Na véspera da votação das acusações contra o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump dirigiu uma carta a Nancy Pelosi, líder da Câmara dos Representantes, acusando os democratas de estarem a levar a cabo uma “cruzada partidária de impeachment” com o objetivo de o remover do cargo e negando ter feito alguma coisa de errado.

Na longa missiva de várias páginas, divulgada esta terça-feira pelo The New York Times, Trump protestou contra o processo de impeachment, que classificou como um “abuso de poder inconstitucional e sem precedentes” nos mais de dois séculos de história legislativa norte-americana, considerando que até os acusados nos julgamentos das bruxas Salem tiveram direito a um processo mais justo.

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Admitindo que a carta não irá mudar o resultado da votação desta quarta-feira, o presidente explicou que decidiu enviá-la por razões históricas e para deixar por escrito as suas ideias sobre o assunto. Donald Trump — que terá começado a preparar a missiva na semana passada, segundo a CNN — disse também não ter dúvidas de que Pelosi e os democratas serão responsabilizados pelos resultados das próximas eleições legislativas, agendadas para 2020, se andaram para a frente com “esta charada”.

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“Não tenho dúvidas de que os americanos vão responsabilizá-la a si e aos democratas pelo resultado das eleições de 2020. Não vão perdoar a vossa perversão da justiça e abuso de poder”, declarou o presidente, alertando: “A História vai julgar-vos severamente se procederem com esta charada”.

A Câmara dos Representantes vai votar, nesta quarta-feira, os artigos de impeachment contra Donald Trump. O Comité Judiciário do organismo reuniu-se esta terça-feira para decidir os parâmetros do debate. Segundo uma análise feita pelo The Washington Post, os democratas contam ter votos necessários para avançar com o processo de destituição do presidente. Se os artigos forem aprovados, o Senado irá julgar se Trump deverá ou não ser removido do cargo de presidente.

Em causa estão acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso no caso de alegadas pressões junto do governo ucraniano para a abertura de uma investigação a Hunter Biden, filho de Joe Biden, seu rival político.

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Trump terá telefonado ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, pressionando-o para que investigasse a atividade de Hunter Biden junto de uma empresa ucraniana envolvida num esquema de corrupção. Os democratas alegam que o presidente norte-americano procurou reter um pacote de ajuda financeira até que Zelenskiy anunciasse essa investigação, o que constitui um abuso do exercício de poder.

O Comité Judiciário da Câmara dos Representantes considera ainda que o Donald Trump tentou dificultar a investigação no caso ucraniano, omitindo documentos e impedindo o depoimento de vários assessores da Casa Branca, o que constitui obstrução ao Congresso, igualmente passível de destituição.

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Nancy Pelosi: carta de Donald Trump é “ridícula”

Numa primeira reação à carta do presidente norte-americano, a líder da Câmara dos Representantes considerou-a “ridícula”. Questionada sobre a missiva, a democrata Nancy Pelosi admitiu que ainda não conseguiu lê-la na íntegra porque tem estado a trabalhar, mas que tem uma ideia geral do seu conteúdo. “É realmente doentia”, afirmou, citada pela CNN.

Kim Driscoll, mayor de Salem: “Aprenda alguma História”

A presidente da câmara de Salem, Kim Driscoll, respondeu a Donald Trump, que comparou o processo de impeachment com os julgamentos das bruxas de Salem, escrevendo no Twitter que o presidente devia aprender “alguma história”.

Lembrando que o caso remonta ao ano de 1692 e que a situação atual é “muito diferente”, a mayor apontou que as vítimas de Salem “foram condenadas usando evidências espectrais” e “brutalmente enforcadas ou esmagadas até à morte”, num “processo legalmente dúbio que não tem qualquer semelhança com o impeachment transmitido pela televisão”.

Ao contrário do que aconteceu no século XVII na localidade do estado do Massachusetts, existe “ampla evidência” no caso ucraniano, afirmou Driscoll.

Artigo atualizado pela última vez às 23h47