Título: O Caminho Contra o Vento
Autora: Cristina Carvalho
Editora: Relógio D’Água

Pode ser complicado, por vezes, escrever sobre um artista que admiramos. Qual a melhor abordagem? Se por um lado é imperativo evidenciar a sua aparente genialidade, por outro não queremos cair no erro de transformar o nosso texto num mero exercício laudatório. Que facetas do artista abordar? Apenas a sua obra, ou também faz sentido incluir aspetos biográficos?

Tudo se torna mais difícil se o artista em causa for amplamente considerado um génio, alguém cuja obra deixou uma marca indelével no mundo, como é o caso de Ingmar Bergman. É por isso que este livro de Cristina Carvalho se torna numa leitura essencial. Não se trata de uma mera biografia que elenca os principais momentos da história de Bergman, ou um ensaio cinematográfico sobre a importância do realizador para a sétima arte. É sim um relato contido e intimista, contado na primeira pessoa por um Bergman fictício, abrangendo, ironicamente, toda a sua vida, desde o momento do seu nascimento até após a sua morte.

Apesar de este Bergman ser uma criação de Cristina Carvalho, que nunca teve a oportunidade de privar ou conhecer o realizador, o leitor fica com a sensação de que de facto o Bergman real teria pensado e agido daquela maneira. Este livro é fruto de um conjunto de elementos que, quando reunidos, formam a base necessária para uma descrição apaixonante e fiel deste homem.

Para além de um estudo intenso dos arquivos de Bergman, que lhe deram a conhecer os seus escritos e alguns dos seus pensamentos mais íntimos, Cristina Carvalho conversou com quem o conhecia de perto, o que a ajudou a perceber mais sobre a sua personalidade e a forma como lidava com outros. Talvez mais importante que isto, a autora visitou e respirou o ar da ilha por que Bergman se apaixonou, Farö, no meio do Mar Báltico, local essencial para a vida do artista, sendo dele indissociável.

Em O Caminho Contra o Vento, Farö é uma extensão do próprio realizador, ao mesmo tempo local físico onde habita, e refúgio psicológico onde se sente em paz. Foi, assim, fundamental para a autora andar pelos mesmo caminhos calcorreados por ele, olhar para as mesmas águas, ser bafejada pelos mesmo ventos, e também contra eles caminhar. Só assim poderia alguma vez esperar entender parte de Bergman.

Quem nos fala a partir das páginas de Cristina Carvalho é um homem idoso, de hábitos inalteráveis, e de paciência curta. Sabe perfeitamente que está a falar com o leitor do livro, e que é dele uma personagem. A própria autora entra algumas vezes em conversação com ele. Este Bergman mantém-se assim bem vivo, continuando a contar a história do seu legado e da ilha de Farö após ter falecido em 2007. Está completamente consciente de si, no passado e no presente, e até por vezes no futuro, recordando tanto o dia do seu nascimento em 1918 como a visita de Cristina Carvalho à sua casa em 2019, doze anos após a sua morte.

É nesta dicotomia entre passado e presente que o texto vive, quase sempre entre a infância e a velhice. Pode dizer-se que a infância de Bergman não foi a mais feliz. Parte dela foi passada sentindo pavor do seu pai, um pastor luterano extremamente severo, punitivo e violento. O realizador descreve alguns desses episódios mais atemorizantes, quando o pai o trancava numa arrecadação escura, tendo apenas como companhia as sombras que o envolviam, criando monstros na imaginação do jovem Bergman. O surgimento de figuras monstruosas ou fantasmagóricas, criadas por uma mente sujeita às mais cruéis circunstâncias,  era uma situação algo comum para Bergman, e de certa forma veio a influenciar parte da sua estética cinematográfica.

A presença omnipresente da morte em alguns dos seus filmes nasce destes traumas. Nesta infância atribulada surge uma figura salvífica, a sua avó materna, que num contexto familiar não disfuncional poderia passar despercebida. As longas temporadas que Bergman passa com ela são o seu refúgio de um ambiente familiar hostil, podendo agir e falar livremente.

Ao contrário da sua infância, a velhice de Bergman é passada pacificamente, num mundo criado e controlado, o mais possível, por si próprio. O rigor violento do seu pai é substituído por uma organização concebida para facilitar a vida do realizador, e para que dela possa aproveitar o máximo. Não se pode deixar de referir aquela que talvez seja a parte mais curiosa da rotina diária do realizador: todos os dias, às três da tarde, dirige-se para um celeiro, que transformou em cinema, para rever os filmes da sua vida. Pode dizer-se que, assim como quando o seu pai o trancava, Bergman continua a estar fechado num local escuro, de onde surgem sombras e imagens, o que muda é a força que o leva a isso.

Para aqueles que apenas o conhecem pela sua obra cinematográfica será difícil não encontrar os temas e imagens dos seus filmes repetidos nesta obra, rodeando o realizador, presentes na sua vida desde o início, como já referido. O isolamento na ilha leva-o muitas vezes à questão da mortalidade e do legado que deixa, especialmente para os seus filhos, com os quais, admite, pouca relação teve. Como é óbvio, não pode faltar uma breve reflexão sobre Deus, e de como ele se manifesta de certa forma na ilha, nas suas várias características.

O Caminho Contra o Vento é o produto de alguém que, apesar de nunca ter falado com Bergman, sente que o conhece suficientemente bem para o poder pôr a falar sobre si próprio de forma bastante intimista. Muitas vezes sentimos isso com os artistas que admiramos, e sobre os quais é tão difícil falar, pois parece que falam diretamente connosco a partir das obras que realizaram. Este é um livro escrito com a uma paixão pelo cinema e por Bergman, aliado a um trabalho cuidadoso de investigação.