A reação de Fernando Madureira no final do empate do FC Porto em Vila do Conde frente ao Rio Ave, em abril de 2019, dizia muito da panela de pressão que se tinha tornado a bancada dos adeptos azuis e brancos: depois de uma vantagem de sete pontos desperdiçada, os dragões perdiam mais dois pontos antes da deslocação do Benfica a Braga, apenas dois dias depois (que terminaria com goleada dos encarnados por 4-1) e o líder da claque Super Dragões chegou-se à frente, tirou a camisola e atirou para o relvado quando a equipa se aproximou da bancada para uma saudação e disse aos restantes para que não batessem palmas. Acabara ali o clima de romance.

Se querem assobiar, que me assobiem a mim. Vou embora no final da época, não há problema. Sou eu que treino os jogadores, se há algo negativo a acontecer é o treinador que paga, tenho de assumir a responsabilidade. Se não fizer bem o meu trabalho, pego nas minhas malas e vou embora, não há problema absolutamente nenhum”, referiu após esse empate em Vila do Conde.

Quando chegou ao Dragão no verão de 2017, o discurso de Sérgio Conceição, por trazer muitos traços daquela que era uma espécie de identidade perdida capaz de falar “à Porto” para os adeptos, criou uma química quase imediata com as bancadas, que seria consolidada com a conquista do Campeonato (e uns meses depois da Supertaça). Na época seguinte, uma quebra a meio da temporada acabou por ser determinante marcante em termos de título e, a seguir a esse encontro com o Rio Ave, houve uma receção tensa na goleada ao Desp. Aves (4-0) onde o plantel, que fez a habitual roda no meio, regressou dos balneários para falar com a claque – o que, apesar de algumas palavras mais acaloradas em determinados momentos, trouxe alguma serenidade à relação.

A derrota na final da Taça de Portugal colocava a nova temporada como um momento importante para voltar ao caminho da primeira época mas o empate na Madeira frente ao Marítimo, numa fase onde a qualidade exibicional da equipa já era criticada, levou Sérgio Conceição à “explosão”. “No fim, gostamos de receber palmas quando ganhamos, mas também gostamos que reconheçam essa determinação que temos no jogo quando perdemos. Todos juntos somos muito fortes. Sei que para as redes sociais é fantástico, vão insultar-me… Estou a marimbar-me para isso. Estou a cagar-me para isso, como se costuma dizer. Estou com vontade de dizer isto: estou a cagar-me para isso. Estou focado na minha equipa e em lutar para ser campeão outra vez este ano”, disse.

Mais recentemente, no seguimento de alguns pequenos episódios como os “recados” deixados ao técnico depois de terem sido divulgadas imagens e vídeos da festa after hours de aniversário da mulher de Uribe para que punisse os quatro sul-americanos “apanhados” (além do médio colombiano, Marchesín, Saravia e Luis Díaz), o treinador não passou ao lado dos lenços brancos que se viram depois da derrota caseira com o Sp. Braga, ironizando mas com uma mensagem forte pelo meio. “Quando ganho batem palmas, quando perco assobiam e mostram lenços. Os lenços brancos, esses, utilizo-os para me assoar ou para limpar o suor do meu trabalho aqui todos os dias. Isso não me pode condicionar no trabalho”, defendeu numa resposta mais direta ao que viu nas bancadas.

Fernando Madureira, líder dos Super Dragões, deu uma entrevista a propósito do momento do FC Porto e referiu que o treinador do FC Porto é o principal responsável pelos maus resultados. “Só Pinto da Costa é intocável no clube”, salientou. E ainda houve um áudio que correu as redes sociais de alguém da claque que defendia toda a necessidade de haver uma “mensagem de força a nível interno”. “O Sérgio tem de sentir que não é ele que manda ali, ele não é o Porto. O Porto somos nós”, acrescentava depois. Seguia-se a Taça da Liga. E o treinador, agastado com estes episódios, admitia mesmo abrir a porta a um cenário de saída caso tivesse ganho a competição, por forma a marcar uma posição. Acabou por perder. Ato contínuo, colocou o lugar à disposição.

A chegada ao Dragão após a final em Braga, com cerca de 40 adeptos a esperarem o autocarro da equipa no Dragão entre muitos insultos (inclusive com alguns a baterem na viatura antes da entrada para a garagem do estádio) foi mais um sinal da contestação que existe ao conjunto azul e branco, a sete pontos do líder Benfica no Campeonato com toda a segunda volta por disputar e ainda presente na Taça de Portugal e na Liga Europa. Sérgio Conceição acredita que o FC Porto pode ter uma temporada positiva com o que resta disputar mas considera ser da máxima importância um maior apoio por parte da estrutura para criar a tal união que hoje falta.

Logo após o encontro e a explosiva flash interview de apenas 80 segundos, naquela que foi a única intervenção pública após perder a final da Taça da Liga (não iria comparecer depois na conferência de imprensa), Pinto da Costa, Luís Gonçalves e outros elementos diretivos encaminharam-se ao balneário dos azuis e brancos e estiveram com o técnico até cerca de duas horas depois do final da partida, passando em conjunto pela zona mista por volta das 23h30 para um autocarro onde já se encontravam todos os jogadores. E o presidente dos dragões fez questão de ir na primeira fila junto do treinador, dando um primeiro “sinal” às palavras do Sérgio Conceição. Agora, na próxima terça-feira, a receção ao Gil Vicente mostrará também a reação dos restantes adeptos.