É lusco-fusco o bar na Associação Desportiva e Recreativa da Pasteleira. Ao centro de uma sala ampla e com balcão retangular em volta, feito do metal que deixa ecoar o som das chávenas que carregam café, ao pousarem, é lá que meia dúzia de clientes habituais contam as horas até aos treinos da tarde.

“Vamos ter um clube novo, agora”, lança Caíca, antes de beber o café de uma vez. Por ali é tema de conversa a transferência milionária de Bruno Fernandes, por 55 milhões dos leões para o Manchester United.

Já passou uma dezena de anos desde que o puto “franganote” deslizava pelos relvados, na altura de relva natural, dos campos do clube bairrista. Nunca lá pertenceu verdadeiramente, mas jogava emprestado pelo Boavista.

O rapaz que sonha muito antes dos jogos e reclama a dormir que lhe passem a bola

“Quando veio tinha 12 ou 13 anos. Nem menos, nem mais”, confere António Fonseca. Ou Toni. “Tem de escrever ‘Toni roupeiro’ ou ninguém vai saber quem eu sou”, alerta.

À porta do café, suficientemente perto das grades losangulares, para não levar com pingos da tarde que se fez chuvosa, Toni esboça confiança na garantia de que ali dentro ninguém conhece melhor Bruno Fernandes. “Era eu quem lhe dava roupa para treinar e para jogar”. Primeiro no Boavista; depois no Pasteleira.

Bruno Fernandes, com 25 anos, começou a jogar com o número 18 pelo Manchester United. Pode estrear-se no clube inglês já este sábado

De qualidades, realça-lhe a humildade e o esforço, para além do “pé esquerdo fabuloso”, apesar de destro. Lembra que “nunca parava quieto, estava sempre a pegar-se com os colegas”. Uma vez, em França, atirou-se para a piscina de um hotel sem autorização e levou uma rebocada. Depois dos treinos, por morar longe, raro era o dia em que não ficava para último na hora em que a carrinha ia levar os jogadores a casa.

Na sala ampla do clube inaugurado oficialmente em 1962, há o som do snooker ao fundo e um quadro que postra uma fotografia da equipa de juvenis da época 2009/2010, com taças e troféus numa cómoda em baixo. Caíca despega-o da parede e olha-o de perto. Parra a ser um auxiliar de memória.

Bruno Fernandes (último ajoelhado, à direita) com 16 anos, jogava como juvenil do Pasteleira

Na fotografia, Bruno surge escondido num cabelo comprido, “à menina”, diz Caíca, ajoelhado e magro na ponta direita. “Eu era miúdo e lembro-me”, garante. Seis anos mais velho, já desfilava o fato de treino pelos corredores dos balneários do Pasteleira quando Bruno lá entrou. Nunca se fez ao relvado, mas a ligação manteve-se e hoje ainda é lá colaborador.

– Nessa altura ninguém dava nada por ele porque ela pequenino, franganito, magrinho, garante Toni.
– Mas ele, humilde como é, merece estar onde está”, retorque Caíca.
– Merece isto e muito mais. E vai conseguir”, remata Toni.

Com o aproximar das seis da tarde, hora de início dos treinos, o som dos tacos de snooker conjuga-se com a música cigana que passa como fundo. Caíca propõe mostrar os campos.

Um túnel de balneários faz ecoar a voz do portuense e desagua em dois campos novos e um meio campo de terra batida. “Era neste que o Bruno treinava”, recorda. Na altura, era já percetível “que ele podia ser um grande jogador, mas não sabíamos era que ia dar o salto que deu”.

Bruno alternou uns anos entre os axadrezados e o Pasteleira, até voar para Itália. Lá passou pelo  Novara, pelo Udinese e pelo Sampdória, até, em 2017, voltar a casa e às cores de sempre, o ver e branco, mas desta vez a jogar pelos leoninos.

Menos de três anos bastaram até que o médio de 25 anos natural da Maia fosse repescado para a liga inglesa, de futebol rápido, “como o dele”, diz Toni.

55+5+5+15 e 10% da mais-valia: os números oficiais da venda de Bruno Fernandes ao Manchester United

“Os miúdos andam só a comentar a transferência do Bruno”, sussurra Caíca, orgulhoso. Às 18h, em vez de marcarem pontualidade nos treinos, vários outros brunos, de chuteiras e com as cores do Pasteleira, olhavam para as notícias da televisão e sonhavam um dia ser o Bruno.

“É bom para o departamento de formação”, sublinha, ainda sem saber o que vai ser feito do dinheiro que também cairá sobre os cofres clube de bairro. “Isso só o presidente saberá”.

E Carlos Rocha sabe. Há dois anos ao leme daqueles relvados, agora sintéticos, onde jogam sete equipas dos sub11 aos juniores, o presidente já delineou para onde canalizar os mais de 200 mil euros que Bruno Fernandes irá render. Vai “pagar de vez” as dívidas do clube, comprar duas carrinhas para “trazer mais miúdos” para a formação e remendar o complexo. “É preciso construir uma bancada para os sócios e para os pais que veem jogos à chuva”.

Pelas 19h, uma das várias equipas de Sub-11 inicia um treino. “Há ali um miúdo que já de destaca”, comenta o presidente Carlos Rocha.

Caíca e Toni passam horas a ver os treinos dos mais novos e a tentar adivinhar quem poderá singrar a seguir. Ambos mantém contacto com Bruno Fernandes. “Até tenho aqui mensagens, posso-lhas mostrar, até”. Toni saca do telefone.

Lê-se: “Não te esqueças da camisola para o teu amigo Toni”.

Bruno responde: “Não te preocupes, amigo. Tenho uma guardada para ti”.

Se a camisola do Sporting nunca chegou, talvez venha uma agora, em correio expresso, com remetente de morada inglesa.