta terça-feira foi a vez de as testemunhas do telefonema que  Donald Trump fez a 25 de julho para o seu homólogo ucraniano Volodymyr Zelensky, a pedir a investigação a Biden, falarem na comissão. O especialista para assuntos da Ucrância no Conselho de Segurança Nacional reiterou o que já tinha dito à porta fechada. “Francamente, eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir”, disse, justificando que soube logo que tinha que reportar aquela informação ao gabinete jurídico.

Já Jennifer Williams, o conselheiro para a Europa e Rússia do vice-Presidente Mike Pence, que já ouviu dezenas de conversas entre líderes, disse que considerou aquela conversa “pouco comum e imprópria” pelo que, em cumprimento do seu “dever” a reportou logo a um advogado do Conselho de Segurança Nacional.

Sondland foi também ouvido numa conversa telefónica com Trump em que este terá falado das “investigações” . Depois da chamada, um assessor do diplomata terá perguntado ao embaixador o que pensava Trump da situação na Ucrânia, ao que ele respondeu: “o presidente preocupa-se mais com as investigações a Biden, para as quais o Giuliani tem exercido pressão”. O Giuliani seria Rudy Guiliani, advogado pessoal de Trump.