Um dia depois de terem recomendado uma sentença de sete a nove anos de prisão efetiva para Roger J. Stone Jr., o ex-conselheiro e amigo de longa data de Donald Trump considerado em novembro passado culpado de mentir ao Congresso numa tentativa de obstruir a investigação à interferência da Rússia nas eleições presidenciais de 2016, quatro dos procuradores encarregues do caso anunciaram que já não fazem parte da equipa que investigou e construiu o processo de acusação  — um deles foi mais longe e, além de abandonar o caso, apresentou também a demissão do Departamento de Justiça.

De acordo com o New York Times, os procuradores ficaram “furiosos” com a intervenção inédita do Departamento de Justiça, que veio reverter a sua recomendação de sentença e pedir uma pena menos pesada, considerando os nove anos de prisão “excessivos”. “Em última análise, o governo defere para o tribunal a sentença específica que será apropriada tendo em conta os factos e as circunstâncias deste caso”, concluiu o Departamento de Justiça no documento, em que também aludiu à idade do acusado, 67 anos, e à inexistência de registo criminal.  Há apenas três meses, em novembro de 2019, Roger Stone foi considerado culpado de sete crimes: um de obstrução à justiça, outro de condicionamento de testemunhas e cinco de prestação de falso depoimento.

A intervenção do Departamento de Justiça teve lugar seis dias depois da absolvição de Donald Trump pelo Senado norte-americano no processo de impeachment e poucas horas depois de o presidente se manifestar publicamente, como de costume via Twitter, contra a recomendação de sentença dos procuradores: “Esta é uma situação horrível e injusta. Os verdadeiros crimes aconteceram do outro lado, e a eles nada acontece. Não podemos permitir este falhanço da justiça!”.

A coincidência temporal fez ressurgir de imediato as dúvidas sobre se o Procurador-Geral William P. Barr estará ou não a ceder às pressões da Casa Branca, com Donald Trump a ser acusado de interferir no processo legal.

Mary McCord, ex-chefe da Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça, foi das primeiras a criticar a decisão e a acusar Barr de ser conivente com Trump: “Este é um golpe devastador para a reputação do departamento nos tribunais. A única coisa que parece estar a causar isto é o presidente, e a noção de que o departamento vai fazer o jogo político do presidente”. “Nunca pensei que algum dia iria dizer algo assim. Alguns destes danos vão ser muito difíceis de reparar”, acrescentou McCord.

Eric Holder, procurador-geral durante a administração Obama, foi ainda mais duro nas acusações, considerando que esta decisão “é aberrante e inconsistente com um Departamento de Justiça a funcionar de forma tradicional e não política”.”Ações como esta colocam em risco a perceção — e a aplicação real — da neutralidade das nossas leis e, no limite, colocam em perigo o próprio tecido da nossa democracia. Os que estão envolvidos nesta decisão deve ser chamados para explicar as suas ações”, acrescentou.

Donald Trump, por seu turno e já durante a madrugada desta quarta-feira, atacou os procuradores cessantes e repetiu uma piada gasta, tornando a comparar a equipa de procuradores formada pelo procurador especial e ex-diretor do FBI Robert Mueller para investigar a alegada intervenção russa nas presidenciais de 2016 com o filme de tribunal “12 Angry Men”.

“Quem são os quatro procuradores (gente do Mueller?) que fugiram depois de serem expostos por recomendarem uma ridícula pena de 9 anos de prisão para um homem que foi apanhado numa investigação ilegal, o Golpe Mueller, e que nem sequer devia ter começado? Os 13 Democratas Zangados?”, escreveu o presidente dos EUA na sua conta de Twitter.

O New York Times respondeu-lhe e publicou entretanto um artigo a revelar a identidade dos quatro procuradores que ao longo desta terça-feira abandonaram o caso. Aaron S.J. Zelinsky, de 36 anos, foi o primeiro a sair. Seguiram-se-lhe Adam C. Jed, de 38; Michael J. Marando, 42; e Jonathan Kravis, procurador assistente de 42 anos que, além de deixar o processo contra Roger Stone, se demitiu também do Departamento de Justiça.