A Reserva Federal dos EUA, o banco central norte-americano, anunciou este domingo um mega-plano de intervenção na economia, através da política monetária, o que inclui um corte das taxas de juro para zero (em rigor, um intervalo entre 0,0% e 0,25%, já que a Fed define as taxas de juro em intervalos). O anúncio foi feito ao mesmo tempo que vários bancos centrais mundiais, incluindo o BCE, lançaram uma plataforma de injeção de liquidez em dólares – outra decisão que tenta evitar o que poderia ser mais uma “segunda-feira negra” nos mercados financeiros.

A decisão não é totalmente inesperada, mas vários economistas tinham apontado que a Reserva Federal (Fed) poderia anunciar um plano na reunião da próxima quarta-feira, para combater (ou mitigar) a recessão económica nos EUA. O anúncio acabou, porém, por vir mais cedo do que o esperado, num conjunto de medidas que tentam tornar a concessão (e renovação) de crédito na economia da forma mais barata que for possível.

Este é um nível de taxas de juro que a autoridade monetária antecipa que “irá manter-se em vigor até que a Fed se sinta confiante de que a economia superou os eventos recentes”, escreve o banco central no comunicado que foi divulgado este domingo.

O plano não inclui apenas o corte das taxas de juro – que estavam num intervalo entre 1% e 1,25%. Além disso, o banco central vai recomprar pelo menos 700 mil milhões de dólares numa recuperação daquilo que foram os sucessivos programas de compra de dívida (quantitative easing) – serão injetados, por essa via, pelo menos 500 mil milhões de dólares na recompra de títulos de dívida pública norte-americana e 200 mil milhões de dólares em “pacotes” (titularizações) de dívida hipotecária. É, no fundo, uma nova edição do plano de intervenção que foi lançado para conter os danos da crise financeira de 2008.

A Reserva Federal, liderada por Jay Powell, deixa claro no comunicado que irá fazer uso de “todas as ferramentas à sua disposição” para apoiar a economia e assegurar o “funcionamento normal dos mercados” financeiros. A Fed já tinha anunciado um corte da taxa de juro no dia 3 de março mas o agravar das perspetivas económicas nos últimos dias – algo espelhado na forte queda das bolsas em vários dias da última semana – levou o banco central a apresentar um plano radical de intervenção massiva nos mercados financeiros.

Para já, porém, o banco central norte-americano opta por não cortar as taxas de juro para território negativo, algo que nunca foi feito na história dos EUA e que Jay Powell já disse querer evitar a todo o custo, pelos efeitos colaterais que isso pode causar na economia e no setor financeiro.

Já esta manhã de domingo, o banco de investimento holandês ING tinha antecipado que a Fed poderia estar a preparar um mega-plano de estímulo monetário que equivaleria a um “all in“, no jogo de Poker – todas as fichas em cima da mesa. Embora o ING antecipasse que essa decisão poderia vir na próxima quarta-feira, os economistas já apontavam que “não responder de forma robusta [à deterioração súbita da economia] criaria o risco de se transformar uma situação já intensa e disfuncional nos mercados em algo muito pior”.

“Esta decisão, por si só, não vai salvar a economia dos EUA da recessão, mas vai ajudar a mitigar os riscos que as tensões financeiras poderiam representar para o crescimento económico e para o mercado de trabalho, riscos que poderiam tornar-se muito, muito mais graves”, afirmavam os economistas do ING, sublinhando, porém, que “apenas notícias mais positivas sobre o prognóstico da pandemia Covid-19 irão fazer regressar a ‘normalidade”.

O que poderá ajudar, também, a estabilizar os mercados financeiros é a injeção coordenada de liquidez em dólares que foi anunciada ao mesmo tempo (também este domingo) pelo Banco Central Europeu, Banco do Canadá, Banco de Inglaterra, Reserva Federal e Banco Nacional Suíço.