O julgamento do homicídio do triatleta Luís Grilo pode voltar a ser reaberto, antes de ser conhecida a decisão do coletivo de juízes. Depois de os magistrados terem decidido fazer alterações não substanciais à acusação, na última semana, a advogada de Rosa Grilo, acusada de matar o marido em coautoria com o amante, pediu para serem ouvidas mais quatro testemunhas — um pedido que, se for autorizado pelo tribunal, irá implicar a marcação de novas sessões de julgamento.

Ao que o Observador apurou junto de fonte ligada ao processo, apenas uma das quatro testemunhas já foi ouvida anteriormente. Trata-se de uma amiga de universidade de Luís Grilo que garantiu em tribunal que o triatleta lhe confidenciou que estava a ser “ameaçado” por um “parceiro angolano”, duas semanas antes de morrer. O seu testemunho veio corroborar o que Rosa Grilo sempre assegurou em tribunal: que o marido foi morto por angolanos que lhe invadiram a casa à procura de diamantes.

As restantes testemunhas agora arroladas irão a tribunal pela primeira vez. Duas delas são funcionários do departamento jurídico de duas seguradoras onde o triatleta tinha feito seguros de vida — que foram, na teoria da investigação, o móbil do crime. A estes junta-se uma pessoa ligada ao triatlo. Apesar de já terem sido ouvidos amigos de Luís Grilo que praticavam esta modalidade de atletismo e até o seu treinador, a testemunha requerida não é nenhuma destas, apurou o Observador.

A advogada de Rosa Grilo, Tânia Reis, requereu ainda prova documental por parte das seguradoras e contestou ainda as alterações feitas pelos juízes — que atribuem a Rosa Grilo a decisão de matar o marido —, alegando que não são não substanciais, mas sim substanciais.

O requerimento da defesa da arguida foi apresentado no último dia do prazo dado pelo tribunal para os advogados se pronunciarem, esta segunda-feira. Isto porque, na data para a qual estava marcada a leitura do acórdão, 10 de janeiro, o coletivo de juízes anunciou que iria fazer várias alterações não substanciais de alguns dos factos da acusação e a advogada de Rosa Grilo não prescindiu do prazo para se pronunciar sobre eles. E o tribunal deu-lhe 15 dias — que terminaram esta segunda-feira — para o fazer.

Tânia Reis, a advogada de Rosa, à saída do Tribunal de Loures, depois de a leitura do acórdão ter sido adiada (FILIPE AMORIM/OBSERVADOR)

O que se segue? O tribunal irá decidir se aceita os novos elementos apresentados pela defesa. Se aceitar, a audiência de julgamento será reaberta. No fundo, será dada uma nova oportunidade aos arguidos para se defenderem, tendo em conta as alterações que foram feitas à acusação. Só depois serão marcadas novas alegações finais e nova data para a leitura do acórdão.

Já o advogado de António Joaquim, Ricardo Serrano Vieira, não vai apresentar novos elementos e já comunicou essa decisão na semana passada. De acordo com o requerimento a que o Observador teve acesso, António Joaquim “nada tem a opor à alteração dos factos” nem tem “quaisquer outros meios probatórios que queria ver produzidos em audiência para além de todos aqueles que já foram analisados”. Esta decisão não é uma surpresa: logo à saída do tribunal, no dia em que foram anunciadas essas alterações, Ricardo Serrano Vieira tinha dito que não iria requerer novos meios de prova.

António Joaquim irá continuar aguardar os próximos passos judiciais em liberdade, com a medida de coação mínima, depois de ter sido libertado pelo tribunal no início de dezembro do ano passado. Já Rosa Grilo continuará em prisão preventiva. Pelo menos, por enquanto. Desde logo porque a advogada recorreu para o Tribunal da Relação de Lisboa, depois de o seu requerimento para libertar Rosa Grilo ter sido recusado pelo Tribunal de Loures — e se a decisão da Relação for positiva para a defesa, a arguida sai da prisão. Depois porque o prazo da prisão preventiva de Rosa Grilo acaba a 29 de março e se, até lá, não houver uma decisão, a arguida terá de ser libertada.

António Joaquim, acusado de ser o coautor do homicídio de Luís Grilo, está em liberdade há mais de um mês (FILIPE AMORIM/OBSERVADOR)

Os dois arguidos foram detidos há mais de um ano, no dia 26 de setembro do ano passado, por suspeitas de serem os autores do homicídio de Luís Grilo, tendo-lhes sido aplicada a medida de coação de prisão preventiva três dias depois. Mas o caso veio a público muito tempo antes, quando, a 16 de julho, Rosa Grilo deu conta do desaparecimento do marido às autoridades, alegando que o triatleta tinha saído para fazer um treino de bicicleta e não tinha regressado a casa.

Seguiram-se semanas de buscas e de entrevistas dadas por Rosa Grilo a vários meios de comunicação  — nas quais negava qualquer envolvimento no desaparecimento do marido, engenheiro informático de 50 anos. O caso viria a sofrer uma reviravolta quando, já no final de agosto, o corpo de Luís Grilo foi encontrado, com sinais de grande violência, em Álcorrego, a mais de 100 quilómetros da localidade onde o casal vivia — em Cachoeiras, no concelho de Vila Franca de Xira. Agora, as buscas davam lugar a uma investigação de homicídio e, novamente, Rosa Grilo foi dando entrevistas em que negava qualquer envolvimento no, agora, assassinato do marido.

A prova recolhida pela PJ levou esta força policial a concluir que Luís Grilo foi morto a tiro, no quarto do casal, por Rosa Grilo e António Joaquim, e deixado depois no local onde foi encontrado. O triatleta terá sido morto a 15 de julho, por motivações de natureza financeira e sentimental. A tese de Rosa Grilo é, no entanto, diferente: segundo as declarações que prestou no primeiro interrogatório — e que veio a reforçar em várias cartas que enviou a partir da prisão para meios de comunicação — Luís Grilo terá morrido às mãos de três homens (dois angolanos e um “branco”) que lhe invadiram a casa em busca de diamantes.

Nas alegações finais do julgamento, que se realizaram a 26 de novembro, o Ministério Público pediu, pelo menos, 20 anos e 6 meses de prisão para Rosa Grilo e para António Joaquim.