São quase 6 mil infetados e outros 9 mil casos suspeitos só na China continental. Esta quarta-feira, o número de infeções confirmadas com o novo coronavírus (2019-nCov) já ultrapassou os valores da epidemia do vírus SARS (também um coronavírus) que, entre 2002 e 2003, infetou 5.237 pessoas em território continental chinês. Nas últimas 24 horas, o balanço das autoridades chinesas deram conta de 1.459 novos casos confirmados, enquanto que o número de vítimas mortais volta a subir, estando agora nos 132.    

Os portugueses que se encontram na região chinesa mais afetada, Wuhan, deverão chegar a Portugal esta sexta-feira, a bordo de um avião da União Europeia, segundo a SIC Notícias.

Segundo os dados da Comissão Nacional de Saúde da China, divulgados em comunicado e que reportam até à meia-noite de dia 28 de janeiro, há ainda 9.239 casos suspeitos. Mas o cenário deverá ainda piorar. Segundo um especialista chinês em doenças respiratórias, o pico do surto deverá acontecer em 10 dias. Em declarações à Xinhua, agência estatal de notícias chinesas, Zhong Nanshan, que lidera a equipe de especialistas da China para controle e prevenção do vírus, sublinhou que não é possível precisar com exatidão quando acontecerá o pico, mas acredita que não deve haver “aumentos em larga escala” após uma semana ou, no máximo, 10 dias.

“É muito difícil dizer com exatidão quando o surto atingirá o seu pico. Mas penso que no espaço de uma semana, ou em 10 dias, atingirá o clímax e, em seguida, não haverá aumentos em larga escala”, disse Zhong. “Existem duas chaves para combater a epidemia: deteção precoce e isolamento precoce. São os métodos mais primitivos e mais eficazes.”

Por isso mesmo, o especialista considera que será possível conter um grande surto na China, ou uma reincidência, desde que aqueles dois métodos estejam a ser usados. Quanto ao prolongamento do surto, não acredito que vá ser longo. “O surto de SARS durou cerca de seis meses, mas não acredito que o novo surto de coronavírus dure tanto tempo”, sustentou Zhong.

Entretanto, a British Airways anunciou esta quarta-feira a suspensão de todos os voos para a China continental, seguindo ordens do Reino Unido, para evitar viagens para o país por causa do novo coronavírus. Anúncios semelhantes já tinham sido feito também pela norte-americana United Airlines, pela russa Ural Airlines, pela sul-coreana Air Seoul, pela China Airlines e Eva Airways (Taiwan). Ao grupo juntam-se ainda a Air Canada, a Lufthansa e a Cathay Pacific (Hong Kong). Estas companhias  já suspenderam os voos ou estão prestes a fazê-lo, escreve a Al-Jazeera.

Francisco George defende mudança na Constituição

Num artigo de opinião publicado no jornal Público, a propósito da nova epidemia de coronavírus, o antigo diretor-geral de saúde defende o internamento obrigatório por questões de saúde pública, o que levaria a fazer mudanças na Constituição.

“Em Portugal, é altura de deputados da Assembleia da República alterarem a alínea h) do número 3, do artigo 27.º da Constituição, no sentido de passar a ser permitido o internamento obrigatório por motivos de Saúde Pública. Inadiável”, escreve Francisco George, que aplaude a decisão de cedo se ter decidido focar o controlo no próprio epicentro da atividade epidémica. “A expressão inglesa fight at the source traduz essa medida básica que visa reduzir a propagação de novos casos da doença.”

Francisco George fala ainda dos procedimentos aplicados, “o cordão sanitário e a quarentena”, medidas “quase sempre impopulares, mas que parecem confirmar a sua eficácia ao reduzirem consideravelmente a probabilidade de exportação da epidemia (50% a 75%?). A perspetiva é impedir o crescimento descontrolado da magnitude do problema e, portanto, a sua extensão pandémica”, escreve, lembrando que este tipo de medidas foram usados em surtos como a Peste Medieval na Europa.

Portugueses devem regressar ainda esta semana

Apenas 17 dos 20 portugueses que se encontram em Wuhan, a zona onde começou o surto do novo coronavírus, têm intenções de regressar ao país. “Ao todo, 17 portugueses já manifestaram vontade de sair da China, de acordo com as autoridades portuguesas”, indicou fonte da Comissão Europeia à Lusa, após um ponto de situação feito esta tarde pelo executivo comunitário com representantes dos Estados-membros relativamente ao surto”. O regresso a Portugal deverá acontecer ainda esta semana e deverão embarcar num dos dois aviões que a União Europeia vai enviar à região chinesa.

A mesma fonte adiantou que “a maioria destes portugueses que pediram para sair deverão estar em Wuhan”, já que existem aeroportos a funcionar noutras cidades chinesas.

“O Governo português, no quadro dos mecanismos de cooperação e solidariedade europeias, confirma que está em curso o processo preparatório da repatriação, para breve, dos nacionais residentes em Wuhan que manifestaram vontade de regressar ao nosso país”, pode ler-se num comunicado conjunto dos Ministérios dos Negócios Estrangeiros, da Administração Interna e da Saúde ao qual o Observador teve acesso.

“Esta operação envolve os serviços consulares, de proteção civil e de saúde do Estado português, em consonância com os protocolos internacionais definidos, e será executada em coordenação com as autoridades chinesas e com o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia”, garantiram, acrescentado que os “contornos específicos desta ação serão anunciados oportunamente”.

Esta quarta-feira, em conferência de imprensa em Bruxelas, o comissário europeu para a Gestão de Crises, Janez Lenarčič, indicou que, “até ao momento, um total de quase 600 cidadãos da UE manifestaram o seu desejo em sair da China” em ações de repatriamento.

Sem precisar quantos cidadãos de cada país estão em causa, Janez Lenarčič disse apenas que se trata de nacionais da Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Espanha, Finlândia, França, Itália, Letónia, Países Baixos, Polónia, Portugal, Roménia e Reino Unido.

Na terça-feira, Bruxelas anunciou o envio de duas aeronaves, entre quarta e sexta-feira, para repatriar 250 franceses e outros 100 cidadãos europeus que o solicitem, “independentemente da nacionalidade”. O primeiro avião deverá ter saído já esta quarta-feira de Wuhan com os cidadãos franceses e, na sexta-feira, deverá ser repatriado o segundo grupo de europeus, onde se incluem os portugueses. Quando chegarem a Portugal, os viajantes irão passar imediatamente por uma avaliação clínica, explicou a diretora-geral de saúde, Graça Freitas, e serão enviados para suas casas, dependendo do “risco inicial”.

“Se nos últimos 14 dias, que é o período de incubação, não tiverem saído de casa, o risco é baixíssimo”, detalhou Graça Freitas, explicando que, nesse caso, os pacientes ficarão “com medidas de vigilância”.