A madrasta de Kyle Hui, arquiteto de 32 anos, morreu na semana passada, vítima da nova estirpe do coronavírus. O homem recorreu à rede social Weibo (semelhante ao Twitter), para denunciar o caso — e revelar que a sua madrasta nunca foi formalmente submetida a um teste para detetar o vírus. Hui mostrou ainda preocupação com a possibilidade de o governo de Wuhan, a cidade onde o surto eclodiu, estar a esconder os casos. Pouco tempo depois, a sua publicação desapareceu.

As pessoas acusam-me de espalhar rumores, mas estou apenas a tentar contar a história da minha madrasta”, disse numa entrevista.

Kyle Hui não é caso único. Segundo o The New York Times, as autoridades chinesas estão a investigar pelo menos oito pessoas, que suspeita de estarem a “distribuir rumores online” e “notícias falsas”. Até ao momento não houve detenções.

O mesmo jornal revela ainda que o país colocou em prática um programa de censura na internet. E os resultados já se fazem notar: várias mensagens sobre o vírus desaparecerem das redes sociais, muitas notícias foram apagadas. Os serviços secretos chineses estão a monitorizar a hashtag #WuhanSARS, que foi criada pelos utilizadores para discutir o tema e partilhar notícias sobre o vírus.

Ao mesmo tempo que as autoridades eliminam mensagens, as páginas oficiais do governo publicam as suas versões sobre a situação e declarações oficiais como resposta ao que apelidam de  “rumores”.

O governo e as autoridades chinesas têm sido criticados nos últimos dias pela forma como reagiram tardiamente ao surto. Durante várias semanas, o governo tratou a doença como um problema isolado de Wuhan. Só depois de os meios de comunicação social de Hong Kong começarem a dar nota de casos detetado noutros locais é que o governo começou a dar conta de que a doença estava, afinal, a alargar-se a outras cidades.

Só na segunda-feira, a comissão de saúde da China disse que responderia com medidas para gerir o surto. O atraso na divulgação de notícias sobre a doença foi atribuído a “desafios tecnológicos como burocracia”: alguns hospitais não tinham kits de testes, outros foram obrigados a submeter os testes à Comissão Central de Saúde de Pequim para revisão antes de os resultados se tornarem públicos.

O receio é agora de que, ao tentar controlar a divulgação de informação, o governo esteja a prejudicar os esforços em controlar o vírus.

“A resposta não é rápida o suficiente, não é forte o suficiente”, disse Shen Zhengjiang, um professor que na terça-feira procurava máscaras faciais numa farmácia em Wuhan. Yanzhong Huang, diretor do Centro de Estudos de Saúde Global na Universidade de Seton Hall, considera que o governo falhou numa fase inicial. “Este padrão de falta de transparência e inação infelizmente não mudou”, disse.